Sem redenção (artigo de José Augusto Santos, 22)

Espaço Universidade 12-07-2021 19:01
Por José Augusto Santos

E o veredicto chegou sob a forma de um cruel sintagma – “elevada probabilidade de eventos coronários”. E ele, com a alma vestida da mais despida desilusão, fez passar em flashback o filme da sua vida onde o herói não tem as moças para salvar, mas unicamente o desejo de se salvar a si próprio. Como se salvou ele? Ouçamos esta versão muito resumida da sua estória.
 

Tudo começou lá longe, no estreito corredor do quintal das traseiras de sua casa, onde os duros talos de couve substituíam eficazmente os sticks de hóquei que nunca teve. Ele num lado, o seu amigo de sempre do outro, e toca a despachar uma bola feitas de trapos no afã de viver em ilusão a saga dos heróis de hóquei em patins que nos tinham dado mais um título mundial.
 

A partilha das aventuras desportivas tinha um especial momento de emulação quando se embrenhavam, em luta um contra o outro, na nobre modalidade desportiva de alta competição que se denominava – o vira. Passo a explicar para os disfuncionais de todos os teclados eletrónicos. O vira, era uma modalidade de alto risco, em que através de um rápido movimento da mão em concha se tentava virar para cima as imagens dos jogadores da bola. Tal conseguindo ficava-se com a quantidade de jogadores virados. Alguns utilizavam “escupe” para facilitar o viranço o que entrava no campo dos procedimentos ilegais condenados pelo tribunal ad hoc construído no momento.
 

Certo dia, daqueles dias em que saímos à rua e tudo nos sai bem, na pugna “virística” contra o amigo ganhou-lhe todos os jogadores. Ele ainda lhe perguntou: - Ouve lá, tu puseste “escupe” na mão? Logicamente negou. Foi jogo limpo. O seu adversário de ocasião quase chorava pois tinha perdido os jogadores do seu panteão particular, a saber, Pinho, Acúrcio, Jaburu, Pedroto, Hernâni, Monteiro da Costa, Virgílio e outros.

Passaram-se os dias e o derrotado continuava fechado na sua vil tristeza até que o nosso herói lhe pediu para copiar as contas de multiplicar e dividir que eram trabalho de casa exigido pelo professor Vasconcelos da escola do Bomfim. Como já se disse noutro lado, em relação às contas de “sumir” e “substramir” o nosso herói lá se ia safando, mas os confusos algoritmos das contas de multiplicar e dividir ultrapassavam a sua capacidade de processamento e, no âmbito das contas, ia de mau em mau até ao péssimo terminal.  Logicamente que o amigo recuperou todos os jogadores perdidos pois a aselhice e a iliteracia matemática têm um preço.
 

Nas suas pugnas desportivo-guerreiras mimoseavam-se com vocábulos tais como camurço (metade camelo, metade urso) e naburço (metade nabo, metade urso). Estes insultos inenarráveis eram condimentados à pedrada, cada um protegido pela sua árvore. Só que o homem-que-sabia-fazer-contas já tinha alguns conhecimentos rudimentares de balística e, em vez de arremessar a pedra em linha reta, projetou-a, um dia, através de uma parábola invertida. A pedra subiu no éter e aterrou no cocuruto do “inimigo” transformando a face risonha e irónica do autor destas letras numa imensa catarata de lágrimas que, como o poeta dizia, se acrescentaram em imenso e caudaloso rio. “Vou fazer queixa à tua mãe”. “Não, por favor, não vás”. Foi. E mal ele começou a alombar com a ira punitiva da mãe logo a dor lacrimosa terminou e se transmutou num riso de satisfação vingativa na face do ofendido.
 

Quando por volta dos 14 anos começou a praticar basquetebol e remo na Mocidade Portuguesa o nosso herói levava no alforge o capital de experiências motoras que a infância e os anos pré-pubertários lhe tinham propiciado. Algumas das proezas físicas envolveram enorme risco. Um dia, por volta dos seus doze anos, subiu a uma das tílias que cobriam o recinto das suas brincadeiras e com os braços a tremer do esforço começou a chorar até que os funcionários do tribunal da rua Formosa o ouviram e o foram acudir.

 

No meio de tanta pobreza material nunca ninguém foi mais rico que ele em vivências motoras. Não, não era brincar, era verdadeira paixão pela brincadeira e movimento que o transformaram num émulo de Sísifo. Cada dia recomeçava com o afã de levar o pedregulho até ao cimo do monte. Em cada dia renascia renovado preparado para a tarefa nunca conseguida de se satisfazer com o jogo. O jogo, o desporto, entrou-lhe na vida pela porta mais robusta e duradoura – a porta da emoção e nunca mais de lá saiu.
 

Acreditem por favor. Exame de Contabilidade. A coisa não lhe estava a correr muito bem. Através da janela vê o diretor da escola a pintar o campo de basquetebol. Sai do exame e vai ajudar o diretor na nobre tarefa de pintar o campo para o jogo que aconteceria de tarde. Só fez Contabilidade na segunda época.
 

