Beatriz Gomes (artigo de José Augusto Santos, 25)

Espaço Universidade 23-09-2021 16:17
Por Redação

Chegou a Portugal Continental nos idos de 1967, vindo de Lourenço Marques, com a provecta idade de 17 anos. O quê? A Beatriz tem agora 71 anos? Porra! Não tenham pressa. Lá irei à Beatriz. Agora quero divagar por outras histórias que redundaram na Beatriz.

Em 1968, o Dinis entrou para a tropa e eu fiquei sem o meu parceiro do K2. Por essa altura, andava pelo Remo do CDUP um tal de António Alberto da Costa Gomes com uma grande “calfeira” (conceito inventado pelos meus jogadores do Salgueiros e que significa um corpo imponente e musculado), construída em Moçambique e, tenho a certeza certinha disso, tinha como objetivo menos a performance desportiva e mais a admiração das garinas na praia. Quase todos os gajos que vão para o ginásio não é por razões higiénicas ou desportivas – é só pela estética. Há homens muitos vaidosos. Graças a Deus eu não. Mas, a Beatriz Gomes? Chiça, deixem-me em paz. Há muito ainda a contar antes de chegar a essa maravilhosa mulher. Deixam-me ir ao meu ritmo. Como eu disse o Dinis abalou para o serviço militar e eu olhei para o gajo da calfeira. Queres fazer equipa de K2 comigo? O Toni nem pensou duas vezes e disse que sim. Nem sabia no que se estava a meter. O primeiro treino que fizemos foi logo para cima de 10 km. Práquecer. O Toni lá se desenrascou melhor ou pior com o ritmo moderado que eu impus. Nos treinos a seguir a coisa foi intensificando, quer em volume quer em intensidade, segundo o princípio super-científico de “lhe dar até cair para o lado”. O Toni começou a claudicar e eu com a psicologia que aprendi na universidade da rua em que obtive licenciatura, mestrado e doutoramento dizia: - Queres esse cabedal para quê? És só músculo. Não vales um chavelho. Esta merda não são gajas na praia. É sofrimento. No pain no gain. Ele gemia, bufava, insultava-me em surdina e dava-lhe forte até não poder mais. Sofria em silêncio e nunca me dirigiu uma palavra de admoestação.
 

Nunca tinha conhecido um homem tão calmo e a sofrer as vicissitudes do treino com a paciência de um monge budista. Eu, um espanta-patrulhas, comecei a ver nele o meu contraponto e iniciei aí uma amizade que conjuntamente com o Dinis se constituíram nos meus alicerces emocionais mais fortes.
 

Por acaso, no dia em que o Dinis se foi despedir da malta toda da canoagem no clube e embarcou para a Guiné onde morreu em combate, o Toni e Ele cruzaram-se na ponte D. Luís. Foi um momento mágico, quase uma passagem de testemunho em que o Dinis poderia ter dito: - Toni toma conta do Zeca na minha ausência. Estou a escrever isto emocionado pois não é fácil não sucumbir à força das memórias mais vívidas da minha juventude.
 

E continuei com o Toni, no desporto e na vida, aprofundando laços que estão tão fortes hoje como no primeiro momento em que fizemos a primeira prova de canoagem em 1968.
 

Depois, fui eu para a tropa. Segui os passos do Dinis, fui também para os Rangers e cumpri a minha missão também na Guiné.

O Toni ficou cá e pegou no facho que eu lhe tinha acendido e continuou a pugnar pela canoagem. Antes de eu ir para a tropa a nossa participação internacional era muito fraca. Íamos ás provas a Espanha tentar entrar dentro do controlo. Quando regressei, em 1972, tinha-se operado uma grande revolução na canoagem portuguesa e aquilo que era uma representação desportiva quase fictícia tinha-se tornado numa competitividade de grande valia com vitórias diversas em provas internacionais. Os quatro cavaleiros do Após-Zeca, Toni, Freitinhas, Rui Palla e Rodolfo Coelho, revolucionaram os hábitos de treino (chegaram nessa altura, por vezes, a fazer bi-treino diário) e atingiram um nível competitivo que eu nem em sonhos imaginava.
 

Quando regressei tentei apanhar este comboio tão rápido, mas a coisa custou-me imenso e várias vezes caí à linha.

O Toni, além de ser o meu melhor amigo, é casado com uma grande amiga que tem sido o seu mais válido suporte existencial. Quando eram jovens, numa noite de lua cheia, a lua cheia dá para a rebaixolice, viraram-se um para o outro e disseram: - E se juntássemos os nossos gâmetas e através de um microscópio eletrónico selecionássemos o cromossoma X de um e o Y de outro para fazer um bebé chamado Beatriz? Compraram um livro didático que explica como se fazem bebés e construíram a Beatriz já com os genes de campeã.

