A lista (artigo de José Antunes de Sousa, 100)

Espaço Universidade 10-06-2021 14:49
Por José Antunes de Sousa

Ao princípio, parecia tratar-se de uma decisão ditada exclusivamente pelas regras da segurança sanitária: embora a final se disputasse entre duas equipas inglesas e fosse desejo de todos os respectivos adeptos que ela se realizasse em território britânico, os alegados riscos de contágio que um evento desta dimensão comportaria superavam, em muito, o orgulho nacional e a paixão dos seguidores das equipas em questão - por isso, o Governo, com Boris Johnson em destaque, declinou o convite com tanto de honroso quanto de armadilhado.
 

A talhe de foice, seja-me permitido anotar uma verificação de significativo alcance político e que a exótica figura do Primeiro-ministro favorece:

Boris Johnson quer para o seu país, como, de resto, o vêm confirmando sucessivos factos decorrentes do Brexit, um estatuto de desalinhamento político-comercial, como tão sugestivamente o sugerem os seus cabelos cuidadosamente mantidos em provocador desalinho.
 

Neste contexto de egolatria nacional, nada espanta a cada vez mais notória deriva proteccionista - e a final do Dragão veio confirmá-lo de forma brutal e chocante.
 

Desde logo, se os nossos entusiasmados adeptos (afinal, os hooligans continuam mais vivos do que se pensa) querem divertir-se a partir esplanadas, as da Ribeira, na cidade do Porto, servem na perfeição tão primária pulsão: uns bons copos de cerveja nas margens do Douro ( que curiosamente o antigo Primeiro-ministro John Major tanto aprecia e que, ao contrário do actual, cultiva um irrepreensível penteado) e uns bons pontapés naquela fieira de cadeiras que a boa gente do norte tão diligente e hospitaleiramente ali colocara. E foi o que se viu: vândalos aos magotes, espalhando caos e destruição ... mas que seja lá fora, que o território britânico é espaço de muito respeitinho.
 

Só que, aos olhos dos responsáveis da Ilha, não podia haver melhor escolha para palco da grande final: Portugal, sempre dócil e de brandos costumes, oferecia um pretexto perfeito para mais uma medida descaradamente proteccionista: Que foram detectados três casos positivos de covid entre os adeptos regressados ao Reino Unido? Convocam-se todos os miríficos especialistas do Reino de Sua Majestade para, do alto da sua presunção, confirmarem a patriótica necessidade de retirar Portugal, de cujos encantos se diziam historicamente enamorados, da lista verde, colocando-o na outra, a lista negra, a dos destinos, na prática, vedados aos cidadãos britânicos:  querem gastar dinheiro? Que o gastem cá dentro. E eis uma multidão de gente loura e louca em alvoroçada debandada, empurrada pelo aperto do prazo e deixando para trás os bares de Albufeira e os restaurantes de Almancil.
 

E, a ilustrar este golpe, este truque político do desvairado Johnson, está o estranho e inexplicável facto de destinos, quase completamente limpos no plano epidemiológico, como são os casos de Malta e Maiorca, constarem também da lista negra, cirurgicamente elaborada pelo governo de Londres.
 

Mas há uma secreta mas mal disfarçada razão para esta medida discriminatória: Portugal, Malta e Maiorca - os três territórios fazem parte da UE. E o egotismo político de Londres não permite que cidadãos seus contribuam objectivamente para a prosperidade de um espaço, do qual o Reino Unido saiu com raivoso estrondo.
 

E eis, amigos, como, uma vez mais, os políticos se aproveitam do fascínio do futebol para desígnios de projecção de poder.
 

E este foi um episódio mais do geofutebol.
 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias