A arbitragem feminina (artigo Vítor Rosa, 205)

Espaço Universidade 08.08.2022 14:10
Por Vítor Rosa

A arbitragem desportiva é, atualmente, predominantemente masculina. É pena que assim seja, pois as mulheres possuem todas as qualidades para serem grandes árbitros, mas não são reconhecidas.
 

Em França, Stéphanie Frappart foi pioneira na arbitragem de jogos de competições masculinas. Entre 2004 e 2009, a suíça Nicole Petignat apitou três jogos da fase de qualificação da Taça UEFA. Em Portugal, Vanessa Gomes, nascida em 1987, foi a primeira árbitra assistente do futebol profissional masculino em Portugal. Em maio de 2022, a FIFA revelou uma lista com 105 árbitros que estarão na Copa do Mundo, Qatar, dos quais 6 são mulheres.
 

Três sociólogos (Terfous, Pironom & Rix-Lièvre, 2019) estudaram jovens mulheres (15 e 24 anos), que arbitraram jogos de futebol e râguebi, tanto masculinos como femininos. O seu estudo mostrou a complexidade do posicionamento destes árbitros. Para assegurarem o respeito pelo seu profissionalismo, tendem a adotar certos traços associados aos homens (autoridade, força, virilidade), mas não parecem afastar-se das normas corporais dominantes. Elas cuidam da sua imagem e enfatizam a sua feminilidade, em grande parte “devido às expectativas institucionais e aos receios dos pais”. O râguebi é uma preocupação particular das mães, que muitas vezes temem uma forma de masculinização do corpo das filhas. As árbitras parecem estar divididas entre duas injunções contraditórias: “um corpo muscular, dadas as exigências físicas do jogo, e um corpo magro, atraente e desejável para os meios de comunicação e para a sociedade. Outro ponto interessante é que ser mulher não as encoraja a arbitrar mais jogos femininos, muito pelo contrário. “A maioria delas tem perceções negativas ou desvalorizadas das ligas de futebol feminino e de râguebi, e quer jogar nas ligas masculinas”. Isto é, especialmente, verdade no râguebi, onde 75% destas árbitras querem arbitrar em competições masculinas.
 

Le Tiec (2016) revela que as carreiras das mulheres na arbitragem não são determinadas por uma carreira desportiva frustrada, nem por uma questão de teimosia ou aspiração pessoal, nem ainda pela força de um questionamento respeitoso da ordem do género. Pelo contrário, os determinantes sociológicos lembram-nos que ainda existem processos que excluem as mulheres da arbitragem.
 

Um pouco mais acutilantes, Achin e Levêque (2007) sublinham que as mulheres são toleradas no mundo da arbitragem desde que, como na política, sejam ocasionalmente utilizadas como ferramentas de “reencantamento”.

No âmbito da arbitragem feminina ainda existe um longo caminho a percorrer.


Referências:

Achin, C., & Lévêque, S. (2007). Femmes en politique. La Découverte.

Le Tiec, L. (2016). Les arbitres féminines sur la touche ? Conditions d’entrées et de déroulement de carrières des femmes arbitres de football. Marché et Organisations, 27(3), 131-148.

Terfous, F., Pironom, J., & Rix-Lièvre, G. (2019). Les jeunes femmes arbitres de football et de rugby : des êtres d’exception ?. Agora débats/jeunesses, 81(1), 123-143.



Vítor Rosa

Sociólogo, Pós-Doutorado em Sociologia e em Ciências do Desporto, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática.

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