A Brincadeira (artigo de José Augusto Santos, 19)

Espaço Universidade 18-05-2021 21:03
Por José Augusto Santos

Peguei, emprestado do Milan Kundera, o título para esta crónica já que evidencia claramente a intenção que me moveu ao fazer a “brincadeira” que abaixo vos apresento. Espero que gozem com o humor da situação e os participantes que relembrem um dos momentos em que ainda nos olhávamos uns aos outros como âncoras de afirmação e não com o aquele olhar “assassino” (salvo seja) em que a procura do nosso lugar ao sol quase, digo quase, nos transformava em inimigos.

 

Já tanto tempo passou desde esse tempo primevo, mas ele ainda perdura indelével na minha memória e na minha emoção. Passo com pequenas correções e acrescentos o que escrevi no meu diário em 1 de janeiro de 1993. O jogo aconteceu em dezembro do ano anterior. Dedico esta aventura memorialística ao meu querido colega e amigo José Virgílio que nos deixou precocemente há pouco tempo. Assim reza o diário:

 

No recreio do Liceu Rodrigues de Freitas (onde se situava o famoso Barracão, génese decrépita da nossa faculdade) teve lugar mais um dos jogos de futebol entre os professores da faculdade e aconteceu um dos momentos mais singulares das nossas vidas desportivas. Contra uma equipa que já nos tinha ganho várias vezes conseguimos um resultado (10-0) que mais do que a diferença desportiva entre as equipas corresponde ao sortilégio de que é fértil o desporto em geral e o futebol em particular. A dimensão aleatória do ato desportivo é particularmente nítida no futebol, fazendo deste um forte catalisador de emoções e tensões contraditórias. Sem qualquer intenção de me gabar, já que sou muito humilde tenho de referir que fui eu quem marcou os dez golos – DEZ. Nem o Eusébio nos seus melhores dias.

 

Para comemorar o feito construí um certificado de fruição estética com que presenteei os derrotados, que desceram aos infernos dos desesperados. Aviso que o “latinório” foi retirado das páginas finais do Dicionário da Língua Portuguesa, já que eu do latim só sei dizer Ámen.

 

CERTIFICADO DE FRUIÇÃO ESTÉTICA

 

Ad incunabulis (no começo) era o caos sincrético onde a promiscuidade vingava. Todos se julgavam com o direito a ser considerados jogadores. Mas não, o jogador é um ser superlativo, um par entre os deuses que brincam com a vida e os homens. Este documento é gerado ad perpetuam rei memoriam (para perpetuar a memória do facto) para deixar em letras de ouro indeléveis o momento divino em que 5 homens vulgares de Lineu ousaram desafiar os deuses num dos jogos em que estes por vezes ocupam os seus ócios.

 

Aos 23 de Dezembro do ano 44 D.J.A. (Depois de José Augusto), depois que Zeus tradit mundum disputationibus eorum (Zeus entregou o mundo às suas disputas) os deuses do Olimpo pares cum paribus facilime congregatur (os iguais facilmente se unem) brincaram e permitiram que alguns mortais os admirassem. Multi sunt vocati, pauci vero electi (muitos são os chamados poucos os eleitos).

 

Vós conseguistes o momento fatídico de emulação com os deuses, pois omnium consensu fostes escolhidos entre 6 biliões de descendentes do Homo de Neandertal a contemplar embevecidos ed plauditum (e a aplaudir) a expressão lúdica de 5 demiurgos que post hominum memoriam (desde que há tradição) aperturam libri (abriram o livro) e elevaram a arte do jogo à superlativa qualidade de uma gesta poética e ecológica.

 

Isto conseguido suaviter in modo, fortiter in re (suave na maneira, forte na ação), apanágio dos seres superiores que metaforicamente vos sodomizaram usque ad satietatem (até à saciedade) sem utilizarem argumentum bacuninum (argumento do cacete).

 

Poética, pela dimensão onírica em que vos mergulhou. Ecológica, porque vos levou ao limiar da morte. Mas reconhecemos que lutastes unguibus et rostro (com unhas e dentes). Potius mori quam foedari (antes a morte que a desonra) foi a vossa divisa. No entanto stultorum honor inglorius (a honra dos néscios é inglória).

 

A ultima ratio (derradeiro recurso) dos fracos é perecerem espezinhados aos pés dos senhores. Pois una salus victis, nullam sperare salutem (a única salvação do vencido é não esperar nenhuma salvação) mas única e simplesmente serem lançados ad bestias (às feras).

