O sorriso do capitão (artigo de José Antunes de Sousa, 95)

Espaço Universidade 06-05-2021 08:38
Por José Antunes de Sousa

A verdade é que aquilo esteve mesmo feio na cidade croata de Zadar (utilizando as mesmas letras, embora diferentemente dispostas, diríamos que aquilo estava a dar para o azar), mas é igualmente verdade que todos conhecemos a famosa máxima epicuriana: “ é às tempestades que os grandes navegadores devem a sua fama”. E, a dada altura, adivinhava-se grossa tormenta no Adriático - a descrença ameaçava paralisar os romeiros do céu.

 

Mas só vislumbro uma explicação para a heróica vitória (a fazer lembrar a Quarta Cruzada que as muralhas da histórica cidade tão flagrantemente testemunham) na renhida final da UEFA Futsal Champions League contra o Barcelona: os jogadores do Sporting Clube de Portugal não tiveram medo de perder!

 

No regresso à quadra, depois de revigorante e inspirador intervalo, reparei no ar limpo e resoluto dos jogadores leoninos, que, exibindo o garbo de um pelotão de fuzileiros, marchavam ao encontro da definitiva e gloriosa peleja: eles tinham acabado de urdir e conspirar, no balneário, o milagre no qual só eles porventura acreditavam verdadeiramente.

 

Mas houve um outro importante pormenor que muito me impressionou: com a bola afagada pela bota, à espera do apito do árbitro para o reatamento do encontro, o lendário capitão João Matos trocou com um companheiro (que o plano fechado me não permitiu identificar) um sorriso cândido e convictamente auspicioso - e pensei cá comigo: que belo sorriso! É o sorriso da fé: o Sporting vai ganhar isto. Porque aquilo não era um sorriso feito da pura simetria das faces, mas uma luz cintilante que irrompia do coração de alguém que, na sua condição de capitão, sintetizava e exprimia o transbordante sentimento da equipa toda.

 

Com 2-0 ao intervalo, é verdade que, como disse, as nuvens encasteladas e negras ameaçavam abater-se em cascata de decepção sobre os incondicionais do clube. Mas, é como nas tempestades tropicais - o sol está sempre à espreita e pronto a iluminar o céu.

 

Nos últimos tempos, depois da procela que quase afundava o navio, parece ter-se instalado no clube um clima, diria mesmo, uma cultura do sucesso sustentável para cujo fomento muito têm contribuído a liderança magnética de Rúben Amorim e, obviamente, o perfil discreto, honesto e trabalhador do actual Presidente.

 

Com efeito, uma onda de entusiasmo (in+Theos) parece atravessar o universo leonino, não escapando um único segmento da sua estrutura aos efeitos da sua centrípeta circulação. Unificou-se a vontade e a correspondente energia psíquica manifesta-se exuberantemente na sua accão holoédrica, isto é, ela propaga-se como um todo, afectando, por igual, todas as faces do todo institucional. Este contágio holográfico, que pressupõe uma inequívoca unidade de comando, é, creio bem, o responsável pela vaga de sucessos nas várias modalidades que varre literalmente a teimosa depressão de anos de jejum em Alvalade.

 

Neste nosso mundo da impermanência, e, sobretudo no fatal clima de volatilidade do resultado desportivo, a ferramenta mais eficaz para prevenir o burnout é a virtude da resiliência- e o Sporting tem, nesse particular, sido exemplar.

 

Numa instituição tão diversa e complexa, como é inegavelmente um clube, nada há mais nefasto do que o comportamento da rataría: ao primeiro abanão, cada um procura o primeiro buraco onde enfiar-se. Outro perigo: o tacanho espírito de capelinha em vez do solidário espírito de missão.

 

Um testemunho pessoal, se os meus amigos mo permitem:

 

Era esse projecto de unidade e coesão conceptual e motivacional que eu desejei implantar em dois anos que estive a dar o meu modesto contributo nas modalidades do Benfica. Apesar dos equívocos que travaram o ímpeto de um projecto pioneiro em Portugal e quiçá no mundo, os esforços para estabelecer um clima de unidade no seio das modalidades deram, como resultado, dois anos de uma quase total hegemonia do Clube da Luz.

 

Mas voltemos ao futsal, cuja popularidade não pára de crescer. Uma vez escrevi que o futsal é uma versão urbana do futebol, mas deixem-me acrescentar em favor do futsal: é intenso, eléctrico, honesto, sem lugar para o bocejo, ao contrário do futebol, convertido, cada vez mais, em espaço de fita e praguedo e em que, amiúde, alguns dos protagonistas, aproveitam metade do campo para passear.

 

Termino com os devidos aplausos ao SCP: quem espera sempre alcança. Parabéns pela epidemia de entusiasmo no interior de toda a veneranda instituição. Agora é festejar enquanto dura o fogo de artifício!

 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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