O desporto: um paradoxo (artigo de Vítor Rosa, 148)

Espaço Universidade 17-05-2021 15:58
Por Vítor Rosa

O “desporto” é um termo genérico que abrange diversas atividades (de lazer, de espetáculo, de competição, de educação) e representações. Algumas dessas atividades têm raízes históricas. O desporto é um facto social total. De acordo com o sociólogo alemão Norbert Elias, o desporto é um laboratório privilegiado para se refletir sobre as relações sociais e a sua evolução.

 

O desporto impõe-se em Inglaterra a partir do século XIX. Os gentlemans para resolver os conflitos entre eles, organizam combate de boxe com os seus domésticos. Os alunos dos colégios, onde a disciplina era restrita, entusiasmam-se praticando desporto. Em França, Pierre de Coubertin e os liceus adeptos contribuem para o desenvolvimento das práticas desportivas. Os Jogos Olímpicos conheceram um grande sucesso no século XX. A televisão favoreceu o desporto-espetáculo.

 

A análise sobre o desporto carateriza-se por um paradoxo: ela está omnipresente nos debates públicos, mas surge pouco desenvolvida no âmbito dos sociólogos. O desporto surge como uma instituição mundializada. Todavia, é mais julgado do que estudado. O discurso mobilizado é, essencialmente, partidário. Muitos militantes pensam que ele é um meio cultural; outros, pensam que é o “ópio do povo”. É necessária uma sociologia do desporto, ultrapassando algumas visões limitadas sobre o que é o desporto e as suas especificidades.

 

Numa lógica proposta pelo francês Pierre Parlebas, o desporto tem uma pertinência motriz, para ir em direção de uma institucionalização, passando pela codificação competitiva. E aqui surgem julgamentos contraditórios, uns positivos e outros negativos. A única forma de escapar ao paradoxo, é fazer com que a sociologia não seja um perpétuo recomeço. A sua fragilidade conta com a presença de obstáculos epistemológicos. A evidência de que o desporto é uma atividade simples, “natural”, uma forma de expressão instintiva. É também vítima de evidências básicas, isto é, de que um sistema de pensamento preestabelecido. É preciso estudar a prática desportiva segundo os gostos dos praticantes, a pertença social, a dimensão cultural e simbólica, os valores, etc.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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