«Se bebesse como eles chegava ao jogo e rasgava-me todo»

A BOLA FORA 17-06-2021 11:27
Por Tânia Ferreira Vítor

Em janeiro de 2020 Pedro Moreira estava sem clube, em fevereiro assinou pelo Arouca para jogar no CNS [Campeonato de Portugal]. Em junho do mesmo ano subiu à II Liga e agora à I Liga, sempre com a camisola do clube arouquense, o mesmo que lhe deu a mão numa altura «difícil». Uma história com final feliz.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?
- Estava a descansar. Ontem [quinta-feira] queria ter-me deitado cedo, porque no dia anterior tive um casamento, mas não deu. Estive a ajudar um primo que inaugura hoje [sexta-feira] uma loja.


- Antes de mais, muitos parabéns pelo regresso à I Liga com a camisola do Arouca. Em sentido contrário, o Rio Ave desceu de escalão. Como foi disputar o play-off contra a tua antiga equipa em Portugal?
- Foi uma sensação um bocado estranha. Quando acabou o segundo jogo em que garantimos a subida, demorou a cair a ficha. Apesar de estar muito feliz pelo meu clube, não sabia se festejava com a minha equipa ou se ia abraçar os antigos colegas. Mas estou muito orgulhoso do que fizemos. Merecemos muito este prémio no fim da época. Era o objetivo do clube e foi brutal termos conseguido duas subidas consecutivas. Temos um grupo fantástico que me recebeu muito bem. Estarei sempre grato ao clube por me ter dado a oportunidade de aparecer outra vez.


- Como está a tua situação contratual?
- Quando assinei pelo Arouca, ainda no CNS, havia uma cláusula no contrato que dizia que se subíssemos à II Liga, eu renovava automaticamente por duas épocas. Por isso, ainda tenho mais um ano.


- Há uma imagem tua com o Nélson Monte que correu a internet. É a prova de que o futebol é mais do que os 90 minutos?
- Sim! Tenho uma relação muito bonita com o Monte, porque quando cheguei ao Rio Ave ele ainda era um menino e estava a dar os primeiros passos na I Liga. Adoro-o e sei que sente o mesmo por mim, é um miúdo fantástico. Não sabia que a imagem tinha ficado viral. Estava a festejar com os meus companheiros de um lado do campo e de repente vejo-o sozinho do outro lado. Tive de ir lá e dar-lhe um abraço de força. O futebol é dentro do campo, mas o respeito e a amizade tem de existir sempre entre os jogadores, sobretudo com quem nos damos bem.


- Em tom de brincadeira, pergunto-te se houve alguma partida engraçada que não foi partilhada naqueles anos em que vocês tinham um balneário mítico com o Ukra e companhia?
- Perguntam-me várias vezes isso, mas não tenho muito para contar, porque as brincadeiras eram coisas do momento e a maior parte delas com bolinha vermelha [risos]. Mas é verdade que o Nélson Monte sofreu um bocado connosco por ser o mais novo do plantel e também por gostarmos dele. Posso contar esta: um dia, o Roderick levou um casacão comprido que parecia dos gajos do circo e eu disse ao Monte: ‘Olha, eu vou vestir o casaco, vou apresentar o circo e tu vais ser o meu leão’. Então era ele a fazer de leão e eu de domador no balneário. Ainda rio muito ao rever isso. As outras só posso contar em off-record [risos].


- Qual era o segredo desse balneário?
- O segredo era darmo-nos bem fora dali. Quando acabava o treino, íamos sete ou oito almoçar. Cheguei a trazer vários colegas a Lousada, a comer em casa dos meus pais. Criámos uma família e quando as coisas não corriam bem dentro de campo, acabávamos por dar as mãos e lutar em conjunto. Além de seres bom jogador, tens de ser boa pessoa e sentir carinho pelo colega que está ao teu lado.


