Pugilista afegão ligado à rádio para saber dos amigos

Boxe 16-08-2021 10:22
Por Gonçalo Guimarães

É através da rádio, a mais de oito mil quilómetros de distância, que Farid Walizadeh tenta saber notícias dos amigos e também de alguns familiares que estão no Afeganistão. O pugilista afegão, de 24 anos, vive no Centro de Alto Rendimento do Jamor, em Oeiras. «Tenho a rádio do Afeganistão ligada 24 horas por dia para saber se algum dos meus amigos morreu», contou à Lusa o jovem que chegou a Portugal em dezembro de 2011 e se revelou um dos melhores pugilistas do país.

Os talibãs, radicais islâmicos, chegaram ontem à capital Cabul, após uma semana em que já tinham tomado as principais cidades do país. «Durmo e acordo com as notícias ligadas. Costumavam dizer os nomes das pessoas que tinham morrido nos diferentes bairros, mas agora já são tantos que nos últimos dias têm dado apenas números...», lamenta.
Farid mostra-se agradecido por poder contar em Portugal com a presença da mãe, duas irmãs e três irmãos, o que lhe reduz a ansiedade. Apenas outra irmã está num campo de refugiados na Turquia, onde é «tudo muito mais difícil», mas mesmo assim nada comparado com o que está a passar-se no país natal.  «Não consigo falar com ninguém. Os talibãs são um povo burro: sabem usar as armas para matar, mas em relação a tecnologia, como os telefones, dizem que são o diabo», desabafa, carregando o peso de estar longe e «não conseguir fazer nada pela família e amigos». Diz apenas que «o Afeganistão voltou a recuar 20 anos».

O pugilista nasceu num país que sempre conheceu em guerra: «A minha mãe diz que houve paz nos anos 70 e que as mulheres até tinham direito a andar de saia, mas nunca vi nada disso, só em fotografias», afirma o refugiado que chegou sozinho ao nosso país, tendo atravessado Paquistão, Irão e Turquia, até que em dezembro de 2011 o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados o trouxe para Portugal. Em 2017 chegaram então a mãe, duas irmãs e os três irmãos.

 

 

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