Círculo vicioso (artigo de José Antunes de Sousa, 108)

Espaço Universidade 05-10-2021 19:02
Por José Antunes de Sousa

Confesso que me sinto “vox clamantis in deserto”: ninguém me liga nenhuma! Há um ror de anos que prego em vão contra a abordagem imediatista e materialista do evento desportivo -  como tudo o demais na vida. Estamos teimosamente agarrados ao soberano e indiscutível nexo mecânico de causalidade - como se nada mais houvesse para lá do que podemos dominar com as nossas trémulas mãos, sem tomarmos a peito que há uma fímbria subtil de uma realidade que se furta invencivelmente à captura dos nossos sentidos.
 

Um eminente físico, colega de Albert Einstein, John Archibald Wheeler de seu nome, afirmou, sem rodeios, a meados do século passado, que somos os criadores da nossa própria realidade - assim, nem mais nem menos! E acrescentava que a realidade exterior é rigorosamente o reflexo da nossa realidade interior.
 

Aliás, já no princípio do século, Max Planck, o iniciador da Física Quântica, descobrira a existência do “Campo unificado”, afirmando: “devemos assumir que por trás desta Força há uma mente consciente e inteligente.” E concluía, sem hesitar:  “esta mente é a matriz de toda a matéria “. E os manuscritos, atribuídos a Isaías, e descobertos em 1943 no Mar Morto, antecipam esta confirmação científica: o Campo responde ao nosso desejo e à nossa intenção dando corpo à nossa realidade. A oração não deve, por isso, traduzir uma súplica lamentosa, que testemunha e acentua a condição de falta e de míngua, mas veiculando a convicção e o sentimento de que já existe no nosso marco experiencial justamente aquilo que se pede.
 

Importa referir que a resposta demiúrgica do campo não obedece aos cânones da lógica racional, mas ao sentimento com que se dá por realizado aquilo por que se anela.
 

Vem isto a propósito da insistência com que o treinador do Benfica incorre no erro do modo falacioso de orar/desejar - apesar de transportar o mesmo nome do Mestre que a todos ensinou o modo eficaz de pedir.
 

Ainda agora, depois da surpreendente derrota em pleno estádio da Luz frente ao Portimonense, vergado ao peso da má sorte, proclamava, rendido: “podíamos estar aqui toda a noite”! E isto sem, por vislumbre, lhe passar sequer pela cabeça que acabara de colher aquilo que tão zelosamente semeara.
 

Vejamos: que disse ele na projecção (!) do encontro? Que seria um jogo terrivelmente complicado, ainda por mais na ressaca de uma épica jornada europeia, que o adversário tinha a defesa menos batida e que era uma equipa muito organizada. Enfim, com a devoção de um noviço, previu toda a sorte de desgraças e que, numa demonstração de sábia visão de profeta, agora confirmava com comovente assertividade. A este jogo autopunitivo chamam os psicólogos:”profecia auto-realizada”.
 

E os benfiquistas mandam vir porque o homem, em sete temporadas no Benfica, perdeu quatro campeonatos - apesar de ter disposto de planteis dispendiosos.
 

Tenho pena, mas tenho que ser honesto: vai continuar a perder - porque usa o discurso motivacional às avessas e, convenhamos, já não tem idade para mudar.
 

Ser-lhe-ia muito proveitoso um atento olhar para a concepção endógena do vibrante discurso motivacional do selecionador nacional de futsal, Jorge Braz, que, talvez por ter nascido no Canadá, demonstra ambição planetária e entretém-se a contemplar as estrelas - e conseguiu formar

uma verdadeira constelação!
 

Meus amigos, deixem-me terminar de um modo provocatório:

Só ganha quem Já ganhou!

Só merece ser campeão quem como tal se sente!


José Antunes de Sousa
Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

 

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