Algumas notas sobre o Euro (artigo de José Antunes de Sousa, 101)

Espaço Universidade 24-06-2021 18:22
Por José Antunes de Sousa

Uma primeira nota significativa: este é um Campeonato nómada, o que, num tempo caracterizado pelas ululantes hordas de migrantes, não deixa de ser, em si mesmo, um sinal dos tempos. As equipas, com as excepções do costume, saltam de palco para palco, deixando um rasto de exotismo nunca antes visto. Um nomadismo que visou não acentuar uma qualquer errância, mas, pelo contrário, sinalizar politicamente o desígnio unitivo de uma Europa múltipla e multíplice.

 

Segunda nota: à uma, todo o mundo boquiaberto a observar a caprichosa trajectória de uma bola chutada a uns bons 45 metros por Patrik Schick, da República Checa, até se anichar nas redes de um desesperado David Marshall. Uma cena criativa com três protagonistas: Schick, Marshall...e a bola!

 

Uma cena que inclui o estado mental e emocional de todos os jogadores em campo e o entusiasmo e aflição das bancadas. E a bola também? Sim.

 

Já o escrevi (Desporto em Flagrante, pp162/3) e insisto aqui: o jogo desenvolve-se num clima dinâmico de intencionalidades, num contexto de inteligência e criatividade e no qual a bola está longe de ser um mero objecto inerte e opaco que todos perseguem - precisamente por ser o alvo da acuidade intencional de todos, ela anima-se, de acordo com a dinâmica dicotómica das vontades em confronto. Como elemento integrado no campo qualificado de consciência, aquela bola como que se afeiçoou à intenção parabólica do avançado checo e reagiu ao olhar apavorado e rendido do guarda-redes escocês.

 

Enfim, trata-se de um golo epistemologicamente significativo e interpelante. Um golo que concita e convoca as várias condicionantes do jogo: aquela bola buscou, como teleguiada, a baliza, descrevendo uma curva traçada na mente do executante e pareceu fugir (não, fugiu mesmo) do guarda-redes com quem se estatela contra a rede. Belo, artístico, inteligente, único: um golo histórico.
 

Terceira nota: o milagre da ressuscitação de Eriksen. Foi o próprio médico da Dinamarca quem o afirmou: “ele esteve morto”. E a questão coloca-se com a prontidão de um recruta: foi o desfibrilador que o trouxe de volta ou foi ele mesmo que quis regressar? Os dois, mas, em última instância, foi o próprio Eriksen quem decidiu voltar à vida: nós somos os co-criadores de nós próprios.

 

Por outro lado, o grupo, fuzilado a frio pela foice da morte na relva, não resistiu ao abalo e perdeu com a Finlândia e, apesar de dar nítidos sinais de fortaleza de ânimo, perderia também com a Bélgica. Mas, catapultado pelo acicate do companheiro a recuperar, eis que, num desafio épico, cilindrou a Rússia, assegurando assim a continuação na prova. Conclusão: somos comandados pela emoção.
 

Quarta nota: aquele jogo de Wembley entre Escócia e Inglaterra, além de confirmar a força colossal das disputas ancestrais, veio dar plena razão a um antropólogo, Desmond Morris, também ele britânico ( A tribo do Futebol) que vê no jogo de futebol a metáfora bélica perfeita. Combate faiscante e sem um segundo sequer de trégua foi como se ofereceu ao nosso espanto aquela rija peleja entre históricos rivais - e, mesmo sem golos, foi o exemplo acabado de como se deve lutar para obtê-los.

 

Quinta nota: o golo dançado por Portugal contra a Hungria, a culminar um bailado colectivo de trinta e três passes: golo-paradigma do colectivismo, sem dúvida. Mas sabem por que foi possível tal golo? Simples: porque os nossos jogadores ( a ganhar por 2-0), estavam implantes de confiança. Ao contrário do que revelaram no jogo (autêntico baile), com a Alemanha, jogo abordado por um seleccionador em pânico: “Alemanha é uma equipa fantástica “, tendo acrescentado, com um esgar de aflição: “não temos medo da Alemanha”. Sob a indicação negativa esconde-se o paradoxal reconhecimento amedrontado do temor que nos incute tal poderio. E continuou o nosso seráfico treinador: “o nosso objectivo não é empatar mas tentar (!!!) ganhar à Alemanha”.

 

Agora, fazendo, uma vez mais, alarde da nossa atávica convivência com a mediocridade, toda a minha gente se entretém a celebrar o facto de podermos perder por dois com a França, que, mesmo assim, passaremos para a próxima fase da competição.

 

É o discurso minimalista e tangencial, que nos deu, caída do céu aos trambolhões, a vitória em Paris, em 2016, com aquele pontapé enrolado do Elder, mas, atenção, é equívoco que, para nossa desgraça, não voltará a repetir-se.
 

Meus amigos, quem pensa pequeno pequeno se torna!

 

 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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