“Liga Bwin”: que significado? (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 40)

Espaço Universidade 18-04-2021 23:53
Por Armando Neves dos Inocentes

No futebol já tivemos a Liga Sagres e a Liga Vitalis, a Liga Zon Sagres e a Liga Orangina, a Liga CTT, NOS ou MEO… O ‘naming’ dos estádios é uma realidade (quanto pagará a AXA ao S. C. de Braga pela denominação do seu estádio?)… A cerveja oficial do râguebi português, a Super Bock, patrocinou a selecção nacional designando-a por All-Bocks, enquanto o futebol se fica pela Sagres... Agora temos o Altice Arena – que já foi MEO Arena e Pavilhão Atlântico – e o Super Bock Arena que já foi Pavilhão Rosa Mota e Palácio de Cristal…

 

Em breve teremos a Liga Portugal Bwin em vez da Liga NOS, aquilo a que, em tempos de antanho, já se chamou de Campeonato Nacional de Futebol da 1ª Divisão…

 

O contrato de patrocínio com a Entain, empresa detentora da Bwin, passa por uma verba de 7 milhões de euros por ano durante cinco épocas, um contrato muito superior, segundo se diz, ao celebrado com a NOS nos últimos anos.

 

Pedro Proença e Marcus Silva colocaram as suas assinaturas no referido contrato. Um contrato entre uma Liga Profissional de Futebol e uma uma empresa de jogos ‘online’ (e apostas desportivas) cotada em bolsa no mercado de Londres. No discurso de celebração do contrato, Marcus Silva disse («A Bola», 17.04.2020, p. 22): “Vamos enviar uma mensagem positiva ao mercado português: a de que chegámos para ficar e que defendemos os princípios dentro da indústria como o jogo honesto, responsável e com o máximo de atenção pelo cliente.” E assim o grupo Entain prevê que o mercado do jogo ‘online’ em Portugal registe um crescimento de 70% até 2023 (logo se verá nos anos seguintes), só que talvez não seja dentro da “indústria” mas sim dentro do “comércio”… ou do “negócio”…

 

Mas a questão que se coloca é a seguinte: se o contrato vale 35 milhões de euros, de onde virão eles? As respostas poderão ser múltiplas, mas chamemos a atenção apenas para alguns pormenores.

 

De acordo com um estudo realizado por Daniela Vilaverde e Pedro Morgado (1), investigadores da Escola de Medicina da Universidade do Minho e do ICVS, bem como psiquiatras no Hospital de Braga, e publicado - em Março de 2020 na ‘The Lancet Psychiatry’, em 2018 o valor das «raspadinhas» vendidas em Portugal foi de 1594 milhões de euros - são mais de quatro milhões de euros por dia –, o que significa que cada pessoa gastou, em média, cerca de 160 euros por ano nas lotarias instantâneas. Em Espanha, no mesmo ano foram vendidas «raspadinhas» no valor de 627,1 milhões de euros, o que equivale a cerca de 14 euros por pessoa e por ano.

 

Na sua tese de doutoramento de 2015, de Maria João Ribeiro Kaizeler (2), concluiu que em Portugal se consumia, em média, mais jogos de lotaria do que na Europa e no mundo inteiro.


No nosso país apostou-se ‘online’ cerca de 15 milhões de euros por dia em 2020 e nesse ano mais de 70 mil apostadores solicitaram impedimento para jogar («Diário de Notícias», 02.04.2021, p. 13).

 

Logo, temos um público propenso para o jogo… num país em que a taxa de pobreza ou exclusão social se fixou nos 19,8% em 2020 e onde são precisamente estes que maior impulsão revelam para a tentativa de ganharem dinheiro através do ‘online’.

 

Actualmente existem dez ‘sites’ de apostas desportivas com licença para operar ‘online’ em Portugal. Num momento em que existem dados estatísticos que comprovam que os jovens entre os 18 e os 24 anos são especialmente sensíveis à adesão a ‘sites’ de apostas e jogos, todos os dias nos entram visual e acusticamente pela casa dentro através da TV nomes como Betano, Bacanaplay, Esconline e Placard (pelo menos!). Com imagens e sonoridades aliciantes. Com sedução. Com promessas de enriquecimento. E da impulsão à compulsão vai apenas um pequeno passo.

 

A partir de 2020/2021 teremos essas quatro letras – b, w, i, n – a passarem a invadir-nos de uma forma subliminar (maior quantidade de informação dividida por um menor tempo de exposição) aos domingos e segundas-feiras (e provavelmente até durante toda a semana). Em todos os meios de comunicação social. Será uma forma de publicidade invisível, mas que o nosso cérebro regista, e que, de facto, funciona criando o consumidor. E, segundo Carlos Reis (3) os meios de comunicação social “são hoje o coração da vida política e cultural, cabendo-lhes fixar agendas, produzir significados, formar opiniões e construir identidades.” Em suma, manipular-nos, acomodar-nos, submeter-nos, fazer-nos consumidores, tornar-nos subservientes… Será de admirar depois a manipulação de resultados, ou como se diz na colonização de que somos alvo, do ‘match-fixing’?

 

Regressamos à pergunta acima: se o contrato vale 35 milhões de euros, de onde virão eles? Dos jogadores e dos apostadores ‘online’, não temos dúvidas!

 

Seria conveniente que após termos a Liga Bwin em funcionamento (2021/2022) se realizasse um estudo sério e honesto sobre o aumento de jogadores e/ou apostadores através deste ‘site’, das suas idades e dos seus recursos económicos.

 

(1) Vilaverde, D. & Morgado, P., 2020. “Scratching the surface of a neglected threat: huge growth of Instant Lottery in Portugal”. The Lancet Psychiatry, Vol. 7, n.º 3 e 13. 

(2) Kaizeler, M. J. P. R., 2015. “A procura de produtos de lotaria em Portugal : uma análise socioeconómica”. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa: Instituto Superior de Economia e Gestão.

(3) Reis, C. F. S., 2014. “Educação e Cultura Mediática – Análise de Implicações Deseducativas”. Lisboa: Âncora.

 

Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 5º dan de Karate-do e treinador de Grau IV.

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