Atualidade da mensagem do Dr. Fernando Gomes (artigo de Manuel Sérgio, 375)

Espaço Universidade 06-01-2022 21:02
Por Manuel Sérgio

Quis o Dr. Fernando Gomes ter a bondade de oferecer-me o livro Fernando Gomes: 10 Anos de Presidência na FPF (Cultura Editora, 2021), da autoria do jornalista João Marcelino.  Para um estudioso do “fenómeno desportivo”, em Portugal, não  precisa o atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol de minuciosa apresentação.

De facto, pelo pendor marcado e mesmo predominante da sua obra, como economista, como jogador de basquetebol e dirigente do F.C.Porto, presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e presidente da FPF e, sobre o mais, o primeiro português a ter lugar, na comissão executiva da FIFA – tudo, nele, se reveste de rigor, de competência, de elevada expressão moral. E daí o facto de o Dr. Fernando Gomes ser um profissional do êxito: dá mesmo a sensação que não é ele que persegue o triunfo, é o triunfo que o persegue a ele.  Mas não é verdade que atravessamos uma nova “idade da sofística”? Recordo que, em 1961, frequentava eu o meu primeiro ano da licenciatura em Filosofia, quando o saudoso Padre Manuel Antunes, professor da disciplina de História da Cultura Clássica, nos aconselhava a leitura do livro (que nós, alunos, comprávamos em tradução castelhana do Fondo de Cultura Economica) do alemão Werner Jaeger, Paideia, los ideales de la cultura griega. Tenho esse livro diante de mim e passo a citá-lo: “os sofistas consideravam a sua arte (a retórica) como a coroa de todas as artes (p. 274), Daí a celebérrima frase de Protágoras: o homem é a medida de todas as coisas. Mas… não vivemos nós uma declarada “idade da sofística”? Como nos adversários acrimoniosos de Sócrates, a mesma forma luxuriante a mascarar a falta de conteúdo; o mesmo desnorte diante da infinita complexidade do real; a mesma cultura sem raízes e daí os instintos à solta da vontade de poder, de agressividade, de um sensualismo sem freios; os mesmos demagogos (hoje, ampliados num mundo em que as comunicações e as informações e os mercados se instantaneizaram) geradores de alienações sem conta e de todo o tipo de conformismos sociais e mentais. De facto, embora se tenha alargado o leque dos veículos informativos, o homem comum tem, frequentemente, a opinião da sua rádio, da sua televisão, do seu jornal, da sua internet. O homem comum é cada vez mais o “robot”  de um determinado sistema económico-político…
 

No livro Fernando Gomes: 10 anos de Presidência Na FPF, que João Marcelino sistematizou e escreveu, com raro brilho, não há um assomo sequer de alienação, de mentira, de perversidade. Nele procura explicar-se tão-só por que o futebol de 11, o futsal e o futebol de praia “depois de tantos anos, começaram a ganhar, com uma estranha periodicidade, os troféus que só a custo já cabem no canto da Cidade do Futebol, destinado para o efeito. São muitas (26) as presenças em finais, para espanto do mundo global do futebol, que não entende este sucesso de um pequeno País de pouco mais de dez milhões”(p. 9).

Procuro agora a “causa das causas” de tamanha transformação, de tão ajustado “corte epistemológico”: Fernando & Tiago, uma parceria de sucesso! E João Marcelino escreve, salientando que há “algo absolutamente adquirido por todas as pessoas que trabalham na Cidade dói Futebol, que o mesmo é dizer, na FPF: a sintonia absoluta entre o presidente Fernando Gomes e o CEO, Tiago Craveiro – ou, dizendo com mais rigor, a complementaridade entre o líder Fernando e o seu alter ego Tiago, a quem designa de braço direito (…). Há, nestes dez anos, momentos de enorme importância de Tiago Craveiro para Fernando Gomes, sobretudo quando ele sonha com coisas que não existem. O Canal 11 é talvez o maior emblema. Esteve na cabeça de Tiago Craveiro mais de ano e meio até que conseguisse convencer Fernando Gomes” (p.17). Ocorre-me, neste momento, a proposta de Gaston Bachelard, que assim resumo: hoje, no conhecimento científico, não há mais o “cogito” individualista, cartesiano, mas o “cogitamus” de uma equipa de especialistas. Qualquer “dado científico” é o resultado do rigor do trabalho de gente da máxima competência. Tudo é complexo; tudo é multidimensional – e um homem só não pode, não sabe abranger a totalidade. Mas há mais a ter em conta, segundo o mesmo Gaston Bachelard: “o primado teórico do erro” e a “depreciação especulativa da intuição”. Ou seja, a história das ciências é a história de muitos erros emendados, retificados, superados. Por fim, desconfiar sempre das intuições que dispensam trabalho e tempo e prática. Qualquer dado, verdadeiramente científico, foi discutido, estudado, polemizado. O primeiro segredo dos êxitos de Fernando Gomes aqui reside, se bem penso: quando decide, nunca está só! E em obediência à metodologia mais atual de uma filosofia das ciências. Fernando Gomes é portanto um “homem culto”: não tem a convicção que sabe tudo, mas sabe o essencial, o que está no cerne mesmo da cultura…
 