- Saíste do Rio Ave em 2018. Foi uma decisão tua?
- Sim! Até essa altura nunca tinha pensado em emigrar, porque tinha receio de ir sozinho para fora. Mas aos trinta, queria sair da minha zona de conforto. No Rio Ave estava muito bem, em casa, e era acarinhado. Mas na última época joguei menos, o contrato acabava e, apesar do clube me ter oferecido a renovação, meti na cabeça que queria testar-me e experimentar coisas novas. Infelizmente, não correu como eu queria e se me perguntares se estou arrependido, a resposta é sim. Mas a aventura no Hermannstadt ajudou-me a crescer. Tornou-me mais forte mentalmente, fez-me ver outras coisas que eu não conhecia e comecei a cuidar melhor de mim. Na Roménia, cresci como homem mas não como jogador.


- O Hermannstadt tinha sido fundado em 2015. Aconselhaste-te com alguém antes?
- Para te ser honesto, não. Recusei a primeira proposta deles para esperar por alguma coisa melhor, algo normal no mundo do futebol. E também rejeitei algumas boas propostas em Portugal, porque tinha mesmo metido na cabeça que queria sair para fazer um contrato melhor e estabilizar a minha vida financeiramente. A verdade é que o mercado estava a fechar e depois vi-me quase obrigado a aceitar a proposta do Hermannstadt. Não sabia nada do clube nem da Roménia. Fui com o Kuca, com quem já tinha jogado no Rio Ave. Encontrámos uma realidade completamente diferente da de Portugal. O clube tinha sido fundado há pouco tempo como disseste e as condições não eram as melhores. Tive de adaptar-me. O grupo era porreiro e toda a gente me recebeu bem, desde os treinadores aos jogadores. Não foi por eles que passei mal.


- Podes ser mais específico em relação às condições?
- Refiro-me a coisas mínimas que todas as equipas de futebol têm de ter e que eles não tinham, não falo de luxos. Por exemplo: eu andei a equipar-me numa cadeira igual a esta [madeira] e guardava a minha roupa nas costas dessa cadeira. A senhora da lavandaria adoeceu e não havia ninguém para tratar dos equipamentos. Andámos a treinar três dias com o equipamento sujo e suado. Não havia ginásio nem posto médico. Se alguém se lesionasse tinha de ser tratado numa clínica que ficava a meia hora do estádio. Era uma diferença enorme. Não vou dizer que sofri ou que me bateram, mas chegava a casa e pensava ‘onde é que me vim meter?’


- E a nível social correu bem? Como era a cidade?
- A cidade é bonita, mas muito pequena. Numa semana conheci tudo. Claro que Bucareste, a capital, é diferente. Eu fazia uma vida de treino-casa. De vez em quando a malta lá se juntava para ir jantar fora, mas tirando isso estava sempre em casa. O nível de vida era barato. Para tu veres, nem precisei de alugar carro: ou ia para o treino com os meus colegas que viviam no mesmo prédio ou andava de táxi. Fazer 20 quilómetros custava dois ou três euros.  


- Os romenos têm algum hábito que tenha ficado na memória?
- Olha, são um bocado avariados da cabeça [risos]. Nos jogos fora, íamos para estágio e eu estranhava haver garrafas de vinho na mesa dos jogadores. Eles bebiam e bebiam bem e olhavam de lado se não o fizesses. Eu perguntava-me como era possível beberem álcool antes de um jogo. Eu sei que não mata ninguém, mas não estamos habituados a isso. Quando ganhávamos, parecia que tínhamos ganho a Champions League. O autocarro parava logo na primeira bomba de gasolina e os jogadores saíam para comprar grades de cerveja e iam o caminho todo a beber. Nessas semanas era uma festa! A seguir ao treino, abriam uma cerveja e os treinadores bebiam com os jogadores, era tudo na boa. Mas a verdade é que nos jogos corriam como cavalos. Se eu bebesse como eles chegava ao jogo e rasgava-me todo. Era uma mentalidade desportiva muito diferente da nossa.


