Matateu:  a oitava maravilha do mundo! (Artigo de Manuel Sérgio, 372)

Espaço Universidade 18-11-2021 16:37
Por Manuel Sérgio

Sebastião Lucas da Fonseca (o Matateu, para o Portugal todo, “desde o Minho a Timor”, como queria o Doutor Salazar) nasceu em Lourenço Marques, em 20 de Julho de 1927 e faleceu, no Canadá, em 27 de Janeiro de 2000. Foi aliás, no Canadá, que ele “arrumou as botas”, como jogador de futebol e com 50 anos de idade. Só com meio século, com os olhos enevoados de furtivas lágrimas, deixou de fartar a avidez do golo, que nele parecia inesgotável. Pisou, pela primeira vez, a relva das Salésias, num domingo de Setembro de 1951, se a memória não me engana.

Foi uma tarde de nervos, mas o jogo terminou com a vitória dos “azuis” por 4-3. E toda a gente se humildou perante a classe do Matateu. Marcou dois golos e ainda “deu” o terceiro. Findo o jogo, muitos dos adeptos do Belenenses, pasmados do alto nível futebolístico do moçambicano, levaram-no em ombros, em voltas sucessivas ao campo, as faces incendiadas de emoção, num desejo incontido de venerar o novo ídolo de Belém. Ouvi dizer, dias depois, que a Censura teria aconselhado os jornais a que não dessem demasiado relevo à fotografia de um preto “às costas” de uma multidão de brancos. Seria um escândalo! Isto, há 70 anos, no meio de tanta publicidade hipócrita à igualdade de direitos, entre os pretos e os brancos, no território português das províncias ultramarinas! Vejo desfilar na tela da memória os meus 18 anos empertigados e atrevidos, com um sorriso de gratidão ao Matateu daquele domingo - e afinal de tantos outros domingos, durante os 13 anos em que ele vestiu o símbolo do meu querido Belenenses. Em 1964, rumou ao Atlético Clube de Portugal, onde foi campeão nacional da segunda divisão. Jogou ainda no Gouveia e no Amora. E, por fim, no Canadá, para onde emigrou e, com 50 anos, jogava ainda, mas já sem sentir aquelas intensas vagas de desejo, que o empurravam à prática de um futebol de que só ele tinha o segredo. É que fintar e driblar, como ele o fazia, dentro da grande-área, rodeado de adversários… nunca vi! Nem eu, nem (assim o penso) ninguém. Tinha, física e tecnicamente, tudo o que tem um “génio da bola”. Os jornalistas, com algum exagero (aceito!) viam nele “a oitava maravilha do mundo”! Mas, se não era, andava lá por perto…

 

 

António-Pedro Vasconcelos, cineasta (dos maiores do nosso cinema), ensaísta de muitos méritos e um intelectual de indiscutível brilhantismo, levanta uma questão de premente atualidade: “A Europa tem alguma coisa ainda para nos prometer, para além da exibição turística das suas ruínas e da memória embalsamada de um passado glorioso? E os Estados Unidos terão ainda capacidade de vencer o vírus da descrença e do medo, depois do Vietname e do 11 de Setembro? (…). As velhas nações adormecidas, como a China ou a Rússia, por exemplo, serão capazes de reatar o seu antigo prestígio e acordar para um novo ciclo criador? Ou será da América Latina, dona de uma literatura romanesca original e abundante, que irão despontar essas grandes ficções que a ajudem a libertar-se, enfim, da opressão e da subalternidade a que foi submetida durante cinco séculos e que possam servir-nos de guia para este século?” (António-Pedro Vasconcelos, O Futuro da Ficção, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2012, p. 9). Valéry sublinhou que “as civilizações são mortais” e António-Pedro Vasconcelos relembra, muito a propósito: “A grande ficção é premonitória. Entre a exaltação e a denúncia, os grandes ficcionistas são os que nos dão novas armas para interpretar as nossas próprias ansiedades e os que alargam os horizontes do humano. São eles que iluminam e resgatam o que tem sido o lado negro do Ocidente: a tirania e a opressão, a escravatura e a colonização, a perversidade e o cinismo, a ganância e o abuso do poder” (idem, Ibidem, p. 11). O desporto altamente competitivo, mormente o futebol, continuam, como eu o venho dizendo há quatro décadas, a reproduzir e a multiplicar as taras da sociedade capitalista: as manias da competição e do rendimento e do recorde e do predomínio do quantitativo sobre o qualitativo. Ao contrário das frases engalanadas em favor da competição, como fator iniludível de desenvolvimento, escreve Humberto Maturana: “La conducta social está fundada en la cooperacion, no en la competência. La competência es constitutivamente antisocial porque, como fenómeno, consiste en la negación del outro. No existe la sana competência, porque la negación del outro implica la negación de sí mismo al pretender que se valida lo que se niega. La competência es contraria a la seriedade en la acción, pues el que compite no vive en lo que hace, se enajena en la negación del otro” (op. cit., p. 83).

