«Vi a minha cara na televisão e nem queria acreditar»

A BOLA FORA 07-10-2021 12:03
Por Tânia Ferreira Vítor

A Liga 2021/22 não podia ter começado de melhor forma para Jota Gonçalves. Foi a escolha para o eixo da defesa do Tondela e a titularidade valeu-lhe o passaporte para a primeira chamada à Seleção de sub-21. O azar chegaria depois, com uma lesão que o afastará dos relvados nos próximos meses, mas que com certeza não o impedirá de concretizar os sonhos que traçou.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?
- Acabei agora de tomar o pequeno-almoço.


- És rigoroso com a alimentação?
- Gosto de seguir a minha dieta. Nesta fase, como estou lesionado, não tenho sido tão cumpridor, mas durante a competição sou rígido comigo mesmo.


- Sofreste uma lesão grave no joelho direito na partida contra o Estoril. Com que sentimentos tens vivido estes dias?
- Sim, lesionei-me a 13 de setembro no jogo contra o Estoril logo no início da partida, também ao minuto 13. Foi num lance que parecia controlado, mas que se descontrolou numa rotação. Quando recebi a notícia foi um choque, mas depois meti na cabeça que aconteceu por alguma razão, estava destinado. Tenho de trabalhar e de superar-me para voltar ainda mais forte. É assim que estou a encarar.


- Uma lesão é ainda mais frustrante quando estavas a ser aposta no onze inicial? [cinco jogos seguidos a titular em dupla com o Eduardo Quaresma]?
- Estava a sentir-me bem e a trabalhar para agarrar esta oportunidade. Estava à procura disto desde que cheguei à equipa principal, ou seja, esta é a terceira época. Foram dois anos a trabalhar para merecer a confiança do treinador e claro que lesionar-me é duro. Mas tenho tentado focar-me na recuperação. Quero voltar mais forte física e psicologicamente. Terei tempo para agarrar as oportunidades de novo.


- Quando é que vais ser operado?
- Olha, é amanhã, no Hospital Privado de Paredes [a entrevista foi gravada a 30 de setembro].

 

- De quem tens recebido mais apoio?
- Da minha família. O meu irmão teve a mesma lesão há um ano e tem-me ajudado. Ele sabe o que eu estou a sentir e tem sido um apoio.


- Eu vi a fotografia do Fábio Silva a dedicar-te um golo no fim de semana passado [ao serviço dos sub-23 do Wolverhampton]. Foi reconfortante?
- O Fábio é um dos que posso dizer que é mesmo um amigo, um irmão do futebol. É uma grande pessoa, já o conheço há muito tempo e estivemos juntos recentemente nos sub-21. Fiquei muito emocionado quando vi aquela imagem.


- Viveste sempre em Espinho com os teus pais e o teu irmão?
- Sim! Sempre vivi em Espinho, é a minha terra, com os meus pais e o meu irmão Fábio. Temos uma relação muito boa, apesar da diferença de idade. Eu tenho 21 e o meu irmão tem 30, mas nem se nota. Também joga futebol e sempre o acompanhei - é o meu exemplo.  Entretanto,  saiu de casa para formar família e ganhei as minhas sobrinhas que, para mim, são como filhas. Fiquei sozinho com os meus pais e em juvenil fui jogar para a Académica, a primeira vez fora de casa. Foi uma experiência boa, porque me fez crescer como jogador e como pessoa. No fim desse ano, voltei para casa, assinei pelo Feirense, perto de Espinho. No ano a seguir, o meu último de júnior, apareceu o Tondela e voltei a sair. E aqui estou até hoje. A minha mãe continua a viver em Espinho, entretanto o meu pai foi trabalhar para Moçambique e ela passa muito tempo com o meu irmão e a família dele - que também é a nossa - para não estar tão sozinha.

 

- Em que trabalham os teus pais?
- Na panificação, o meu irmão também está no negócio de família. O meu pai sempre foi multifacetado e recentemente foi para Moçambique dirigir uma empresa de construção de padarias. Monta as máquinas fundamentais nos espaços.

 

- Como começaste a jogar futebol?
- Por influência do meu irmão, porque o meu pai é um zero à esquerda com os pés. Trabalha bem com as mãos, mas com os pés é uma desgraça [risos]. O meu avô também jogou futebol, não profissional. Por isso, posso dizer que o meu irmão foi quem mais me empurrou… É claro que tanto o meu pai como a minha mãe me apoiaram sempre e estou-lhes agradecido por tudo. A minha mãe, ao jeito de mãe, sempre a tentar meter o nariz onde não era chamada e a querer saber tudo [risos].

 

- Quem é que te levava aos treinos e aos jogos?
- O meu avô. Agora está mais velhote, mas era ele que me levava para todo lado e fazia-o com gosto. O meu pai trabalhava muito e era raro ir ver os jogos, ou seja, eu nunca fui muito acompanhado no futebol. Mas isso fez-me crescer. Aqueles pais que estão sempre lá a mandar dicas aos filhos ou a gritar com os árbitros ou com o treinador, isso não funcionaria comigo.

