Aliança entre palestiniano e israelita no Arouca

Arouca 22-09-2021 10:21
Por Pedro Cadima

O Arouca contratou primeiro Or Dasa, depois Oday Dabbagh. Ambos têm 22 anos, foram anunciados num intervalo de escassos dias. Muito longe estamos de situar a conversa em mais dois jogadores, eles representam curiosa investida do clube neste regresso à 1ª Divisão, unindo no mesmo plantel as duas nacionalidades que há mais tempo convivem em permanente animosidade e desprezo, num conflito secular de povos numa geografia ambivalente, que adensa querelas territoriais e religiosas.

Um clima de ódio, ocupações, privações… coberto de mortes, de sangue derramado nas ruas em ataques e contra-ataques, prolongando a agonia de famílias, uma martirizada Faixa de Gaza, numa guerra maldita de pedras, mísseis, desdém e barbárie. Não seria imaginável ver um israelita e um palestiniano debaixo do mesmo teto - a relação tem fluído - mas o futebol promove aquilo que é mais impensável, ressoando a esperança na tão confinada e circunscrita Arouca, tão difícil de alcançar, perante convite raro, mesmo insólito, aos dois futebolistas. Dabbagh, o palestiniano, e Or Dasa, o israelita, foram contratados para fazer a diferença na frente e têm sido suplentes utilizados de Armando Evangelista.

 

Dabbagh, à terceira oportunidade fez estragos, lançando a recuperação com o Vitória. Palestina em delírio, redes sociais em polvorosa. Or Dasa soma três chamadas. Judeu e muçulmano lado a lado, orações em hebraico, outras em árabe, apesar dos 50 quilómetros que os separam em relação ao local de nascença: a velha Jerusalém, onde nasceu Dabbagh, e Ness Ziona, que viu crescer Or Dasa. Percursos com inevitáveis constrangimentos, nos dois prevalece a perseverança e toda uma linguagem do futebol, o gosto de desvendar o mundo e sonhar com o esplendor. A viagem a Arouca assenta nessa doce ilusão de impulsionar a carreira e espreitar a glória.

Comecemos por Oday Dabbagh, a sua vida dava um filme… porque é, na realidade, o primeiro grande jogador feito na Palestina. Aos 22 anos já é considerado o maior símbolo do futebol palestiniano, um caso de estrondoso sucesso para o mundo, estreou-se com 16 anos como sénior do Hilal Al Quds, pela seleção já é o maior artilheiro de sempre. A chegada a Arouca entusiasma os populares como nunca, é um ator essencial para o futuro da nação. Dabbagh, que se recriava em criança a imitar lances acrobáticos de Van Persie, é o orgulho da Palestina e a Liga portuguesa será uma distração perfeita, um conforto para dias mais sombrios na Cisjordânia e Gaza. A passagem pelo Dragão já o elevou à condição de herói, depois de toda a febre com o folhetim da transferência para Portugal. Uma ansiedade difícil de controlar perante um anúncio transcendente, ficando Arouca como um bastião das atenções palestinianas.  

Outros palestinianos já se posicionaram na Europa mas as suas vidas foram feitas longe das suas raízes, dentro de contextos opostos e muito mais harmoniosos. Dabbagh passou pela liga local e não parecia possível acalentar uma visão do profissionalismo a partir dali. Ele quis contar uma história diferente. E na Palestina até rejubilam pelo facto de Portugal ter ultrapassado a França no ranking da UEFA, enfatizando que Dabbagh está numa realidade superior à de Messi.

Bassil Mikdadi, responsável do site Football Palestine falou-nos da importância do salto de Dabbagh.
«É um grande acontecimento, porque valida o talento que existe na Palestina e dá-nos uma grande esperança de o ver ter sucesso em Arouca. Irá abrir portas para outros talentos locais», conta o jornalista radicado em Singapura, feliz pelo desenvolvimento do futebol no país nos últimos dez anos, após os transtornos da 2ª Intifada, que levavam à paralisação da Liga.

