O vulcão das bancadas (artigo de José Antunes de Sousa, 99)

Espaço Universidade 22:22
Por José Antunes de Sousa

Na sequência da final da Champions League, aliás uma comovente gentileza das nossas reverenciais autoridades para com a UEFA, eis que desabou toda uma torrente de críticas: que é inaceitável a implícita “capitis diminutio “ objectivamente atribuída aos adeptos portugueses, quando comparados com os adeptos ingleses, flagrante e infeliz exemplo de desordeiros da bola; que os desacatos nas ruas da Invicta podiam e deviam ter sido prevenidos e evitados, confinando os excitados súbditos de Sua Majestade a uma bolha sanitária; que Portugal é, lá fora, motivo de galhofa por conta da mão firme com os submissos portugueses e mãos largas em relação aos fregueses britânicos de que espera sempre a revitalização do sector turístico...e muitas críticas mais - a ponto de haver inclusive um responsável máximo de um clube e com históricas culpas no cartório da violência no futebol que exige a imediata assunção das consequências políticas, com a expressa sugestão de demissão do próprio Primeiro-Ministro.
 

Sem deixar de concordar, até à última vírgula, com o coro de vozes indignadas com o comportamento farisaico dos nossos políticos - solícito e servil em relação aos ingleses e desdenhoso e prepotente em relação aos cidadãos portugueses - , um ponto há que me faz conceder uma pitada de tolerância e até de compreensão às autoridades sanitárias portuguesas quando persistem no notório medo de autorizar o público nas bancadas dos estádios.
 

É que se, por um lado, não há qualquer dúvida de que a matriz genética do futebol é essencialmente multitudinária e, nesse sentido, persistir na ausência de público é lavrar irremediavelmente a sentença de morte deste electrizante espectáculo, por outro lado, ninguém, à luz do critério mínimo e elementar da sensatez, pode deixar de reconhecer a singularidade da tipologia psico-emocional do adepto do futebol: na bancada, que é o território favorável à “unidade mental “ (Gustave Le Bon), ele passa por sucessivos e paradoxais picos de frenética emotividade, como se de um processo de transfiguração se tratasse - com um pormenor decisivo: não é algo que aconteça a um ou outro e mui excepcionalmente. Não: acontece a todos e sempre.
 

Um cavalheiro que, à tarde vai ao futebol e à noite ao cinema, sendo, no plano protocolar, a mesma pessoa, a verdade é que exibe um comportamento completamente diferente numa e noutra situação.
 

Na bancada, ele vai-se transfigurando ao ritmo da colectiva ventania, enquanto na sala de cinema se contenta com o formalismo contido de uma mundana frivolidade de circunstância.
 

E eis-nos chegados ao que poderíamos designar como a aporia moderna do futebol:
 

Se é verdade que a reiterada ausência de público nega a natureza mesma deste jogo e que é, como vimos, de índole multitudinária, não é menos verdade que,considerando o clima passional em que o espectáculo decorre, as reticências das autoridades sanitárias parecem encontrar aí o limiar mínimo de aceitabilidade.
 

O problema está em que não logramos superar e muito menos ignorar o grito de socorro que o mundo do futebol não se cansa de lançar aos responsáveis políticos.
 

Só uma miraculosa convergência de sensatez (de todos) e de coragem (sobretudo dos decisores políticos) poderá adiar o”requiem “ que, silenciosamente, se entoa nos nossos estádios.
 

Porque o espectáculo faz-se para o público, mas é com o público que ele sobretudo se faz.


 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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