- Mas corriam à toa ou havia qualidade na equipa?
- Na minha equipa, havia jogadores inteligentes. Todos corriam muito, alguns à toa, é verdade, mas a maior parte tinha qualidade. Eu até cheguei a recomendar alguns nomes por achar que podiam ser interessantes para uma equipa ou outra daqui.

 

- E como é que lidaste com as saudades de casa?
- Foi difícil, porque eu não sou casado nem tenho namorada. Passava muito tempo sozinho em casa. Sou muito ligado à família e quando eles me mandavam vídeos dos convívios eu ficava desanimado. Batia mesmo a saudade até de ir a uma simples esplanada com os meus amigos. E a partir de janeiro ainda foi pior, porque os colegas com quem me dava melhor saíram. O meu inglês não é bom e foi complicado.  


- Alguma vez pensaste em abandonar o barco?
- Não. Sou um homem de palavra e quis cumprir o contrato até ao fim. Eles tinham salários em atraso e eu até podia ter rescindido, mas deram-me a palavra que iam pagar e eu decidi aguentar. Saí da Roménia com eles a deverem-me, deixaram de me atender o telefone e tive de meter um processo na FIFA. Não gosto de fazer essas coisas, mas teve de ser. Demorou algum tempo, mas recebi tudo, graças a Deus.


- Depois dessa época seguem-se meses de desemprego. Foi um balde de água fria - depois de 67 jogos ao serviço do FC Porto B e de mais de uma centena de jogos na I Liga - chegar ao teu país e nada aparecer?
- Foi muito difícil. No final da época, quando ainda estava na Roménia, comecei a receber chamadas de umas equipas da I Liga a perguntar como estava a minha situação. Não  garantiram contratar-me, mas uma delas deu-me quase a certeza. Fiquei mesmo contente, porque era uma equipa que gostava muito. A conversa foi do género: ‘Vamos tratar de resolver algumas rescisões, mas queremos-te muito aqui, por isso, não fales com nenhum clube, porque contamos contigo’. Isso deu-me um ânimo muito grande para acabar o ano na Roménia. Mas as coisas não avançaram… Por causa dessa chamada fui recusando outras equipas, o tal recusar que não se deve fazer no futebol. Os plantéis começaram a fechar-se e acabei desempregado. Não vou dizer que pensei abandonar o futebol, mas tive dias muito complicados. Senti-me revoltado, porque passei um ano fora e parecia que tudo o que tinha feito tinha sido apagado. Não sei se teve a ver com a idade, estava nos trinta e em Portugal liga-se muito a isso, ou por ter tido algumas lesões anteriormente ou por ter estado na Roménia. As pessoas esqueceram-se do meu nome até que em fevereiro apareceu o Arouca. Mentiria se dissesse que aceitei logo, porque era CNS. É um campeonato que respeito muito, mas tinha outras ambições. Mas falei com a minha família e pensei: ‘Bora lá’. Estava farto de estar em casa e acordar todos os dias para treinar sozinho. Abracei o projeto do Arouca e ainda bem. Passado um ano e meio estou na I Liga. Foram duas subidas consecutivas e foi brutal. Tive a sorte que já não tinha há algum tempo.


- E quem é que aparece nesses momentos difíceis?
- Muitos desapareceram nessa fase e eu não estava à espera. Os meus estiveram sempre lá: os pais, a irmã e os primos. Foram muito importantes nessa fase e deram-me a força que precisei. Às vezes até a mais… Estavam sempre a insistir para ir jantar lá a casa e a dar-me esperança que tudo ia melhorar. E acho que até sofreram mais do que eu. É difícil para um pai ou mãe ver um filho desempregado, sobretudo no mundo do futebol que é uma carreira curta e complicada. São esses que quero manter perto de mim. Os que choraram comigo são os mesmos que festejaram comigo o regresso à I Liga.


