Associativismo Desportivo: para quando a regionalização do Desporto Federado? (artigo de Eduardo Monteiro, 68)

Espaço Universidade 17-05-2021 00:13
Por Eduardo Monteiro

Através do Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo lançado pela Direcção Geral dos Desportos, em 1975, então liderada pelo Prof. Melo Carvalho, foi possível levar a todos os distritos do país as principais modalidades desportivas colectivas e individuais. Assim, nasceram novos praticantes e novos clubes desportivos com realce para os distritos do interior. Em consequência, a necessidade de organização de quadros competitivos e outras atividades técnicas e logísticas de suporte provocadas pelos novos clubes deu origem à criação de Associações Distritais de modalidades desportivas que, com maior ou menor dificuldade, responderam às necessidades mais prementes de um Sistema Desportivo que estava completamente enferrujado. Para além das questões de ordem ideológica, tratou-se de um “abanão desportivo” num sistema que, para além da alienação da bola que funcionava como “cortina de fumo” do poder, vivia abaixo de um limiar mínimo de desenvolvimento desportivo de que o País necessitava.

 

Entretanto, estão a passar-se quase cinquenta anos pelo que o País e o desporto mudaram completamente. No entanto, a estrutura desencadeada em meados dos anos setenta pouco se alterou e aquilo que se alterou só serviu para estabelecer confusão, descrédito e pouca transparência num sistema que já não responde minimamente às necessidades do País.

 

A falta de investimento no interior do País conduziu ao desemprego e ao agravamento das condições económicas e de vida das populações originando a fuga das pessoas para os grandes centros.  Ora, isto teve repercussões terríveis no desporto que começou a ficar cada vez mais desiquilibrado e debilitado devido ao isolamento das pequenas associações e à enorme dificuldade em encontrar dirigentes locais, regionais e nacionais, na esfera pública e privada capazes de alterar a linha de tendência a caminho da entropia.

 

Para além da enorme evolução dos novos sistemas de informação e de comunicação que alteraram a dinâmica superestrutural dos sistemas sociais a organização do desporto nacional continua a funcionar na lógica de meados dos anos setenta quando ninguém ou quase ninguém sabia o que era um computador pessoal, um telemóvel, um satélite geoestacionário ou, entre outras tecnologias entretanto surgidas, o sistema de comunicação zoom.

 

Hoje a grande maioria das associações distritais são centro de desperdício de recursos sem qualquer utilidade uma vez que não possuem massa critica em matéria de clubes e praticantes que as justifiquem. A evolução das novas tecnologias de comunicação permite aos clubes um relacionamento directo e eficaz com a estrutura federativa dispensando o intermediário associativo.

 

Muitas associações na relação custo benefício são, hoje, pesos mortos que só prejudicam o desenvolvimento do desporto pelo que a sua integração numa estrutura regional desfaz o isolamento, permite a união de todos os protagonistas interessados na evolução da sua modalidade, obriga a uma melhor utilização dos meios disponíveis e acelera o desenvolvimento do associativismo desportivo à escala regional.

 

O problema é que muitos Presidentes de Federações Desportivas fogem de um processo de regionalização das respetivas modalidades uma vez que passam a estar sujeitos a um mais eficiente e eficaz, sistema de controlo, dificulta-lhes a eternização no poder, obriga-os a processos de trabalho mais competentes e estabelece sistemas de controlo e avaliação a que não estão habituados.

 

No Basquetebol a Associação de Faro passou a ser a do Algarve e as três associações do Alentejo (Beja, Évora e Portalegre) juntaram-se e deram lugar à Associação do Alentejo. Estas mudanças originaram uma considerável melhoria dos quadros competitivos regionais, de todos os escalões etários, e um melhor aproveitamento dos meios disponíveis localmente. Foi necessária alguma coragem para se tomarem estas decisões. Esperava-se que outras associações não só do basquetebol bem como de outras modalidades seguissem o exemplo, mas, infelizmente, rivalidades regionais impedem o progresso do associativismo prevalecendo algum bairrismo inaceitável nos dias de hoje.

 

Actualmente, a gestão da grande maioria das associações assenta no absoluto voluntarismo dos dirigentes que são apoiadas em regime de “part-time” e de acumulação por directores técnicos e quejandos que, regra geral, exercem as suas funções em horários das suas conveniências e não das conveniências das modalidades que lhes pagam o vencimento. Acresce que, devido ao poder que têm e às relações que estabelecem, por via do amiguismo são portadores de um poder que não é legitimado nem por critérios de ordem democrática decorrentes da lei geral e dos estatutos das organizações, nem por critérios de competência devidamente aferida e controlada. Situações existem em que, no respeito pela mais transparente ordem democrática, são eles que controlam os processos eleitorais que até chegam a estar contaminados por via partidária!

 

É de fundamental importância realizar um levantamento claro e descomprometido da situação a fim de se encontrarem as soluções que respondam à realidade do País e aos interesses dos portugueses. Nestes termos é necessário e urgente fazer uma simulação de um cenário de desenvolvimento do desporto para o País desagregado por modalidades desportivas, a partir das regiões continentais (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve) e das duas Regiões Autónomas (Açores e Madeira) tendo em atenção a população residente por grupos etários, as condições económicas e sociais das populações, os estabelecimentos do ensino básico e secundário e respetivos alunos, a dinâmica do tecido empresarial, os clubes e respetivas modalidades, os praticantes por sexo e escalão etário, entre outros aspetos.

 

Se tiverem dúvidas olhem para o lado de Espanha que, há décadas organizou um processo de desenvolvimento do desporto centrado nas regiões, na sua economia e instituições, nos clubes e nas famílias. Em consequência desde os Jogos Olímpicos de Barcelona (1992), tanto na base como na pirâmide de desenvolvimento, tem vindo a acontecer uma melhoria significativa do Nível Desportivo do desporto espanhol

 

Por cá, continuamos a ignorar estes exemplos e a insistir em processos totalmente ultrapassadas que conduziram o desporto nacional à situação nada prestigiante em que se encontra. Caminhamos na cauda da Europa no acesso ao desporto, temos a maior taxa de descarte da prática desportiva nos sub-18 e apresentamos a pior percentagem de prática desportiva entre os países da União Europeia. Mas o pior é que entre entidades públicas e privadas ninguém parece querer alterar.

 

Está-se à espera de quê?

 

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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