O “homem lusitano” é mais intuitivo que racional, mais afeito à poesia do que à reflexão e à vibração visual e auditiva do que à abstração metódica. Mas Fernando Gomes é, sem favor, um “homem culto” e portanto a sua devoção (digamos assim) ao conhecimento. “De facto, o conhecimento é hoje o único recurso com significado. Os tradicionais factores de produção – a terra (ou seja, os recursos naturais), o trabalho e o capital  - não desapareceram, mas tornaram-se secundários” (Peter F. Drucker, sociedade pós-capitalista, Actual Editora, Lisboa, 2003, p. 58). E o conhecimento , “aquilo que actualmente consideramos como conhecimento, demonstra-se a si próprio na acção. O que hoje chamamos de conhecimento é a informação eficaz, em acção, dirigida para resultados” (idem, ibidem, p. 59). E os resultados, na FPF, aí estão. É o próprio Dr. Fernando Gomes a dizê-lo: “Ganhar um título internacional fazia parte dos 110 compromissos que assumimos, quando iniciámos funções e aconteceu mais depressa do que estávamos à espera. Depois das três meias-finais dos Europeus de 1984, 2000 e 2012 e da final de 2004, mais as duas meias finais em Mundiais, em 1966 e 2008, conseguimos naquele dia mágico de 2016, acabar com o “quase”. E em 2019 foi também nossa a primeira Liga das Nações. Agora, mais do que relembrar os títulos conquistados, interessa  solidificar o caminho feito para lá chegar” (Fernando Gomes: 10 Anos de Presidência na FPF, op. cit., p. 24). E, uma vez mais, Fernando Gomes não está só. Nunca está só. É o Tiago Craveiro, é o Fernando Santos, é o José Luís Arnaut, é o Humberto Coelho, é o João Vieira Pinto, é o Cristiano Ronaldo, é o Pedro Dias, é o Ricardinho, é o Madjer, é o José Couceiro, é o Rui Jorge, é o Mário Narciso, é o Jorge Braz, é o futebol e o futsal femininos, é a Mónica Jorge, etc., etc. “Os números, como sempre retratam bem a situação. Antes de 2012, havia 14 seleções nacionais – hoje, há quase o dobro, 27 (entre futebol, futsal e futebol de praia; masculino e feminino; seniores, olímpicos, jovens). Nestes dez anos de Fernando Gomes, na Direção da FPF, as diversas seleções de Portugal ganharam 14 títulos. Antes, durante quase 100 anos (…) tinham ganho 15. É de facto uma evolução tremenda, que apresenta outros números excecionais. Por exemplo: neste período, Portugal atingiu 66 fases finais” (op, cit., p.87).
 