- Quem te segue nas redes sociais percebe essa união familiar. Sentes que é uma bênção?
- Sem dúvida! Agradeço muito, sobretudo aos meus pilares: o meu pai, mãe e irmã. E depois tenho mais cinco ou seis pessoas que fazem parte desse núcleo. Eu venho de uma família de feirantes e em pequeno ia com os meus pais para as feiras. Havia sempre alguém que tomava conta dos mais novos e criámos uma união muito grande. Todos os anos tentamos passar uns dias de férias juntos. Não vou dizer que é tudo perfeito, porque há chatices em todas as famílias, mas como somos tão unidos resolve-se tudo rapidamente. Tenho muito orgulho na minha família e gosto de os mostrar nas redes sociais, porque nem toda a gente tem essa sorte.


- A tua irmã será sempre a miss Lousada [risos]?
- Claro! Ela é linda e maravilhosa. Herdou a beleza da minha mãe e eu tenho pena de ter ficado com os traços do meu pai [risos]. Queria ter ficado com os olhos azuis dele, mas levei com o nariz grande [risos]. Mas também fiquei com muita coisa boa dele: a alegria, a boa disposição e o saber dançar.


- E o que é a bagaçada que muitos colegas comentam nas tuas fotos do Instagram [risos]?
- Eu agora estou numa fase diferente da minha vida, ando mais calmo. Sendo jovem, solteiro e a jogar na I Liga era normal que aparecessem miúdas a mandar mensagens e a querer ir tomar um café ou jantar. E a bagaçada é o dares bola, marcares o tal almoço ou jantar. Por acaso é uma palavra que usamos muito no futebol, mas eu já estou fora disso. Namorei durante cinco anos quando era mais miúdo e quando acabei a relação tive uma fase de loucura, mas agora estou calmo. Estou à espera que apareça a mulher certa para assentar, o meu maior sonho é ser pai.


- Podes aproveitar para fazer um anúncio [risos]...
- Acho que me fizeram um bruxedo [risos]. Há mulheres interessantes, mas depois falta sempre alguma coisa. Quero uma relação para a vida e não para postar nas redes sociais e dizer que tenho alguém. Mas acredito que ainda vou a tempo de encontrar a pessoa certa e de ser pai. Quero muito dar um netinho aos meus pais. Como namorei cinco anos e vivi com essa pessoa, pensei que seria o próximo passo. Mas acabei a relação por motivos normais, desgaste, e desde então não encontrei a mulher ideal.


- Que te vês a fazer no pós-futebol?
- Gostava de ficar ligado ao futebol e inscrevi-me num curso de treinadores, mas quando passou a ser obrigatório ser presencial deixei em stand-by, porque queria estar focado na subida. Não quer dizer que vá ser treinador, já pensei em ser agente ou diretor. Mas se não der farei outra coisa. A minha família é das feiras, agora tem lojas, se tiver de trabalhar nessa área vou e não há problema. Tenho dois braços e duas pernas.


- A nova vaga de treinadores jovens dá uma motivação extra para se seguir a área?
- Isso motiva-nos muito. Esta nova fornada vem com ideias muito interessantes e futebol muito bonito. Um treinador que já jogou tem outro toque com os jogadores e isso é muito importante. Além de seres bom treinador, tens de ser um ser humano fantástico e saber gerir o plantel. Quem tiver esse dom está mais perto do sucesso. Isso notou-se esta época no discurso do Rúben Amorim. Também aprendi muito esta época com o mister Armando.


- Já conhecias o Armando Evangelista?
- Não. Quando assinou, tentei informar-me com alguns colegas que já tinham sido treinados por ele. É um ser humano incrível e um treinador fantástico. E não estou a puxar o saco, a verdade é que é gente boa. O melhor exemplo que posso dar é: mesmo que eu não jogasse, ia dar a vida por ele e ia gostar dele na mesma. Se o jogador tem algum problema ou descansou mal, ele dá a liberdade de ir para casa. Tem esse dom de criar proximidade e de ter todo o plantel unido e motivado.


- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?
- A minha estreia na I Liga ao serviço do Boavista, em 2007. Foi contra a Naval e quem me lançou foi o mister Jaime Pacheco.
 

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