Olha a hora!... (artigo de José Neto, 143)

Espaço Universidade 27.07.2022 11:59
Por José Neto

Ao arrancar mais uma época e após um tempo propício para uma melhor inserção de novos membros, capazes de construir um elo de proximidade mais coeso, associando a validação de competências psicológicas, sociais, técnicas, táticas, biológicas e, especialmente uma agregação de traços de identidade perante o símbolo do clube, portador de valores éticos e deontológicas muito próprios, importa refletir numa ideia com base numa previsibilidade funcional das equipas em prova.
 

Após as avaliações de vária ordem, muito em especial ao nível das capacidades antropológicas, biológicas, cárdeo funcionais, motoras, etc…, geralmente todas as equipas optam por realizar estágios na pré-época, procurando associar à planificação das cargas específicas de treino a realização de alguns jogos, competindo com equipas de maior ou menor dificuldade de exigência.
 

Algumas equipas nesta fase procuram realizar competições de dificuldade crescente, na tentativa de obter resultados positivos, e com isso ver valorizado os seus índices de confiança, vendo nisso um apelo para a otimização do sucesso no futuro imediato.
 

Outras equipas provenientes de clubes com uma maior dimensão estrutural e candidatos a patamares de excelência competitiva, retirando daí muitas vantagens económicas, procuram associar ao estágio, competições em torneios de nível internacional e que pela mais-valia do adversário, se dispõem a correr riscos de acusar um rendimento e resultado em desconformidade com expectativas à priori criadas.
 

A pergunta que se pode fazer neste momento é a seguinte: qual a importância que se pode imputar a equipas cujos rendimentos e resultados foram negativos? Equipas cujos rendimentos foram negativos e resultados positivos? Equipas cujos rendimentos foram positivos e resultados negativos? E tudo isto condicionado por um conjunto de jogadores disponíveis para a competição; a inserção de novos jogadores; jogadores que advêm de competições próximas ao nível das seleções ou de possíveis estados do reaparecimento após lesão, etc…
 

Não tenho dúvida que qualquer derrota nesta fase, mesmo que seja desvalorizada pelo seu líder, pode ser objeto de preocupação, inquietação, dúvida e geralmente perturbadora, caso se veja repetida. Poderá, no entanto, acontecer que a adversidade perante resultados menos bons nesta fase, a equipa possa reagir para um novo estímulo renovador, pelo despertar coletivo de novas matrizes de competência, transferindo dificuldades em oportunidades, vendo imprimida uma nova cultura de exigência.
 

Importa ainda anotar uma referência ao nível da liderança comunicacional do líder/ treinador. Sabemos que qualquer mensagem para que atinja um objetivo assertivo, deverá estar revestida de clareza, exposta de forma otimista e positiva e sem duplo significado, cuja expressão verbal e não verbal demonstre coerência, devendo separar os factos das opiniões e bem sintonizadas com objetivos positivos de conquista.
 

Por vezes verificamos que a credibilidade do treinador fica afetada quando uma resposta se vê emocionalmente traída por um desespero indesejado e por isso inoportuno.
 

É claro que tudo isto faz parte da identidade do treinador como comunicador e líder e como expressa o tipo de comportamento da liderança no seu desempenho, quer por via da instrução e treino, quer por via democrática, recompensadora, de apoio social, explorando a preceito com inteligência, empatia, motivação intrínseca, flexibilidade, ambição, autoconfiança e otimismo os seus atributos.
 

Está na hora!... Vamos iniciar mais uma época desportiva. Espero e desejo que se possa mobilizar num permanente e incessante compromisso entre:
 

Jogadores – os fiéis interpretes da dinâmica que o desenvolvimento do jogo promove a todo o instante. Aqueles que colocados no estádio, as suas esperanças e medos são expostos em frente de milhares de espectadores e convertem a vontade de vencer numa questão de treino e a maneira de vencer numa questão de honra!... e são tantas as vezes que os jogadores carregam uma cruz duma vida virtualmente fácil, abnegada e talvez incompreendida!...
 

Treinadores – que estejam sempre disponíveis para medir a autocrítica de forma séria e descomprometida e também capazes de motivar para o triunfo e aceitar o fracasso, e sempre disponíveis para administrar os valores da honestidade e a firmeza das convicções. Procurar ser também bons conselheiros com um modelo de comportamento exemplar, segundo o qual permita corrigir sem ofender e orientar sem humilhar.
 

Árbitros – Todos sabemos que emitir juízos com a máxima brevidade de tempo e confirmar o caráter irreversível da decisão tomada, não é tarefa fácil, nem facilmente compreendida. É evidente que a crítica ao árbitro é necessária e indispensável. Mas as disponibilidades técnicas do esclarecimento deveriam salvaguardar a sua credibilidade no contexto agonístico do jogo, evitando a todo o custo que a sua figura seja praticamente anulada pelo primado exclusivo da tecnologia.
 

O estado do comportamento humano do árbitro, a sua personalidade, os seus valores, os seus critérios, deverão prevalecer, porque antes do árbitro está a pessoa. E é por isso que o árbitro deverá ter no jogo uma capacidade de estima e não abuso do poder, que por vezes desorienta quem joga e estimula negativamente quem ao jogo assiste.
 

Dirigentes – quantos são aqueles que arrancam do seu labor ocasião e forma de protagonizar para o seu clube o tesouro dos maiores entre os grandes?!... Porventura alguns percorrem de forma intempestiva os corredores do poder, vendo no Futebol um exercício compensatório de personalidades frustradas no campo pessoal e profissional, desprezando as regras adjacentes ao bom senso e razão!... Reclama-se um longo caminho a percorrer que o empreendimento desportivo exige no que respeita à competência e profissionalismo dos seus agentes.
 

Adeptos – que gritam e vibram com o peso da sua bandeira, numa profunda relação de afetos no apoio participativo. Contudo verifica-se de forma frequente situações conflituosas, confirmando ou contrariando expectativas do resultado e de imediato o lugar à cólera e euforia perante as fases mais relevantes: marcação ou não dum penalty, golo falhado, falta inexistente e o estádio transforma-se por vezes numa labareda de opiniões, com efeitos por vezes dramáticos.   
 

Orçamentos estabelecidos, objetivos formulados, rentabilização de competências e partida para uma nova época, onde se apuram comportamentos, se invocam convicções, se ajustam desejos e todos partem para mais uma viagem de sonho.
 

Deixemo-nos levar pela imagem dum belo jogo de Futebol. Se repararmos bem, a potencial dinâmica do jogo dispõe de facto de uma magia inigualável … durante 90 minutos é possível condensar muitas histórias e reproduzir muitas graças que a vida nos oferece. Daí um dos seus principais encantos!... 
 

BOA ÉPOCA!...


José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador Treinadores F.P.F./ U.E.F.A.; Docente Universitário – Universidade da Maia; Embaixador Nacional para a Ética e Fair Play no Desporto.


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