O clarão de cultura (não confundo erudição com cultura) que irradia da figura do Dr. Fernando Gomes emerge, nítido, em cada uma das vitórias das nossas seleções de futebol, futsal e futebol de praia, tanto masculinas como femininas. É que há pessoas de indiscutível talento que fazem pequenos todos os seus colaboradores. Para mim, o grande homem, o verdadeiro líder, é aquele que faz grandes todos aqueles que o rodeiam… como o Dr. Fernando Gomes o faz! Por isso, Tiago Craveiro, o CEO da FPF, vinculou a este livro uma declaração que nobilita Fernando Gomes (e o nobilita a ele mesmo): ”A FPF não seria muito diferente com outro CEO, mas seria muito diferente com outro presidente (…). É um líder que sabe delegar a responsabilidade e nunca me deixou sozinho na praia (…). Eu divirto-me com aquilo que ele me deixa fazer” (op. cit., p. 16). Por seu turno, o engenheiro (e Doutor em Ciências do Desporto) Fernando Santos distingue, no seu amigo, Dr. Fernando Gomes, um “criador de qualidade” e um homem honesto predisposto à simpatia e amizade. E assim se teoriza e pratica uma inesperada “Revolução Científica” (Thomas Kuhn), no futebol nacional: quando Fernando Gomes se constitui  o patrono do Canal 11, nascido da imaginação de Tiago Craveiro e da perspicácia do presidente da FPF; quando se inaugura a Cidade do Futebol e se ergue o hotel das seleções; quando o conhecimento se promove, tendo em conta a complexidade humana (“não há jogos, há pessoas que jogam”, venho eu dizendo, há mais de 40 anos); quando, depois do Mundial de 2014 Fernando Gomes reconheceu que deveria criar-se “uma retaguarda com mais conhecimento” (pp. 119 ss.) - não surpreende o que o futebol português conseguiu e o que está prestes a conseguir, inevitavelmente! Fernando Gomes: 10 Anos de Presidência na FPF é um livro para ler, reler, saborear, admirar, “antologiar” (perdoem-me o neologismo).

Escrito em prosa lavada e salubre, as vitórias no Europeu de Futebol, na primeira Liga das Nações, no Mundial de futsal de 2021 e no Mundial de futebol de Praia, em 2015, 2019 e 2021 (e muito mais poderia aqui aduzir, pelo que já escrevi, nesta pequena crónica) são a consequência lógica de uma organização (a FPF) com os traços essenciais das melhores organizações que, por esse mundo além, se descobrem.
 

Retorno a Peter F. Drucker: “A organização baseada no conhecimento exige, consequentemente, que cada indivíduo se responsabilize pelos objetivos da organização, pela sua contribuição e também, como é evidente, pelo seu comportamento. Isto implica que todos os membros da organização reflictam profundamente sobre os seus objectivos e as suas contribuições e assumam responsabilidade por ambos. Implica que não há subordinados, só existem associados (…). A tarefa  da gestão, na organização com base no conhecimento, não é fazer de cada um patrão, mas sim tornar todos colaboradores” (op. cit., p. 121). E, portanto, reiteramos, colaboradores competentes, honestos, solidários, visando o cumprimento de objetivos comuns. Aliás, Fernando Gomes apresenta as suas ideias mais como uma proposição do que uma imposição. Cristiano Ronaldo assim o confirma: “O presidente é uma pessoa muito próxima da Seleção Nacional, dos jogadores, treinadores e staff. Sabemos que está sempre nos momentos bons – que felizmente têm sido muitos – e também nos menos bons. Em termos pessoais, Fernando Gomes é um amigo, um apoio que nunca falta” (Fernando Gomes: 10 Anos de Presidência na FPF, op. cit., p. 175).

Lembra João Marcelino que “Fernando Santos chegou à Seleção Nacional a 24 de Setembro de 2014” – o mesmo Fernando Santos que não se arreceia de afirmar que, com Fernando Comes, designadamente com a inauguração da Cidade do Futebol, houve “um salto brutal” (p. 246), demonstração soberana  do ambiente impregnado de conhecimento que Fernando Gomes implanta em toda a sua liderança, em todo o seu magistério. Fernando Gomes é um gentil-homem, mas o seu excecional currículo desportivo (como praticante e como dirigente) não poderá assacar-se unicamente aos valores éticos que o informam, ele é também um “trabalhador do conhecimento”, capaz da  Revolução Científica que transformou ( e o fez em verdade histórica indiscutível) todo o futebol português. Está por atribuir ao Dr. Fernando Gomes um doutoramento “honoris causa”.  A universidade que o fizer honra-se a si mesma, pois honra em Fernando Gomes o que é a razão de ser de uma universidade. Não deverá esquecer-se que ele é um líder que é, simultaneamente, um “trabalhador do conhecimento”.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

 

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