A gaiola de Faraday (artigo de José Antunes de Sousa, 105)

Espaço Universidade 11-08-2021 08:23
Por Redação

Michael Faraday, físico e químico britânico (1791-1867), é, sem dúvida, uma das personagens mais populares no meio científico, e duvido mesmo que entre os alunos do segundo ciclo haja quem não tenha retido o seu nome. Afinal, ele é autor de um dos experimentos mais populares da história da ciência moderna: sentado numa cadeira de madeira, no interior de uma gaiola metálica e envolto num isolante, passou totalmente incólume, pois os electrões distribuem-se de forma homogénea, na parte exterior da sua superfície.
 

Ponhamos a coisa nos seguintes termos: metam, à força ou a bem (em princípio a bem, que à força não há quem),  um qualquer ser vivo, que, por absurdo, poderia ser uma águia, no interior de uma gaiola metálica, do estilo daquela que os inefáveis jogadores do Spartak exibiam no suposto e trapaceiro intuito de drasticamente confinar e, quem sabe, electrocutar a águia da Luz e saberão que essa descarga elétrica se dissipará no exterior da dita gaiola, sem atingir minimamente a ave, devidamente isolada, claro.
 

Como o Benfica: mentalmente isolado o grupo de trabalho dos maléficos intuitos do seu adversário, eis que sobrevoou, com vaidosa altivez, a ridícula gaiola moscovita, sem nela, obviamente, entrar (o seu habitat é o céu, nunca a gaiola) e sem sofrer o mais mínimo arranhão que fosse.

Mais: foi quem activou a pretensa descarga elétrica que por ela acabou fulminantemente atingido.
 

O achado científico da blindagem electromagnética que Faraday nos legou é, a seu modo, a metáfora perfeita a inspirar o trabalho de imunização mental que um bom líder de balneário deve consistentemente empreender.
 

No caso vertente, o Benfica soube isolar-se dos supostos intentos maléficos do adversário, optando por um tipo endógeno de motivação e centrando-se no núcleo da sua tarefa - e aconteceu tudo ao contrário do que pretendiam os russos, aprendizes de feiticeiro: o feitiço virou-se contra os próprios e foram eles a sofrer os efeitos da electrocussão mental.
 

É bem conhecido o axioma escolástico: “ actiones sunt suppositorum “ (as acções afectam os agentes, ou, numa tradução mais popular, as acções ficam com quem as pratica).
 

De facto, não há acções neutras: elas qualificam sempre o sujeito. Em clima olímpico, sejamos claros: a flecha lançada contra alguém atinge, antes do mais, o próprio lançador, por muito afinada que este tenha a pontaria.
 

Mas, neste aquilino episódio, persiste um evidente equívoco: a águia é, por sua própria natureza, a negação mesma da gaiola, pois é da sua própria essência voar bem alto e solitária - é, com efeito, nas alturas que ela exibe todo o seu poderio!
 

Não há gaiola que lhe sirva, por mais dourada que seja (numa alusão ao filme de Rúben Alves e que retrata jocosamente aspectos da saga migratória da década de sessenta para França) - seria sempre uma prisão fatal. Os horizontes da águia são demasiado amplos para serem confinados a uma qualquer gaiola.
 

Gostaria de terminar com uma nota curiosa de carácter pessoal, se tal me for permitido:
 

A padroeira da minha terra é a Nossa Senhora da Gaiola - assim mesmo. Durante cerca de cinquenta anos, a sua ermida serviu de sede paroquial, enquanto era construída a igreja matriz. Terminada a construção, o bispo de Leiria de 1605 a 1615, D.MartimAfonso Mexia, num gesto de incontinência iconoclástica, ordenou a demolição da ermida, enquanto o orago e demais pertences passavam para a igreja.
 

A origem desta exótica invocação não está devidamente averiguada, mas reza a lenda que, em tempos idos e para a poupar aos desmandos das hordas que invadiam a Lusitânia, a imagem da Virgem foi escondida num buraco no tronco de uma árvore, imagem que viria a ser descoberta por uns pastores que construíram, em seu redor, uma pequena cabana, que tinha o aspecto de uma gaiola, Daí o nome de Nossa Senhora da Gaiola que se mantém até aos dias de hoje.
 

É, porém, um dos raros casos em que a gaiola funciona como refúgio - que é como cativeiro que ela é sobretudo experienciada. Por isso, quiseram capturar a Águia: juízo - e que Nossa Senhora da Gaiola os proteja. Além, está claro, do Santo da particular devoção dos moscovitas: São Basílio!

 

José Antunes de Sousa
Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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