 

Quid tu hominis es, Jorge Ventania? (Jorge Bento)

Quid tu hominis es, Júlio da Funda? (Júlio Garganta)

Quid tu hominis es, Pedro Sarnento? (Pedro Sarmento)

Quid tu hominis es, Jorge Bicicleta? (Jorge Mota)

Quid tu hominis es, Amândio Desgraça? (Amândio Graça)

 

Respondeis cada um por si ego sum qui sum (sou quem sou). Asinus inter asinum (burro entre burros). Vós sois um qui pro quo (equívoco) desportivo. Vós sois ridiculus mus (ratos ridículos) no areópago dos ludo-gatarrões. Vós sois uma rudis indigestaque moles (massa confusa e informe) sem Fusos Neuromusculares que pensa que sol lucet omnibus  (o sol nasce para todos).

 

Gostais de confraternizar entre vós. Pois é; Asinus asinum fricat (o burro coça o burro). E o vosso estado motoriamente larvar não vos permite ascender aos cumes da glória lúdica. Mas consolai-vos uns aos outros pois solatium est miseris socios habere (é uma consolação para os infelizes ter companheiros).

 

Nós rejeitamos a glória terreal, sic transit gloria mundi (a glória terrena é passageira), pois a nossa glória é divina.

 

Queixais-vos de que fomos muito duros. Acusais-nos de demonstrar tantaene animis caelestibus irae (tanta ira na alma dos deuses). Naquele momento era necessário para demulcir em vós as roupagens estultas que vos vestiam. Mas não queremos que sofreis mais. Dizemos-vos o que Cristo disse ao paralítico surge et ambula (levanta-te e caminha). Vós sois piores que paralíticos, sois marrecas mentais e motores. Sois cegos de não querer ver oculos habent et non videbunt (têm óculos, mas não vêem). Mas...

 

Não queremos perder os amigos, pois amicum perdere est damnarum maximum (perder um amigo é o maior dos prejuízos), e como amicus certus in re incerta cernitur (é na adversidade que se conhecem os amigos) não queremos o vosso desalento, ficamos satisfeitos com a vossa insanidade mental. A vossa derrota não é fruto da nossa preocupação pois aquila non capit muscas (a águia não apanha moscas), o que quer dizer que os espíritos superiores não se preocupam com ninharias.

 

Vós nascestes para escravos. Vulpes pilum mutat, non mores (o que o berço dá, só a tumba o tira). E só a morte vos salvará de tamanho opróbrio. A morte ecológica que vos limpará a merda que vos enforma, enferma e encerra.

 

Morrer por um ideal redime a própria morte, e quando o ideal é servir os próprios deuses a própria morte se justifica; dulce et decorum est pro ludens mori (é doce e honroso morrer pelo jogo) quando esse jogo é deleite dos seres referenciais que vos permitem tolerantes a coabitação.

 

Não tendes culpa da vossa insuficiência culpa vacare maximum est solatium (estar isento de culpa é uma grande consolação), mas não podemos coexistir. Sois ignorantes motores sem perspetiva do que de mal fazeis ignorantia differt ad errore (a ignorância difere do erro).

 

Deuses e néscios humanos são incompatíveis; contraria simul esse non possunt (as coisas contrárias não podem existir ao mesmo tempo). Cuique sum (a cada um o que é seu). A nós os atos de magnificência e compreensão pois sabemos que gloriae et virtutis invidia est comes (a inveja acompanha sempre a glória e a virtude).

 

A vós os érebos da vossa aselhice motora. Errámos ao vos permitir o contacto connosco, pois cum brutis non est luctandum (não se deve lutar com brutos). Mas somos deuses peculiares que seguem a divisa primum jocare deinde philosophari (primeiro jogar depois filosofar).

 

Sois humanos limitados nascidos para nos adorar.

Somos deuses que aquiescemos a viver convosco.

Sois cara deum soboles (raça querida dos deuses) com algum "pedigree" que nos lambem os pés submissos, ladrando.

Sois Epicuri de grege porcum (porcos do rebanho de Epicuro) que refocilais prazenteiros perscrutando suaves prazeres no convívio connosco. Tal não mereceis.

 

Nós somente quisemos demonstrar-vos a excelência da nossa arte, pois somos deuses-pedagogos. Vós incréus duvidastes, e pagastes no corpo e espírito o preço da vossa incredulidade. Ficastes a saber que cuilibet in arte sua perito est credendum (deve-se dar crédito ao perito na sua arte).

