Festa e vassalagem (artigo de José Antunes de Sousa, 97)

Espaço Universidade 16-05-2021 18:48
Por José Antunes de Sousa

Como em “As Bacantes” de Eurípides de Salamina (mas que viveu a maior parte dos seus dias em. Atenas), os seguidores de Dioniso, fazendo até jus ao nome, entregaram-se aos mais vertiginosos excessos, inundando, de voluptuosos eflúvios, avenidas, ruelas e becos da velha Olisippo cuja fundação está associada a Ulisses, o lendário herói grego, e pondo em polvorosa os mais recônditos e pacatos recantos deste nosso ensonado Portugal.

 

Nada, porém, de que se não estivesse à espera - que o jejum e a míngua de festa prolongados não desabituam dela, mas acicatam-na - e eis como a festa vira festança, que é um forte motivo de júbilo acelerado e potenciado pela hubris, pelo excesso.

 

Sim, numa breve digressão semântica, facilmente detectaremos nuances várias no próprio facto de festejar: festa, amparada pelos ritos litúrgicos e, por isso, mais devota e contida, mas que, uma vez franqueada a porta da igreja, rapidamente se converte em arraial: é a versão profano-religiosa que as boas gentes do Minho tão bem conhecem - as famosas romarias.

 

Há a festa de cariz familiar - baptizados, casamentos, aniversários - e que fica a meio caminho entre  Baco e Dioniso - às vezes vira mesmo festança, termo que sugere sempre o resvalanço para o excesso e para a sensorial embriaguez.

 

E, falando de festas, todos sabemos do teor orgiástico de muitas delas.: o Império Romano, por exemplo, implodiu por via da dissolução e luxúria dos seus promíscuos banquetes.

 

E temos os festejos e, de entre estes, os  associados às conquistas do clube do coração, em que se misturam, em coktail explosivo, a mais avassaladora paixão e todo um tropel de emoções, muita cerveja e sabe-se lá que coisas mais . Vejamos:

 

O povo português tem uma característica muito particular: adora encostar-se - seja ao pai para a mesada, seja ao tio rico do Brasil, seja ao chefe das finanças, seja ao presidente da câmara.

 

Mas, a essa, uma outra característica se junta: é um povo muito sensorial. Já é isso bem notório num festival de verão, mas é-o muito mais na louca celebração de um título nacional, do qual já muita gente parecia ter desesperado.

 

A emoção rasa, gerada pelo êxito desportivo, é isso mesmo: um unificador social - apesar de se identificarem apenas pelos cachecóis e pelos berros, caem, em êxtase nos braços uns dos outros, num contagiante processo de embriaguez colectiva, isto é, de um estado de inconsciência.

 

Que estamos em contexto de pandemia? Isso é pura pantominice, porque, para aquela gente, nada é mais importante do que essa descomunal descarga catártica de tanta desilusão finalmente vingada e exorcizada.

 

E que ninguém ouse comparar o público do futebol com o dos espectáculos culturais: nestes, os espectadores não desatam aos abraços e aos beijos - batem palmas. Daí, a clara distinção entre a exposição pandémica num jogo de futebol e numa ordeira sessão teatral, por exemplo.

 

Que, afinal, não houve surto nenhum? Mas, a ser verdade, deve-se isso não à boa conduta do povo, mas à semana19: o coronavírus não é do Sporting!

Apesar, de continuarem os estádios às moscas, por pura birra doméstica, eis que esses nossos políticos, serventuários da lendária bazooka, e respaldados na proverbial hospitalidade das nossas gentes, acenaram sonoramente com as chaves do estádio do Dragão para acolher 12000 súbditos de Sua Majestade na final da Champions entre duas equipas inglesas.

 

Pois é: a UEFA raciocinou bem: se os reformados do Reino Unido enchem os cofres do pobre Portugal, lotando os hotéis do Algarve, é de esperar a solicita e pronta resposta de quem teima em misturar aliança com vassalagem.

 

É a cantiga do costume: mostrar boa cara para os de fora, enquanto se avança de dedo em riste para os de dentro - e, assim, se promove a flácida imagem do bom aluno.

 

21 de maio de 2021

 

José Antunes de Sousa

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias

Mundos