A perceção da dopagem (artigo de Vítor Rosa, 153)

Espaço Universidade 19-06-2021 16:46
Por Vítor Rosa

A dopagem é um fenómeno social de grande escala. Prejudicial para a saúde e infração à regra, é o “mal” do século XXI. Acentuou-se, sobretudo, durante os anos 1990, num contexto de conversão do desporto à economia de mercado, de entrada crescente de financiamento de origem privada, da exaltação do sucesso individual, da forte evolução da farmacologia e da revolução no domínio da comunicação, que constitui a Internet. O Homem tem dificuldades em aceitar os limites físicos ou mentais. Mas não é de agora. Ela inscreve-se na relação natureza-cultura própria da evolução humana.

 

No caso do atleta, ele corresponde às exigências de uma sociedade concorrencial, que determina uma lógica obsessiva da superação de si mesmo. A proeza desportiva (considerada como um fim em si, representa uma extraordinária perversão do instinto lúdico; encoraja o atleta a explorar o dom corporal precocemente revelado, excluindo todos os outros; é a aventura em nome do proveito imediato) nasce de uma subtil mistura de motivação e de condição física, onde a dopagem encontra uma porta de entrada.

 

Os estudos apontam que, em 95% dos casos, as substâncias utilizadas são medicamentos, desviados da sua vocação terapêutica. Vejamos alguns exemplos: a efedrina (asma) facilita a ação do sprinter, reduzindo o seu tempo de reação; a hormona de crescimento (pediatria) permite o aumento da massa muscular no halterofilista; o prozac (depressão) reforça a resistência ao sofrimento no maratonista; a eritropoetina ou EPO (anemia) aumenta a resistência do ciclista, estimulando o transporte de oxigénio no sangue; a tacrina (doença de Alzheimer) é consumida pelo piloto de fórmula 1 ou pelo jogador de golfe, por forma a memorizar o futuro percurso; os beta-bloqueantes (hipertensão arterial) reduzem os tremores nos atiradores; a modafinil, molécula anti-sono tomada pelos militares durante a guerra do Golfo, é recuperada pelos navegadores de corridas solitárias.

 

As múltiplas derivas levantam muitas questões. O que distingue a dopagem do acompanhamento médico? Qual é a dimensão do fenómeno? Quais são os produtos utilizados? Quem são os atores das condutas dopantes? Como é que a indústria da dopagem funciona? O ato de dopagem pode ser assimilado ao comportamento do homo economicus? Podemos imaginar um desporto de alto rendimento que evitaria a dopagem? Será que a conduta dopante no desporto se resume apenas na procura da performance? O atleta faz sacrifícios necessários para ser reconhecido, para ultrapassar as dificuldades e para prosseguir o seu sonho. Será, por isso, que se dopa: para ser melhor, para ser ele próprio, para ser melhor do que si próprio?

 

A dopagem está omnipresente na sociedade, mas ela é sancionada no desporto, no qual se baseia em vários mitos: pureza do esforço, igualdade de oportunidades, incerteza dos resultados, atividade sã e natural.  Segundo Bourg (2004), a dopagem inscreve-se no quadro de uma transformação social (espírito de concorrência e de competição, obrigação do resultado), que exige do indivíduo que seja melhor do que ele mesmo, e num movimento geral de medicalização da sociedade que acompanha uma instrumentalização do corpo. Na realidade, a “geometria” da dopagem constitui a primeira incerteza. E não existe um consenso sobre a sua definição. Existe uma dopagem conhecida e detetável e uma outra indetetável e não procurada.

 

Se admitirmos que a dopagem consiste no recurso a ajudas artificiais para ajudar na performance, uma dopagem ilícita, mal controlada, surge. A fronteira entre a dopagem autorizada e não autorizada é arbitrária. A primeira abrange o conjunto de medicamentos lícitos, prescritos e ingeridos fora de toda a indicação terapêutica, por forma a otimizar o nível do atleta. A segunda é definida pela lista de produtos proibidos elaborada pela Agência Mundial Antidopagem (AMA), fundada em 1999, segundo três princípios: o produto possui o potencial de melhorar a performance; ele representa um risco para a saúde; ele é contrário à ética do desporto. Para que uma substância faça parte da lista, é preciso que dois destes princípios se verifiquem.

 

Algumas tentativas para liberalizar ou passar em silêncio a dopagem levanta outras observações. Elas refletem uma conceção produtivista do desporto: o ser humano vê-se reduzido à racionalização de uma máquina para bater recordes. Banalizam o uso destas substâncias, ocultando os efeitos do consumo e as consequências para a saúde.

 

Para a organização dos controles antidopagem, só uma autoridade externa dos poderes desportivos pode apresentar as garantias suficientes de rigor e de transparência. A eficácia da luta contra a dopagem releva de uma submissão da divisa olímpica: “citius, altius, fortius” (mais depressa, mais alto, mais forte) com a compatibilidade com a saúde dos atletas.

 

Como toda a prática “desviante”, como diria Becker (1995), a questão da dopagem coloca às ciências sociais dificuldades acrescidas, cujos fundamentos teóricos, epistemológicos e práticos constituem um verdadeiro desafio (Trabal, 2002). Basta, para isso, recensear a fraqueza dos métodos habituais mobilizados pelo sociólogo para apreender as práticas sociais (entrevistas, inquérito por questionário, observação) (Ghiglione & Matalon, 1991). No caso do atleta, a apreensão da dopagem passa, essencialmente, pelo corpo (produto injetado, absorvido, consumido, etc.). O corpo passa a ser o “testemunho”. As estatísticas sobre a dopagem apresentam forças e fraquezas, simultaneamente, pois funcionam pela totalização ou pela redução da realidade. Se aceitarmos que possa haver “interesse no desinteresse”, como sublinhava Bourdieu (1997, p. 148), para se analisar a dopagem convém partir dos interesses e das posições dos diferentes atores sociais.

 

O contexto da dopagem nos atletas desenvolve-se no contexto de uma sociedade dopada, acostumada ao consumo generalizado de medicamentos, suplementos alimentares, vitaminas e outras substâncias, estimulando a performance quotidiana (Queval, 2004). E é preciso não esquecer que a competição desportiva, exprime a possibilidade de uma harmonia entre o corpo e o espírito, entre o jogo e o rigor moral, entre a competição e a solidariedade, entre a cultura e o povo. O desporto de alto rendimento é apenas uma faceta; a mais mediática, sem dúvida. A dopagem solicita uma reflexão ética.

 

 

Referências:

 

Becker, H. (1995). Outsiders. Métaillié.

Bourdieu, P. (1997). Méditations pascaliennes. Seuil.

Bourg, J.-F. (2004). Le dopage. In Georges Vigarello (dir.) (2004), L’esprit sportif aujourd’hui (pp. 133-150). Universalis.

Ghiglione, R., & Matalon, B. (1991). Les enquêtes sociologiques : théories et pratique. Armand Colin.

Queval, I. (2004). L’excellence sportive : au risque de la destruction. In Georges Vigarello (dir.) (2004), L’esprit sportif aujourd’hui (pp. 49-58). Universalis.

Trabal, P. (2002). La perception du dopage : une approche pragmatique. Psychotropes, 3(8), 89-99.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias

Mundos