 

Mas bem, consumatum est (acabou-se tudo) e nós devemos regressar ao Olimpo que nos espera para novos jogos purificadores, pois o contacto convosco fez-nos mal. Mas... excerpere ex malis si quid inest boni (tomar do mal o que nele pode haver de bom) é apanágio de seres divinamente inteligentes e forsan et haec olim meminisse juvabit (talvez um dia seja agradável recordar estas coisas).

 

Nas festas em honra de Baco, e in poculis (no meio dos copos), vamos relembrar que lançamos margaritas ante porcos (pérolas a porcos) ao permitir-vos a assistência ao nosso jogo, pois a mens divinor (inspiração divina) não deve ser vivenciada por humanos incréus.

 

Se vós clamásseis miserere nobis (tende compaixão de nós) talvez aquiescêssemos a reduzir o castigo pois sabemos que sois feitos ejusdem farinae (da mesma farinha) com que são feitos os pusilânimes, isto é, cobardes motores inaptos para a verdade que só os deuses vivenciam.

 

Nós somos referenciais in spiritualibus (nas coisas espirituais). Para nós "Il juoco é cosa mentale comme il amore". Para vós é coisa de vincere aut mori (vencer ou morrer), e é nessa perspetiva existencial que tendes de viver.

O temor é o vosso estado natural. Nós somos o poder, e exercemo-lo sem tibiezas pois famulatur dominus, ubi timet quibus imperat (o amo torna-se criado desde que tema os que manda).

 

Somos deuses temerários e infalíveis.

Sois humanos receosos e falazes. Errare humanum est.

Foi um momento ímpar.

 

Cinco deuses brincando, e sobressaindo de entre eles um primus inter pares (primeiro entre iguais) de teónimo José, mais conhecido por JA, o que definiu a nova era.

 

Eu José acedi jogar com alguns deuses médios e menores levando-os à glória dos 10 - 0. Missão grandíloqua quorum pars magna fui (em que tomei grande parte) e que obnubilou a luz das estrelas decadentes que me acompanharam. Quia nominor deo? (Porque me chamo deus?) Porque dou alegria às vossas prosaicas existências com os milagres de arte e de engenho com que vos extasio.

 

Ludere me putas? (julgas que estou a gracejar), tu que me lês sem me compreender. Pensas que deliro extra modum? (além da medida)

 

Cada um de vós deve ter a humildade e o supremo desejo de entrar na arena desportiva, digladiando-se e esperando receber os favores da minha atenção, presenteando-me com as palavras que já fizeram história:

Ave JA morituri te salutant  (avé JA os que vão morrer te saúdam)

 

                               Os fautores do sonho

 

                                   José Augusto Santos (Deus Maior)

                                   José Soares (Deus Médio)

                                   António Natal (Deus Médio)

                                   Rui Garcia (Deus Médio)

                                   José Vergílio (Deus Menor)

 

 

PS. Os possuidores deste documento têm direito (Dec-Lei nº 2345/92, artº 15, parágrafo único) às seguintes prebendas:

1 - Desconto de 50% na compra de Viagra nas Farmácias (não nos supermercados)

2 - Desconto de 15% na compra da revista Maria (no caso de não possuir cartão-jovem)

3 - Direito a uma lavagem completa ao zuaque com direito a massagem digital

4 - Duas viagens Praça da Batalha-Câmara de Gaia nos autocarros Espírito Santo (em hora de ponta)

5 - Assistir a uma dissertação cultural do Cavaco Silva acerca da temática "A dimensão da Utopia em Tomás Taveira"

6 - Receber uma ilustração editada por Conceição Monteiro subordinada ao tema "Como fazer filhos?"

7 - Receber com 80% de desconto o livro de iniciação à guerrilha "Como comer os vermelhos?" de Pinto da Costa

8 - Receber grátis o estudo do Prof. Doutor Marques cujo tema "O riso e o sorriso nas relações humanas" já é best-seller esgotado

9 - Receber em fascículos o estudo com aprofundamentos do Dr. Júlio Garganta "As diatribes de Linda Lovelace"

10 - Assinar a Revista "Greese ou Cabelos ao Vento" editada em parceria pelo Prof. Doutor José Soares e Yul Breiner

 

Mas, como não há bela sem senão, só poderão ter acesso a estas regalias após exame de paciência, que consiste na leitura do tratado matemático-engenheiro "A forma místico-cibernético-convulsiva de não morrer afogado numa piscina de água quente, com o modelo de bruços coreano" do Dr. João Vaulo Pilas Boas (desculpem que me enganei).

 

 

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