A Metamorfose (artigo de Manuel Sérgio, 361)

Espaço Universidade 20-06-2021 18:32
Por Manuel Sérgio

 A poesia pretende, à força de palavras conhecidas, dar ao leitor esse ser humano desconhecido que as ciências tidas por exatas não conseguem vislumbrar. Por isso, porque considero genial este poema de Herberto Helder, começo precisamente com um poema: “Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro. A partir – digamos – de dentro. Era um nó negro, por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora. Alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

 

O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação  dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1º - peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2º - peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

 

Ao meditar acerca das razões porque o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número  de prestidigitação, pretendia fazer notar que existia apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo” (Do Mundo, Livraria Aleph, De Google).

 

A crise que atravessa a racionalidade galilaico-cartesiana e os novos paradigmas emergentes são prova evidente de que o real está em permanente metamorfose. Demais, com a hermenêutica, “o ser que pode ser compreendido é linguagem” (H.G. Gadamer, Verdad y Metodo, Ediciones Sígueme, Salamanca, 1988). De facto, se “a linguagem é a casa do ser”, como Heidegger o repetia, é a linguagem a dizer-nos o que pensava o saber aristotélico-tomista da Idade Média e o que a modernidade, com Galileu, Descartes, Newton e Kant, julgava eterno e o que a pós-modernidade entende como Verdade. Ora, a pós-modernidade desvela-se, revela-se, como “idade hermenêutica da razão” e portanto onde se “labora na pressuposição de que, rigorosamente, não há conhecimento (perfeitamente) objetivo. Apenas há interpretação de linguagens e compreensão do mundo” (Jorge Coutinho, Filosofia do Conhecimento, Universidade Católica Editora, 2003, pp. 169-170). Uma mulher, até à década de 50 do século XX, quase nada podia esperar da vida, depois de ter cumprido o seu destino “inalienável”(?) de parir e educar os filhos e ser um modelo obediente aos apetites do seu marido (nada mais!) que, entretanto, cevava os dentes todos na maçã pecadora. A própria religião cristã, com uma hierarquia masculina e uma fé institucionalizada em sociedades patriarcais, chegava às mulheres idealizada na Virgem Maria que, por ser Virgem, impossibilitava um modelo feminino de acesso generalizado às restantes mulheres. Acompanho pela televisão o mundial de voleibol das equipas brasileiras (feminina e masculina) e delicio-me com as suas exibições, designadamente as da equipa feminina. As qualidades físicas e intelectuais daquelas moças é sinal certo e seguro de uma igualdade radical de género, que já se pratica no Brasil e afinal em toda a América Latina. E, no Brasil que eu conheço, o facto de a própria teologia não deixar de pôr a nu o que de reacionário e fascizante se infiltrou na mensagem dalgumas igrejas. A Literatura Ocidental cunhou, muito justamente, o provérbio: “Vérité au deçà, mensonge ai dela des Pyrénnées”. Quando comecei a trabalhar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-Brasil), pude dialogar, inúmeras vezes, com o Rubem Alves, uma das figuras maiores da “teologia da libertação” e um escritor e pedagogo brasileiro de indiscutível mérito. Relembro o que, um dia, me disse; “Junto à cruz de Jesus Cristo, nos momentos derradeiros da sua crucifixão e morte, só mulheres se encontravam junto d’Ele. Terá sido por acaso?”.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira, professora catedrática aposentada da Faculdade de Letras de Lisboa, apresenta, por contraste, a morte de Sócrates, onde as mulheres foram compulsivamente expulsas de assistir à agonia do mestre (cfr. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. “A subversão de uma mundividência”, in Manuela Silva e Fernanda Henriques, Teologia e Género, ariadne editora, Coimbra, 2006, pp. 193 ss.). Enfim, Jesus Cristo, a grande “Boa Nova”, na história da humanidade! Mas, na sociedade e portanto no desporto, que todos porfiamos em construir, o economicismo da alta competição deve ser diagnosticado e o hegemonismo e o dirigismo e as tentações elitistas devem ser desmascarados.  Vivemos um momento propício de relembrar o pensamento de Maurice Druon, no livro, de que é autor, La parole et le pouvoir: “A grandeza reconhecida da Democracia está em deixar em liberdade os seus eventuais assassinos. A estupidez começa quando ela, ainda por cima, lhes paga o punhal” (p. 369). O futuro do desporto nacional menos se decreta do que se merece e se constrói solidariamente. Prepara-se, com muita pedagogia e persuasão na Família, na Escola, na Comunicação Social, nos Clubes, no Comité Olímpico, na Universidade, nas Associações e Federações. As grandes prioridades são conhecidas. Mas uma guerrilha verbal alienante, onde as palavras são verdadeiras armas de arremesso e ao serviço do radicalismo saloio de certas pessoas, pode escondê-las ou mudar-lhes a cor, como acontece com o peixe do poema de Herberto Helder. Efetivamente, a opinião pública portuguesa, tendo sido contemplada com uma “explosão de informação”, depois da Revolução dos Cravos, no que ao desporto diz respeito são poucos os que o pensam e dele sabem fazer um problema nacional que se põe hoje ao nosso país”. O Desporto é um caso de Cultura e de Educação e de Saúde (e mais itens poderia acrescentar). Mas por problemas técnico e táticos? Acima do mais, porque não é possível falar-se em Desporto, sem recorrer a uma axiologia dos valores. Não há ciência humana que não comporte uma relação iniludível com a ética e a moral. Mesmo ao nível do conhecimento…     

              

                         

              

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