 

- A tua formação foi quase sempre perto de casa. Foi uma escolha?
- Comecei no Espinho, porque é o clube da terra. A Académica apareceu numa altura em que me estava a destacar na equipa - era juvenil de primeiro ano e já jogava nos juniores, com jogadores três anos mais velhos. Tive outras possibilidades, mas como a Académica tinha academia, a minha família achou melhor opção. Naquela idade é fundamental ter alguém a controlar. Se um miúdo de 16 anos for viver sozinho para um apartamento com uns amigos é mais fácil perder-se…

 

- Qual era o papel da escola nessa fase?
- Podes escrever que eu era aluno de vintes, mas na realidade estava longe disso [risos]. Ou era o futebol ou o futebol, não tinha plano B. Os professores diziam que tinha de aplicar-me, para o caso de o futebol não dar, mas eu não tinha interesse na escola. Quando nasces talhado para uma coisa, é difícil mudar. Enquanto os meus colegas estavam a estudar, eu ia para a rua jogar à bola.

- E ias passando de ano?
- Não sei como [risos]. Lembro-me que muitas colegas me ajudavam com apontamentos e nos testes. Reprovei dois anos, mas consegui terminar o décimo segundo, que era o objetivo.
 

- Como surgiu o Tondela no último ano de júnior?
- O Feirense estava na segunda divisão nacional. Não sei se continua a ser assim, mas na altura quem ficava em primeiro ia disputar uma final com o vencedor da outra série. Calhámos com o Tondela: eles eram os vencedores da zona Sul e nós da zona Norte. Passadas duas semanas, o meu empresário ligou-me a dizer que tinha clubes e um deles era o Tondela. Fui informar-me sobre a história do clube, vi que ficava a uma hora de Espinho, coisa pouca, e fui lá a convite dos diretores. Senti que tinham  interesse em mim e isso é fundamental numa transição. Dei logo a minha palavra ao diretor, senti que era um bom projeto e confirmou-se.
 

- Adaptaste-te bem? Ainda eras júnior…
- Sim, eles deram-me habitação. Têm uma casa com três andares onde viviam uns quinze jogadores da formação. E havia uma senhora, uma grande senhora - a dona Lúcia - que tratava de tudo e cozinhava para nós. Gosto muito dela. Ainda hoje me ajuda com a comida e poderia não ajudar, porque está destinada para a formação e eu já vivo num apartamento. Tondela é isto: pessoas que gostam muito de ti e onde te sentes bem. É um clube familiar.
 

- Como sentem as pessoas o clube?
- Tondela é um meio pequeno, mas agradável. És capaz de conhecer a cidade numa hora ou duas. As pessoas são acolhedoras, passam por ti na rua, falam. Neste caso, estão sempre a perguntar-me como estou da lesão e a desejar-me as melhoras. Em relação ao clube, temos bom ambiente no estádio. Não vou dizer que é em massa, como noutras cidades, mas as pessoas apoiam-nos muito. E é claro que estão sempre à espera de receber os grandes. São os jogos mais apetecíveis, é normal.


- Em criança, quem eram os teus ídolos? E quem é a tua maior inspiração agora?
- Quando era mais novo, era o Kroos, do Real Madrid, depois passou a ser o Sergio Ramos, que era da mesma posição que eu. Sabes que eu, antes de ir para a Académica, era médio, jogava a seis ou a oito. Mas depois o mister adaptou-me a central e foi o melhor, porque é o lugar de que mais gosto. E agora o meu jogador preferido é o Rúben Dias. Por ser português, por ter chegado há um ano ao Manchester City e já ser capitão, havendo outros grandes nomes no plantel. O Rúben Dias é uma prova de dedicação e superação.

 

- O Tondela não começou bem na Liga, mas a vitória por 3-2 ao Famalicão deu alento à equipa. Quais são os objetivos para a época?
- O objetivo é a manutenção e tentar fazer melhor do que na época passada. Em relação ao início do campeonato: no primeiro jogo ganhámos em casa 3-0 ao Santa Clara e depois tivemos jogos renhidos, que estiveram ao nosso alcance, tirando contra o Portimonense. Esta vitória ao Famalicão foi importante, porque caso contrário iríamos começar numa onda de derrotas e isso é difícil. Agora é dar sequência e continuar a trabalhar.  

