«Não sou um ladrão americano a tentar roubar o clube»

Benfica 24-07-2021 11:12
Por Entrevista de Rui Miguel Melo

John Textor mostrou a mesa onde assinou o contrato com José António dos Santos. Em entrevista a A BOLA, o empresário norte-americano lamenta não ter sido recebido pelo Benfica, explica o projeto que tinha para o clube e mostra-se resignado pelo fracasso anunciado da compra dos 25 por cento da SAD.

 

- Um jornal português colocou na capa: «Americano em Lisboa para comprar o Benfica.» Está aqui para comprar o Benfica?

 

- Não foi por isso que vim. Sabemos como funcionam as capas dos jornais. Quis mesmo dizer aquilo que escrevi no meu site. A única forma de entrar num clube que sempre foi e sempre será dos sócios é ser convidado a entrar. Isso ainda não aconteceu. Não me encontrei com a Direção. Pensei que isso aconteceria, quando aqui estive em junho. Sabemos das mudanças que aconteceram com o presidente. Foi um choque para todos que sentem o clube, e colocou essa situação em dúvida. Não queremos entrar sem que a Direção esteja recetiva.

 

- Acredita que está a sofrer danos colaterais de tudo o que aconteceu e está a acontecer no Benfica?

 

- Pessoalmente, não. Não há vítimas, vivemos a nossa vida e prosseguimos. Se imaginássemos isto há um mês…fui convidado até aqui. Era um investimento, mas não lhe podemos chamar só um negócio. Troquei cartas com o sr. Santos. Apesar do que possam pensar sobre ele, a pessoa que eu conheci gosta muito do clube. Ficou comovido com o que lhe escrevi, as minhas ideias. Escrevi-lhe um email e mostrei-lhe a minha visão para o clube, de abertura para outros mercados. No dia seguinte recebi um vídeo do próprio Benfica, e era consistente com o que tinha escrito. Havia sintonia em relação à visão do clube e do que podia fazer. O clube falava de abrir uma academia na Florida, o que conheço muito bem. Seria uma expansão de receitas e de talento para o Benfica. Imagine isto há um mês. Escreve um email, tem uma ótima resposta, negoceia um acordo a partir dos Estados Unidos. Venho a Portugal encontrar-me com o maior acionista privado, depois conheço o presidente. Ele foi muito simpático, estivemos juntos por pouco tempo. Nunca o conheci em abril, é mentira. A última vez em que estive em Portugal foi antes do Covid-19. Divulguei aquelas fotos com a permissão do sr. Santos, porque foi tudo aberto. Estive na academia, no estádio, conheci vários empregados. Sou um investidor estrangeiro, todos me dizem que será fantástico ter-me no clube. Sou apenas mais um parceiro internacional, e o Benfica tem grandes, como a Adidas e a Emirates. Sou pequeno junto deles. Em vez de me apresentar aos poucos aos fãs, tudo explode, e é feito em segredo, e ele está a roubar o clube. Até aparecem advogados a dizer que ando a roubar o clube, a dizerem que temos de parar isto. Este acordo, o valor que ia contribuir para o clube como parceiro internacional…sim, foram danos colaterais da situação do sr. Vieira. Agora já não estou a começar do zero, estou abaixo disso. Tenho de convencer as pessoas que não sou um ladrão americano a tentar roubar o clube.

 

- O acordo que tem com José António dos Santos tem prazo?

 

- O contrato original tem 90 dias desde o dia da assinatura. Julgo que foi a 16 de junho deste ano. Depois há mais 45 dias adicionais. Reuni-me com o sr. Santos, estas são situações extraordinárias. Ele aprecia o que estou a tentar fazer e por que quero aprovação. Antes da detenção do sr. Vieira, não havia necessidade de procurar aprovação. Já tinha sido convidado, adoraram a ideia da Bolsa de Nova Iorque. Tive vários sucessos na vida, e um fracasso grande. Mas mesmo esse fracasso grande levou uma empresa à Bolsa de Nova Iorque e metade dos meus investidores ficaram bem. Sou muito bom a levar empresas privadas ou em dificuldades para os mercados capitais.

 

- Benfica tem mais de 60 por cento das ações. Qual é o interesse para um investidor que não tem poder para decidir?

 

- Compro ações da Tesla e da Apple. Grandes investimentos; mas não tenho nada a dizer na gestão deles. Há três partes de mim aqui envolvidas: o amante de futebol, o filantropo que adora academias e colocá-las em universidades e o investidor. Sinto-me desconfortável em falar apenas como investidor. Um investimento não me dá apenas retorno financeiro. Dá-me alegria, satisfação pessoal se ajudar pessoas. Como investidor, é muito simples. E por isso preciso do apoio do Conselho de Administração. Eles têm de decidir se se querem abrir aos maiores mercados do mundo, se aceitam que o grande Benfica tem de ficar num mercado pequeno. Isso é mau negócio. Vejam o CEO [Domingos Soares de Oliveira, ndr]. Eu falo com um investidor de Wall Street, mas ele tem bom aspeto, fala muito bem inglês, gere muito bem a empresa. Seria atraente como CEO de Wall Street. O meu investimento será sempre visto pela métrica de Wall Street. Se conseguir implementar as minhas ideias de tecnologia e aplicações para me relacionar com os fãs…a audiência da equipa vale sempre mais do que a equipa. Os adeptos veem um jogo por semana. E depois o que fazem? Vão ao cinema e às compras? O melhor que os fãs têm é a lealdade. Essa lealdade ao clube só é comparável à família. O público quer relacionar-se. É tudo engagement. O Benfica não é um daqueles anúncios de SPAM que aparece à nossa porta quando não queremos. Os benfiquistas querem saber mais sobre o clube. Se a Direção se abrir mais para estes mercados mundiais, então 4 euros por ação multiplicam-se quatro ou cinco vezes. Além disso, como investidor de Wall Street, o Benfica tem mais algo de notável. Os investidores são nervosos antes de serem otimistas. Sim, adoram a Tesla e a Apple, mas pensam sempre no que pode acontecer mal. Depois aparece o Covid, o desporto é cancelado, os estádios estão vazios, é a pior coisa que pode acontecer a um clube com um contrato televisivo pequeno, num mercado ainda mais pequeno. Em vez de perderem 80 milhões, o Benfica vende um jogador. Não o querem fazer, mas precisam de o fazer. E conseguem o Break-Even. Wall Street olha para isso como resiliência.

 

- Por que olham para si como uma ameaça?

 

- Sou americano. Os americanos não têm sido bons para o futebol. Aqueles que compram clubes são muito egoístas. Tentam adulterar regras de um jogo que está cá há décadas. A Superliga Europeia foi uma ideia horrível.

 

- Percebe porque é que o Benfica não quer este negócio?

 

- Não posso entender sem especular. Não faz sentido que não queiram uma reunião com um investidor estrangeiro, que foi amigo do Benfica no passado e quer ajudar no futuro. Isso não faz sentido. A não ser que não queiram que seja vista como reunião. Deviam ter-se encontrado comigo.

 

Leia a entrevista completa na edição impressa ou digital de A BOLA.

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