Manuel Sérgio em José Maria Pedroto (artigo de José Neto, 128)

Espaço Universidade 02-06-2021 23:03
Por José Neto

Numa matéria que me foi confiada, encontrei com a data de 23 de janeiro de 1984, uma carta do Mestre José Maria Pedroto ao Prof. Manuel Sérgio, que assim começa:

 

 “Caro PROFESSOR

 É a primeira vez na vida que, conscientemente, escrevo esta palavra – PROFESSOR - com letras maiúsculas. Faço-o, não para o homenagear, pois o meu querido amigo não precisa de homenagens, mas sim para lhe dizer da minha cada vez maior admiração, pelo homem que ensina permanentemente, com a palavra oral ou escrita e com uma simplicidade clara e transparente, própria, penso eu, daqueles predestinados que têm uma visão autêntica do mundo cultural, que não me atrevo a classificar”,

 

E a carta continuava em tom elogioso, em relação ao Prof. Manuel Sérgio, embora terminasse com um sentimento de dúvida sobre o mal (fatal) que o atormentava:

 “Agradeço-lhe, do coração, as palavras de coragem e os augúrios de vitória. Desta vez o adversário é traiçoeiro, insidioso e implacável. No entanto, neste campo, a investigação é contínua e milhares de pessoas trabalham cientificamente, para resolver os problemas. Infelizmente tenho que ir a Londres, para beneficiar dos tratamentos considerados mais eficazes …  Sou português…”.

 

 Tive a sorte de beneficiar das lições de Mestre Pedroto, durante 4 anos. E tive também a sorte de conhecer o Prof. Manuel Sérgio, através de José Maria Pedroto que certo dia me perguntou: “Você já leu o Manuel Sérgio?”. Fiquei sem saber o que dizer-lhe e ele continuou: “Deve lê-lo. Ele diz diferente dos outros”.

 

 Com a criação da “Cátedra Manuel Sérgio”, na Universidade Católica Portuguesa, após um trabalho de investigação, liderado pelos Professores José Tolentino Mendonça (hoje, Cardeal da Igreja Católica e um dos grandes escritores portugueses) e Alfredo Teixeira, que diz bem do rigor com que se trabalha naquela Universidade - julgo ser meu dever dar a conhecer esta carta, que se encontra na posse do seu destinatário, e lembrar o estudo que Mestre Pedroto fez sobre as ideias do Prof. Manuel Sérgio.

 

 Até que um dia, telefonicamente, estava eu em Lisboa com a equipa principal do F.C.Porto, pedi ao Prof. Manuel Sérgio uma entrevista, já que era professor de Educação Física e sentia necessidade de conhecer as suas ideias. A resposta deixou-me bastante confuso: “Quer falar comigo sobre futebol? Então não vale a pena perder tempo comigo. É que eu não sei nada de futebol. Há alguns anos que venho dizendo que quem não pratica não sabe. Ora, eu nunca pratiquei futebol. Portanto, de futebol sou um ignorante”. Mas eu insisti: “Se o Professor é assim tão ignorante, por que será que o Sr. Pedroto gosta tanto de falar consigo?”. O Professor calou-se e, nesse mesmo dia, jantámos juntos, com o aplauso amigo do Sr. Pedroto e do meu querido João Mota, amigo também de Manuel Sérgio.