Andei com ela ao colo. Vi-a crescer de bebé, a criança, a jovem teenager, a mulher, a mãe, e acompanhei com carinho o seu percurso existencial.  
 

Deixem-me contar-vos esta história maravilhosa que diz bem do espírito out-the-box do Toni. Estávamos numa prova de canoagem e a Beatriz, aí com uns 3 ou 4 anos, andava nas correrias ao sol inclemente de agosto. Disse eu: - Toni põe um chapéu à Bia? Pra quê? Os macacos também andam ao sol e não usam chapéus. Com tão rebuscada teoria nada mais fiz que aceitar o veredicto do sábio mestre em Pedagogia Infantil.
 

A Beatriz cresceu num ambiente desportivo bem envolvente. Antes de praticar canoagem treinou natação e basquetebol (basquetebol é aquele desporto em que a expressão estética pede meças à dança; só os gajos e gajas bonitos/as praticam basquetebol). Contudo, estou em crer que a natação é o desporto que praticado na infância e puberdade se constitui como uma mais valia para a performance na canoagem. Alguns dos melhores atletas que treinei chegaram à canoagem com um background natatório muito bem desenvolvido.
 

A canoagem para a Beatriz foi a opção desportiva terminal e a que lhe permitiu entrar naquele Olimpo, ao lado de Zeus, em que já se sentam o Fernando Pimenta, o Emanuel Silvas, o João Ribeiro e o José Ramalho. A nível nacional ganhou tudo o que havia para ganhar o que inclui vitórias nas provas de fundo, velocidade e maratona.
 

Foi campeã do mundo e vencedora da Taça do Mundo de maratona depois de anteriormente ter obtido a medalha de prata no Campeonato do Mundo em 2004 e se ter sagrado campeã da Europa em 2005. Estes êxitos foram o corolário de um investimento de anos neste tipo de provas. Foi melhorando progressivamente as suas classificações até atingir o zénite. Contudo, evidenciando uma preparação multilateral de elevada qualidade, nunca descurou o desenvolvimento das capacidades motoras relacionadas com a força-potência permitindo-lhe render quer nas provas de fundo quer nas provas de velocidade que na canoagem são definidas por um tipo específico de velocidade-resistente em esforços que variam entre os 40 segundos e os 4 minutos. Em 2010, após se ter consagrado campeã do mundo de maratona, desviou a agulha para a participação exclusiva nas provas de pista e começou aí uma saga de excelência. De salientar a medalha de bronze no Campeonato do Mundo em K4-200m e a medalha de prata no Campeonato da Europa K2-200m. Teve duas participações em Jogos Olímpicos, a primeira, menos conseguida em Pequim, a segunda, nos JO de Londres onde obteve dois diplomas olímpicos, dois sextos lugares, em K2-500m com Joana Vasconcelos e K4-500m com a Helena Rodrigues, A Joana Vasconcelos e a Teresa Portela. A estas quatro mulheres deve–lhes ser assacada a responsabilidade de terem tirado a canoagem feminina portuguesa da pré-história e tê-la trazido para a modernidade.
 

A Beatriz além de ser uma desportista que eu admiro e que eu coloco no areópago daqueles que nos tornam a vida mais conseguida em sentido, é minha colega de profissão. Fez a licenciatura e o mestrado em Coimbra, terra de doutores, e veio fazer o doutoramento ao Porto, terras de doutores, mas mais bonitos. A sua tese de doutoramento consagra uma abordagem multifacetada da Biomecânica da Canoagem. É das raríssimas teses de doutoramento no mundo que tem a Canoagem como objeto de estudo. Por isso, a minha admiração passou a um profundo agradecimento, malgrado umas lágrimas de emoção que só eu e ela sabemos a razão. Ela, estudou a modalidade desportiva que mais amo, mas a sua formação multifacetada fê-la derivar para outras modalidades desportivas e, hoje, é uma das cientistas com maior proficiência na área da Biomecânica do Desporto.
 

O que é louvável nesta extremosa mãe, formidável desportista e digna cientista é que ela conseguiu conjugar todas as dimensões da sua vida de forma a render no desporto ao mais elevado nível sem descurar as suas outras responsabilidades.

Beatriz Gomes é um exemplo de que se consegue ser ótima estudante e empenhada profissional atingindo, com sacrifício obviamente, a excelência no desporto.

 

 

 

 

 

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