 

Matateu não conheceu os rigores e a disciplina do profissionalismo do futebol atual. O profissionalismo do futebol começou, em Portugal, no S.L.Benfica, com o treinador Otto Glória. A este propósito, passo a palavra ao jornalista Luís Miguel Pereira: “Com a inauguração do Estádio da Luz, em 1954, o clube pôs fim a quase 50 anos de casa às costas. Mas a contratação de Otto Glória acabou por ser o passo decisivo para a profissionalização do futebol benfiquista. O treinador brasileiro promoveu infra-estruras e implementou regras de profissionalismo muito aproximadas aos moldes que existem hoje. Os modernos métodos de trabalho do treinador foram sempre escudados pela competente presidência de Borges Coutinho” (Luís Miguel Pereira, Bíblia do Benfica, Prime Books, Lisboa, 2008, p. 114). Luís Miguel Pereira, com afetuosa objetividade (porque é um benfiquista de todas as horas) salienta ainda, neste interessantíssimo livro, a criação do Centro de Estágio (Lar do Jogador), as regras que o competente treinador brasileiro implementou, no departamento de futebol do Benfica, o cuidado pela instrução académica dos jogadores, o ensino do inglês, lições de etiqueta, educação moral e religiosa – tudo o que Otto Glória (Otaviano Martins Glória) considerava essencial a um profissional de futebol. Nasceu assim o profissionalismo, no futebol, em Portugal, no Benfica e em 1954. E do Benfica foi amanhecendo, paulatinamente, nos principais clubes portugueses. É de Otto Glória (1917-1986) o célebre dito sentencioso: “o treinador, quando perde, é uma besta; quando ganha, é bestial”. Otto Glória, mesmo nas poucas  vezes que perdeu, foi sempre um treinador “bestial” – nunca esqueceu o homem que fundamenta o jogador de futebol. Conversei, com ele, uma tarde, numa pastelaria da baixa lisboeta. Conservo duas frases que me disse: “Sem homens moralmente sãos, não há “craques”. O Pelé é um exemplo”. Pode haver “craques” (digo eu), mas que não deram tudo o que podiam dar ao futebol e à sociedade. E esta: “Quando cheguei, pela primeira vez, a Portugal, tive a clara sensação de que o futebol da América Latina estava em fase mais adiantada do que o futebol português”. E não voltei a encontrar-me com Otto Glória. Faleceu, em 4 de Setembro de 1986, depois de ter treinado o Benfica, o Sporting, a seleção portuguesa de 1966, o Belenenses e o Porto.

 