«Continuam a existir problemas, pois os jogadores não recebem pagamentos a tempo e horas, falta um modelo de competição sustentável, a federação construiu estádios mal localizados, a liga é pessimamente divulgada para os fãs, quanto mais para mercados exteriores. Pensamos que o sucesso de Oday pode levar a liga a investir em várias mudanças, primeira delas passará por saber vender a prova e mostrar que podemos exportar mais talentos», denota, apresentando-nos as particularidades do avançado do Arouca.

«Oday é algo afortunado em comparação com alguns companheiros. Os que vivem na Palestina têm diferentes direitos dependendo dos sítios onde vivem. Aqueles que estão pior são os que vivem em Gaza, que enfrentam imensas dificuldades para sair de uma pequena área. Os que vivem na Cisjordânia estão um pouco melhor. Podem sair para o exterior com mais facilidade e, mesmo não sendo livres para irem a muitos sítios no seu próprio país, gozam de maior liberdade de movimento. Há ainda os palestinianos residentes em Jerusalém e palestinianos cidadãos de Israel», contextualiza-nos com uma mira mais apurada. «Como residente em Jerusalém, Oday podia viajar livremente e desfrutar de uma vida normal, distante de muitos companheiros. Ele não era totalmente imune ao conflito, pois prosseguem as expulsões de palestinianos de casas que foram suas durante gerações. Não foi fácil tornar-se profissional. Conseguiu porque trabalhou no duro e porque teve a sorte do Hilal Al Quds ter descoberto o seu talento. E, sobretudo, teve a sorte de não nascer dez anos antes, quando a liga era absolutamente acidentada», explica Bassil Mikdadi, reportando os dramas diários que assolam a Palestina e que também invadem as quatro linhas.

«Há muitas coisas que acontecem, as equipas são paradas no caminho para outra cidade. É imaginar o autocarro do Benfica ser intercetado a caminho de um jogo com o FC Porto. Isto acontece a toda a hora na Palestina por causa de uma ocupação sem qualquer razão. Também é verdade que há jogos interrompidos e bancadas evacuadas por causa de ataques de gás lacrimogéneo do exército israelita», alerta.
«Oday tem uma grande força mental e foco, resistiu a estes fatores. Ele tem o objetivo de ser um jogador de topo. Para isso sabe que tem de ser dedicadíssimo. Não é possível encontrar tanto profissionalismo noutros jogadores palestinianos. Quando recebeu uma oferta para sair, lutou contra a federação e a sua equipa para se conseguir libertar do contrato e rumar ao Kuwait», adianta Bassil Mikdadi, chegando ao trajeto recente do avançado do Arouca ao serviço do Al Salmiya, Qadsia e Al Arabi.

Devoção por toda a Palestina
Dabbagh é visto em Arouca como alguém bem-humorado e implicado no grupo.
«Ele é engraçado e muito descontraído. A pressão não mexe muito com ele, é muito maduro e inteligente. Quando foi para o Kuwait prosseguiu os estudos universitários, fazendo cursos à distância, ganhando um diploma na Universidade de Educação Física», informa Bassil, ainda em transe com a aparição do atleta no Dragão.


«Foram só 10 minutos, mas ele fez o único remate à baliza da equipa, ganhou um canto e venceu um duelo sobre Pepe. Mostrou que está preparado e penso que vai arrancar uma boa época em termos de jogos e acho que o vamos ver marcar vários golos. Ele já joga a um grande nível desde há muito tempo e se replicar agora essa grande forma ganhará visibilidade e será possível vê-lo nos melhores clubes da Europa», atesta o jornalista palestiniano, resumindo o impacto social da sua afirmação na Europa.


«Quanto mais sucesso tiver, mais símbolo nacional se tornará. Sempre teve orgulho de representar a Palestina e sabe que pode ajudar muito o seu povo, fazendo o seu trabalho. Quanto mais sucesso tiver, mais pessoas em Portugal e na Europa ficarão a saber da situação entre Jerusalém e Palestina.» O jogador, por sua vez, em maio, quando coroado como campeão no Al Arabi, não se escondeu e levou o seu discurso para lá do futebol, viviam-se dias de tensão em Gaza. «Ao meu país, a Palestina, que é difícil de quebrar. Para o meu povo que se recusa a sucumbir à humilhação, que não sabe o significado da rendição ou da derrota.»

Leia mais na edição impressa ou na edição digital de A BOLA

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias

Mundos