Acabou o curso comercial e começou logo a trabalhar. Isto nos seus 16 anos. Era o funcionário com mais habilitações escolares no escritório, mas o que ganhava menos – 500 escudos. Dava todo o dinheiro à mãe e ela “semanava-o” com 50 escudos. Aproxima-se o verão e as provas de canoagem em Espanha. Diz ao patrão: - O meu pai não quer que eu trabalhe mais”. Diz ao pai: - O patrão mandou-me embora pois tinha de me meter no quadro”. Com estas mentiras repetidas, com variações ad hoc a cada ano, ficava com os meses de verão disponíveis para o remo e canoagem. O basquetebol começou mais organizado nos seus 17 anos nos juniores do Clube Fluvial Portuense.
 

Entretanto vem a tropa e o desporto ficou suspenso quatro anos, mas não a atividade física levada aos limites. Não desenrolando em vaidades avulsas a sua competência motora, eis uma só traduzida em realizações militares. Na recruta, nas Caldas da Rainha, bateu o recorde da pista de obstáculos que pertencia ao Rui Rodrigues, jogador da bola da Académica. Pronto, para gabarolice já chega.
 

Importa referir a sua saga desportiva na Guiné. Um dia, muito debilitado psicológica e emocionalmente pelas acontecências da guerra, veio a Bissau tirar um dente. Tratar o dente era ir e regressar no mesmo dia. Dente fora dava uma semana a coçar a micose em Bissau. Decidiu tirar o dente mesmo contra a vontade do médico que disse que tal não se justificava. Com medo após atitude intempestiva do nosso ranger, o dentista lá se decidiu pela extirpação que mais tarde foi revertida à base de 1500 euros cada implante. No fim de semana alguém se lembrou de fazer uma jogatana de basquetebol entre a malta guerreira no decrépito campo da escola secundária. Só para matar saudades, mas a coisa foi difícil e redundou em entorses e ruturas. Um jogo e regresso à mata. O correspondente do Norte Desportivo, militar de ar condicionado na capital da Guiné, amigo do nosso herói e que com ele tinha jogado basquetebol no Fluvial, enviou para a metrópole uma notícia que terminava com algo parecido com: “O craque do Académico continua a espalhar na Guiné a magia do seu basquetebol”. Para notícia forjada não esteve nada mal. É assim que se constroem famas indevidas.
 

Regressado a penates mergulhou nas profundezas de um Banco a que acedeu facilitado pelas habilidades basquetebolísticas tão bem expressas na Guiné através de um jogo entre gordos e ancilosados. Durou pouco (um ano) a sua punição “banquística”. Abandonou o banco e entrou de alma e coração no Olimpo, aquele lugar no éden Grego que tem o Desporto e da Educação Física como forma de realização existencial. Da sua folha de serviços tendo a prática desportiva como referência algumas se salientam: (i) férias da Páscoa de 1996. Descida em solitário do rio Douro. O rio ia bravo pelas chuvas de inverno. Uns 50 km abaixo de Almazán rio tapado por árvore caída. O canoísta aventureiro embrulha-se emergido nos ramos e não sabe como escapa do afogamento. O rio poupou-o, pois, ainda era cedo. A ele há de regressar um dia, definitivamente, reduzido à sua dimensão quântica. (ii) maio de 2005. Rio Tejo. Lá para cima onde o rio é reserva natural protegida. Pagaia todo o dia e a noite caiu sem povoado à vista. Toca a dormir na margem, no saco de dormir. Por volta da meia-noite, barulhos estranhos acordam-no. Noite cerrada e perscrutando silhuetas contra a luz das estrelas divisa uns cornos bem afiados. Veados, a quem tinha fechado o acesso à água. Levanta-se rápido e vai dormir fora do trilho dos animais. Foi por pouco. (iii) junho de 2008. Um companheiro de longa data pretende um parceiro para fazer uma prova em França – o Dordogne integral, 135 km seguidos em competição. Quem quer casar com a Carochinha? Quem? Ninguém. Alguém se lembrou do único João Ratão possível. Só há um que vai contigo de certeza. Quem? O seu nome foi a resposta. Bem, foi coisa dura pois foi sempre a dar-lhe sem parar. Mais de sete horas seguidas de esforço. Ficaram em segundo da geral, mas para sobreviver, além dos geles que iam colados a fita-cola no casco do K2, iam também colados três comprimidos de Voltaren rapid que atenuaram as dores musculares e da artrose da anca no decurso da prova.
 

Ficamos por aqui, mas muito mais haveria a acrescentar ao filme deste jovem que agora se depara com o veredicto da morbilidade coronária. Que fazer? Haverá redenção para os “crimes” desportivos que cometeu? Querem-no condenar agora à imobilidade. Não é justo. Os deuses têm que ter piedade e permitir-lhe que continue a saga maravilhosa que deu sentido à sua vida. Há sempre redenção para quem pecou por amor.

Já diz o aforismo popular que de popular tem pouco – mais vale ser rei por um dia que vassalo toda a vida. O nosso herói tem sido rei neste curto lapso de tempo que é uma vida. Tem toda a eternidade para ser vassalo.
 

Uma prática desportiva totalmente absorvente e com viagens frequentes ao excesso não tem redenção. Há sempre um preço a pagar. O coração fraqueja? Sim. As articulações claudicam? Sim. Mas a alma viceja na fruição duma vida em que o desporto foi fautor de transcendência.

 

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