 

 Da conversa que tivemos em Lisboa, o Professor Manuel Sérgio e eu, tenho guardadas na memória o seguinte: o conceito de corte epistemológico, que não conhecia, e a ideia de que o desporto só como ciência humana, deveria estudar-se, revendo a teoria e a metodologia do treino libertando-o da estreiteza de demasiadas cargas físicas, para situa-lo ao nível da totalidade do humano, concluíndo que o treino do futebol, que ele observava no Estádio do Restelo, das equipas do seu Clube do coração, o Belenenses, estava errado, com toda a certeza. Dias depois, o Sr. Pedroto questionou-me: “Que tal? Gostou da conversa com o Manuel Sérgio?”. E eu: “Fiquei abismado, mas ele continua a dizer que não sabe nada de futebol”. E o Sr. Pedroto: “São os que dizem que nada sabem os que mais sabem. Normalmente, os que julgam que sabem muito, não sabem nada”. E ainda me disse: “Eu considero o Professor Manuel Sérgio um profeta. Daqui a uns anos, ainda hão - de dar-lhe razão”. Profeta foi também o Sr. Pedroto. O que o Professor Manuel Sérgio defendia, é hoje fundamental no conceito da preparação para o rendimento e do rendimento para o resultado nesta constatação de que não há apenas a educação de físicos, mas sim de educação de pessoas no movimento intencional de transcendência. Ele repetia “não há preparação de bestas esplêndidas, mas do corpo em ato onde emerge a carne, o sangue, o desejo, o prazer, a paixão, a rebeldia, as emoções, o sentimento – tudo isto visando a transcendência ou a superação”.

 

A doutrina do Professor Doutor Manuel Sérgio era para a época e para alguns peregrinos da verdade contra os arautos do azedume um corte radical, de tal forma que o Sr. Pedroto acabou por me confessar que estávamos perante um vaticinador, tal era também a visão tão adiantada no tempo em  que o Mestre não se cansava em me repetir : “olha para o jogo, que ele te dirá como deves treinar … e olha para o treino que ele te diz como deves jogar”. Daí ter sido criada a área correspondente à Observação e Análise do Jogo em Portugal (a título de introdução no Vitória S.C. em 1981/82 e de forma mais estruturada no F. C. Porto imediatamente a seguir com a liderança do Sr. Pedroto) … e o Professor Manuel Sérgio completava: “olha para a vida que ela te dirá como deves viver … ou diz como vives e eu te direi quem és”. Um e outro nesta ambivalência da teoria com a prática: “toda a teoria tem de ter uma prática que aplique e toda a prática tem de ter uma teoria que a sustente” ou ainda “quem teoriza e não pratica, não sabe; quem pratica   e não teoriza, repete”.

          

Antes de enunciar as teses do Professor Manuel Sérgio, quero referir o espanto que lhe causava a fidelidade de Pedroto à amizade e confiança do presidente Jorge Nuno Pinto da Costa. “Estive entre os que imediatamente acreditaram que Pinto da Costa e José Maria Pedroto estavam a refundar o Futebol Clube do Porto. Só um ceguinho não via. Aliás, o Sr. Pinto da Costa sabe-o bem” diz-me repetidas vezes o Prof. Manuel Sérgio. Mas passo, imediatamente, às teses inovadoras, pelo menos em língua portuguesa, de Manuel Sérgio: a partir de 1974, e portanto há 47 anos, Manuel Sérgio defende que o futebol e o desporto em geral só como ciência humana devem estudar-se e praticar-se, pois que “não há jogos, há pessoas que jogam” e assim o futebol é mais do que futebol; o treinador deve ter também em conta que não basta o futebol, num treino de futebol; refere ainda que o treinador desportivo e o professor de Educação Física deverão ser verdadeiros “especialistas em humanidades”, pois que são pessoas os praticantes desportivos; que, sob a liderança do treinador, o trabalho, num departamento de futebol, deve ser interdisciplinar, com especialistas de diversas áreas e a história de um departamento de futebol, ou de qualquer outra modalidade, deve ser uma história holística, apontando para o que entendo mais cedo ou mais tarde será uma realidade nos clubes, muito especialmente naqueles onde o êxito terá de suportar um estigma de causalidade – a criação dum gabinete de inteligência competitiva… com Mestre Pedroto e Professor Doutor Manuel Sérgio numa cultura de memória que  o peso da distância jamais se deixará esmorecer.

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário/ISMAI.

 

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