 

- Estás a gostar de trabalhar com Pako Ayestaran, que apostou numa jovem dupla de centrais para atacar a Liga?
- Gosto muito do mister, percebe o futebol, o jogo. E não estou a puxar o saco [risos]. Ele acredita no que está a dizer e transmite confiança aos jogadores. Acabou por apostar em mim e no Edu [Eduardo Quaresma] e é muito raro um treinador apostar numa dupla de centrais tão jovem - um com 19 e outro com 21. Fico contente. É bom sentir esta aposta, mas não se pode ficar a dormir à sombra da bananeira. Continuei sempre a trabalhar, a mostrar que estava melhor do que os outros e a dar ao chinelo. A superação tem de ser diária. É uma competição saudável, mas tens de estar sempre melhor do que o outro.


- Tens a ambição de emigrar?
- Gosto de desafios. É óbvio que gostava de experimentar outro campeonato e outra cultura, mas vou ser sincero: neste momento quero mesmo recuperar e ajudar o Tondela. Um dia mais tarde darei esse passo.

 

- Tens algum sonho material a concretizar?

-  O objetivo é ficar bem, e a família também, e continuar a fazer o que mais gosto, jogar futebol. Eu acredito que as coisas estão destinadas. Tenho encarado a lesão como uma coisa que tinha de acontecer, porque estava a precisar de olhar mais para mim, de me focar em mim. E não é isto que me vai impedir de chegar ao meu sonho. Pode atrasar, mas não vai impedir.

 

- A chamada aos sub-21, na convocatória de setembro, foi um check na lista de desejos?
- Completamente! Eu não estava à espera de ser chamado, porque nunca tinha ido a uma seleção. Mas, por outro lado, tinha esperança, porque estava a jogar a titular no clube. Na noite anterior, mal dormi, estava ansioso. De manhã, liguei a televisão para ver a convocatória e estava a dar a da Seleção A. Entretanto, recebi uma mensagem de um diretor do Tondela a dar-me os parabéns. Foi ele que me disse que tinha sido convocado. A federação tinha enviado um e-mail uns minutos antes, fomos apanhados de surpresa. Vi a minha cara na televisão e nem queria acreditar. Comecei a receber mensagens e liguei à minha mãe. «Mãe, fui convocado para a seleção.» Fez-se aquele silêncio e ficámos emocionados.

 

- Foste praxado?
- Não, eram alguns jogadores novos. Fui muito bem recebido, o pessoal é top. Fiz amizades. Dei-me bem com toda a gente, mas costumava andar mais com o Fábio Silva, o Tiago Tomás e o Eduardo Quaresma. Sei que vou continuar a falar com eles, mesmo estando lesionado. Adorei a experiência também pela oportunidade de conhecer o mister Rui Jorge. Chegar à seleção é outro nível!

 

- És daqueles jogadores que guarda as camisolas importantes?
- Gosto de guardar, mas também  de dar. Peço muitas camisolas de jogo, sobretudo aos jogadores da minha posição, ou a amigos que encontro em campo. Tenho muitas em casa.

 

- Qual é a mais valiosa?
- As dos meus amigos são as mais importantes, mas  a mais valiosa é a do Pepe. É engraçado que, quando joguei contra o Porto, não me consegui cruzar com ele, mas pedi-a ao Fábio Silva - ainda estava lá. Disse-lhe: «Olha, fala aí com o Pepe a ver se ele me pode arranjar a camisola.» E foi um momento caricato, porque o Fábio foi ao balneário buscá-la, eu agradeci-lhe muito e ele disse-me: «Mano, ele está a pedir a tua também.» O Pepe a pedir a minha camisola? A seguir vai metê-la no lixo [risos]. Ele se calhar nem me conhecia, mas eu fiquei todo contente por ele ter pedido a minha camisola de jogo. Não estava à espera.


- Esta semana foi de Liga dos Campeões. Acompanhaste as  equipas portuguesas?
- Adoro ver os jogos da Champions, porque é a competição onde um dia quero chegar. Tirando as seleções, acho que é o topo para um jogador de futebol. Eu vi os três jogos. Tive de intercalar o do Sporting e o do Porto, porque foram à mesma hora. Em Portugal temos muito a mania de, sendo adepto de um qualquer grande, torcer contra os outros grandes na Europa. Devíamos pensar ao contrário: todos deveriam ganhar e fazer bons jogos. Ajuda Portugal a subir no ranking, a aumentar a visibilidade do campeonato e a valorizar o jogador português. Ficaríamos todos a ganhar. O FC Porto defrontou uma equipa  difícil, a melhor, ou uma das melhores, do mundo. Mas o resultado foi exagerado. O Benfica está muito bem e apanhou um Barcelona debilitado. O Sporting bateu-se bem, apesar de também ter tido um confronto difícil.


- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?
- Posso dizer dois? O Benfica-Tondela, na Luz. Estivemos a ganhar até aos 50 e tal minutos e depois perdemos 2-1. Queria repetir pelo grande ambiente que estava, pelo jogo em si e porque teria feito ainda mais para não sofrermos os golos. E escolhia o jogo de que te falei entre o Feirense e o Tondela. Eu respeito muito o clube que represento e, na altura, queria ter ganho com o Feirense o título da segunda divisão.

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