O vil metal dita a mudança! (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 54)

Espaço Universidade 09-01-2022 00:20
Por Armando Neves dos Inocentes

Num livro com quase quarenta anos, de autoria de Lawrence Sanders (1), estabelece-se um paralelo entre um cientista e um detective de homicídios.

 

E para isso faz uma analogia com um homem confrontado com um animal selvagem numa floresta e um cientista num laboratório. Na floresta, um animal selvagem prepara-se para se atirar sobre o homem ameaçando-o de presas arreganhadas e garras prontas. No laboratório, o cientista tem o animal, anestesiado, à sua mercê.

 

No seu laboratório, o cientista preocupa-se em classificar a fera: família, género, espécie; a sua aparência externa - a sua morfologia –, a sua constituição anatómica e a sua fisiologia; o seu ‘habitat’ natural, os seus hábitos de alimentação, acasalamento e reprodução. Eventualmente de que anteriores formas animais evoluíra.

 

Para o homem que se encontra na floresta, ameaçado, tudo isto seria extrínseco, sem significado algum. Tudo quanto ele conheceria seria o medo, o perigo, a ameaça, e a sua preocupação estaria focada na sua sobrevivência.

 

O detective de homicídios era o homem da floresta. O criminologista, o psicólogo ou o sociólogo era o homem do laboratório. O homem do laboratório interessava-se por causas. O homem da arena interessava-se por factos, pelas provas que conseguiria descobrir e pelos acontecimentos que poderia provar.

 

Hoje em dia já não é exactamente assim. Diluiu-se a fronteira entre o detective e o criminologista e aquele tornou-se também cientista. E o homem do laboratório, para além da investigação, tem de recorrer aos factos, à pesquisa, ao cruzamento de dados… tem de comprovar hipóteses, tem de inferir soluções.

 

No desporto também temos de recorrer a factos, a acontecimentos, a fim de testar hipóteses e apresentar conclusões. A análise de um acontecimento terá de ter um suporte, um fundamento, terá de se apoiar em parâmetros de análise e retornar de novo ao acontecimento a fim de chegar a conclusões, estabelecer padrões de conduta ou até analisar e descodificar representações sociais.

 

No início do presente ano, António Simões – o jornalista, não o ex-futebolista – trouxe-nos em «A Bola» a história de Francisco Ferreira, o primeiro futebolista português a chegar às vinte e cinco internacionalizações.

 

A 3 de Maio de 1949, o Torino perdeu frente ao Benfica por 4-3, no Estádio do Jamor, no jogo particular de despedida do então capitão da equipa portuguesa, Francisco Ferreira. No regresso da equipa italiana a casa, a catástrofe, a tragédia: o avião embate na Basílica de Superga… vitimando os trinta e um ocupantes, dos quais dezoito jogadores e seis dirigentes do Torino. A federação italiana decidiu atribuir o título ao Torino, que na altura do acidente liderava o campeonato italiano com quatro pontos de avanço sobre o Inter. Nas últimas quatro jornadas, o clube alinhou com a equipa júnior, e, segundo se conta, o mesmo fizeram os seus adversários (a ser verdade, este é um pormenor relevante comparado com o que acontece nos dias que correm).

 

E António Simões («A Bola», 02.01.2022) diz-nos que Francisco Ferreira “destroçado pela «desgraça», dos seus colhidos ganhos enviou 50 contos aos filhos dos «amigos que a morte levou».” Solidariedade desinteressada: na altura estes actos não faziam manchetes nos jornais, não eram visíveis na TV nem se tornavam virais nas redes sociais!

 

Virgílio Mendes, antigo futebolista do Porto que terminou a carreira em 1962, falecido em 2009, despertou o interesse do Celta de Vigo em 1951, que lhe ofereceu 15 mil pesetas de salário por mês (uma fortuna nessa época) e um prémio de assinatura de 500 mil pesetas. Recusou a oferta, constando-se que teria dito mais tarde que “trocar de camisola apenas por causa do dinheiro, se não era violentar o coração e o clube, era pelo menos aceitar viver como um mercenário” (2). Era o ‘ethos’ do amor à camisola…

 

Em Junho de 2011, David Beckham, que integrou o comité de candidatura inglês ao Campeonato do Mundo de 2022, criticou abertamente a FIFA quando foram conhecidas as primeiras suspeitas de corrupção na atribuição deste ao Qatar. Uma década depois Beckham cede a sua imagem a esta prova, tornando-se embaixador do Campeonato, contra a quantia de 177 milhões de euros («The Guardian», 31.10.2021). Beckham, o qual teve (e nalguns casos ainda tem) contratos com  marcas como a Adidas, a Pepsi, o ‘whisky’ Haig Club, a Emporio Armani e a Gillette. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

 

Para se entender o fenómeno desportivo, para se perceberem as manchetes nos jornais, as notícias na TV e a viralidade nas redes sociais, para se saber porque se perdeu o ‘ethos’ do amor à camisola e para entendermos a mudança dos tempos e das vontades, não basta conhecer o homem do laboratório e o homem da floresta, o seu trabalho, o seu sentir ou o seu modo de agir.

 

O fenómeno desportivo e todo o seu peso na sociedade só poderá ser entendido se entendermos que o vil metal dita a mudança…

 

Ao longo da história as entidades empregadoras sempre apostaram em pagar o salário o mais baixo possível aos seus empregados. Isto fazia com que os trabalhadores não tivessem capacidade para adquirirem toda a produção. Havia excedentes… havia prejuízos… Inventaram-se então os bancos e o crédito ao consumo. Inventou-se a publicidade. O endividamento resolveu a situação! O fenómeno desportivo não foge a esta dinâmica: chama-se a isto capitalismo. Lawrence Sanders dizia que “existe um buraco do caraças entre saber e provar”…

 

A teoria de que o desporto é o reflexo da sociedade já não tem suporte, porque o que acontece actualmente é exactamente o contrário. É o desporto que molda e gere a sociedade. Esta regula-se à sua imagem. Prova disso está no artigo de José Manuel Meirim intitulado “Um apagão” («Público», 07.01.2022) quando, abordando a aprovação da nova lei antidopagem no desporto, constata o seguinte: “Aí afirma-se sem pudor que a responsabilidade do praticante desportivo é objectiva, não dependendo a responsabilidade pela violação de norma antidopagem da prova da intenção, culpa, negligência, ou da utilização consciente de substâncias ou métodos proibidos por parte do praticante desportivo. Ora, tal proposição encontra-se em flagrante contradição com um princípio fundamental do direito sancionatório português, com suporte constitucional: o princípio da culpa. Neste caso a ordem jurídica nacional não se apaga, sofre um apagão em nome do combate à dopagem.”

 

Lawrence Sanders diria que “político era fazer as coisas certas pelas razões erradas, e as coisas erradas pelas razões certas.”

 

(1) Sanders, L., 1983. “O Terceiro Pecado Mortal”. Lisboa: Círculo de Leitores.

(2) Inocentes, A. N., 2018. “O desporto debaixo de fogo - entre valores e perversidades”. Lisboa: Prime Books.

 

Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 6º dan de Karate-do e treinador de Grau IV.

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