Como íamos dizendo, no Belenenses dos anos em que Matateu “jogou futebol” ainda imperava um semi-profissionalismo em que ao futebolista muito se exigia e ao homem-futebolista muito pouco se retribuía, em direitos e em cuidados que promovessem a sua humanidade. Uma ética do humano ainda não se praticava. Um treinador do Belenenses dizia-me convicto, referindo-se aos jogadores: “O que eles são lá fora pouco me interessa, o que me interessa é o que eles são, aqui, no Estádio do Restelo”. No futebol, naquele tempo, as palavras (como se aprende na Filosofia) ainda não estavam grávidas de sentidos existenciais, mormente de “cuidado” pelo homem-jogador.  Neste momento, peço licença, para uma curta paragem. E entro de indagar: mas o Matateu “jogou” mesmo? Folheio Gadamer, no seu Verdade e Método: “O jogar não deve entender-se como o desempenho de uma atividade. Em rigor, o verdadeiro sujeito do jogo não é evidentemente a subjetividade daquele que, entre outras atividades, desempenha também aquela de jogar. Pelo contrário, quem joga é o próprio jogo” (Hans-Georg Gadamer, Verdad y Método, Sígueme, Salamanca, 1977, p. 147). “Quem joga é o próprio jogo” diz Gadamer. Aqui, peço licença para não acompanhar Gadamer: para mim, o jogo, designadamente na forma de desporto, não existe, mas os jogadores que o jogam. O desporto é um jogo lúdico-agonístico, com regras universais e, quando em alta competição, com as taras da sociedade capitalista que, acima, enumerei. Há (e gente de incontroverso rigor hermenêutico) que deriva a palavra “cuidado” do latim cogitare (pensar). Que o mesmo é dizer: só se tem cuidado por alguém,  quando esse alguém tem importância para nós.  Ainda digo de cor as características do jogo, que eu aprendera em Roger Caillois, no seu Les Jeux et les Hommes ( editado pela Gallimard) e repetia, nas aulas, aos meus alunos:  o jogo é uma atividade livre (o jogador joga porque quer, como quer e quando quer); separada, no espaço e no tempo, das atividades produtivas; incerta (sem resultado previsível e estimulando por isso a capacidade inventiva do jogador; regulada (sem regras, não há jogo); improdutiva (o jogo não é ofício ou profissão – em princípio, não se joga para amontoar dinheiro ou perseguir a fortuna); fictícia, porque se pratica à margem da vida corrente.

 

Acresce, como o refere Kostas Axelos, que “o jogo não é apenas uma das forças fundamentais (a saber: a linguagem, o trabalho, o amor, a luta e o jogo) uma das configurações. O jogo penetra nelas todas, ao mesmo tempo que as engloba; todas são jogo e fazem o jogo que não é o jogo de alguém, ou de alguma coisa. Por detrás das máscaras, nada nem ninguém se esconde, a não ser o jogo do mundo (…). Neste, é o homem por inteiro que é o jogador e o joguete, faça ele o que fizer” (in João Tiago Lima, Jogar sem bola, Oficina, Évora, 2018, p. 37). Não é de estranhar, portanto, que o desporto, porque é jogo, em si englobe também o trabalho (no desporto profissional). O jogo está em tudo o que é humano. Daí, o desporto possa educar. Vou citar, agora, Teotónio Lima, professor de educação física e exímio treinador de basquetebol, sempre com pigmentos culturais na prosa dos seus livros que remetiam para a filosofia: “A corrida distingue-se do salto em comprimento, através da organização dos movimentos produzidos pelo atleta e realizados, no aspeto plástico-mecânico, pelo corpo. O pontapé de canto do futebol distingue-se do passo raso, à flor da relva, porque a organização dos movimentois e os respectivos objectivos são diferentes e são evidentemente executados voluntariamente pelo futebolista. Não são de facto as pistas e os recintos desportivos; não são os aparelhos de ginástica; não são as bolas, as raquetes, os engenhos e os materiais utilizados; não são as forças da Natureza que determinam as características das modalidades desportivas, mas sim os movimentos realizados pelo homem” (Teotónio Lima, o desporto está nas suas mãos, Livros Horizonte, Lisboa, 1988, p. 37). De um magnífico livro do filósofo português e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Diogo Ferrer, faço o seguinte recorte: “Não obstante as aparências, não se trata, no inconfessado da retórica, de uma ocultação como dissimulação, mas de uma tematização” (Transparências – Linguagem e Reflexão de Cícero a Pessoa, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018, p. 28).Quando digo e repito: “Não há jogos, há pessoas que jogam”, apelo sempre ao mesmo sujeito, o ser humano, como o faz Teotónio Lima e segundo os enunciados teóricos do Doutor Diogo Ferrer. É impossível pretender explicar o Desporto, sem invocar o ser humano que o corporiza. No génio futebolístico de Matateu, há o “homo biologicus” e uma cultura de um tempo e de um modo…    

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

 

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