«O presidente ligou para o diretor desportivo para tirar a nossa equipa do campo» - Diogo Viana

A BOLA FORA 17-03-2021 00:24
Por Tânia Ferreira Vítor

A história de um miúdo que aos 10 anos teve de dizer adeus aos pais e ao irmão para ir atrás do sonho. A casa passou a ser em Alcochete; os cuidadores, os funcionários do Sporting. Não acreditem quando alguém diz que é fácil ser atleta de alta competição, seja de que modalidade for. Obrigada, Diogo Viana.

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Estava a jogar Call of Duty. É o meu hobby a seguir aos treinos. Tenho um grupo com oito amigos, fazemos duas equipas de quatro.

 

- E é com malta do futebol?

 

- Alguns. Com o André Santos que jogou comigo no Belenenses e agora está no Grasshopper, o João Diogo, defesa-direito do Estoril, e o Gamboa, médio do Estoril. Esporadicamente, jogo com o Josué e o André Martins.

 

- Vamos recuar a Lagos, a tua cidade-natal, e à oportunidade chamada Sporting. Aos 10 anos já sabias o que querias?

 

- A minha infância sempre foi virada para o futebol. A minha mãe dizia-me para estar em casa à uma da tarde, eu chegava às seis, ficava na rua a jogar à bola. As coisas correram bem no Esperança de Lagos e apareceu o interesse do Sporting. Lembro-me do meu pai perguntar se eu queria ir e eu dizer logo que sim. A minha mãe torceu o nariz, porque eu era muito pequeno, tinha 10 anos. Mas ela sabia que havia uma possibilidade de dar certo e não me quis cortar as pernas. Chegámos a um acordo e agora sei que valeu a pena. Mas passei momentos muito difíceis.

 

 - Imagino que tenha sido muito complicado  deixar o ninho tão cedo…

 

- Chorei muito em Alcochete, mas nunca ao telefone com os meus pais ou à frente deles. Só tinha 10  anos, mas não os queria preocupar. Sabia que se a minha mãe percebesse que eu estava triste e fragilizado ia buscar-me na hora. Durante sete anos, dividi o quarto com o André Martins, que agora está no Legia de Varsóvia. No início, ele até sofreu mais do que eu… Estávamos na mesma situação e passávamos 24 horas por dia juntos. Fomos o apoio um do outro. O André foi um bom companheiro e as nossas famílias acabaram por tornar-se amigas também.

 

- Dos 10 aos 17 anos no Sporting; segue-se a transferência para o FC Porto no negócio do Hélder Postiga. Esta troca fez-te sentir mais valorizado?

 

- Senti-me muito beneficiado, no sentido em que foi uma transferência mediática que envolveu um internacional português de renome,  o Hélder Postiga. Naquela altura, o FC Porto dominava e ganhava tudo. Jogava num sistema que potenciava o meu jogo, enquanto no Sporting isso não acontecia, pois jogavam em 4x4x2 losango. Esses fatores levaram-me a aceitar o desafio e fui muito feliz no FC Porto. Consegui estrear-me na equipa principal ainda na idade de júnior e fui campeão nacional junto daqueles craques todos. Foi uma honra ter partilhado o balneário com aquelas estrelas. O FC Porto tinha uma grande equipa e, por isso, senti que a troca foi benéfica.

 

- Fazes a estreia pelo FC Porto aos 18 anos e renovas o contrato no dia a seguir. Já estava planeado?

 

- Já, porque eu estava a fazer uma boa época: fui campeão da Liga Intercalar, não sei se te recordas dessa prova. Era uma Liga muito boa para potencializar os jovens, não havia equipa B. Juntando os juniores com a Intercalar, fiz 28 golos nessa época.

 

- É fácil um miúdo deslumbrar-se?

 

- Acho que é muito fácil, mas eu nunca me deslumbrei. Primeiro pela educação que recebi. Os meus pais sempre me incutiram humildade e o ter os pés bem assentes no chão. Venho de famílias humildes e sempre soube o que era a vida e o quanto tínhamos de batalhar para chegar a algum lado. Eu trabalhava diariamente com grandes nomes, como o Hulk, Fernando, Falcao, Lisandro López, Belluschi, Raul Meireles, etc. Não me podia deslumbrar, porque eles estavam muito, mas mesmo muito acima de mim. Não podia ter moral numa equipa em que todos esses estavam à minha frente. Então, mantive-me sempre humilde e a saber o que queria.

 

- E havia brincadeiras por causa dessa discrepância de estatuto?

 

- O balneário era muito porreiro, brincalhão e não havia grandes bocas nesse sentido. Mas é claro que a discrepância dos salários era normal. Eu recordo-me que houve uma altura em que o Raul Meireles pagou mais de multas do que aquilo que eu ganhava ao fim do mês [risos].

 

- Lembras-te de alguma extravagância?

 

- Eu andava a tirar a carta e a grande extravagância foi comprar um bom carro. Só que o salário não deu logo para isso. Então, preferi esperar e só comprei o carro que queria quando fui emprestado ao Venlo da Holanda. Era um sonho, como qualquer miúdo que acaba de ter a carta e que gosta de carros. Eu ia de boleia para os treinos com o Guarín. Ele tinha um BMW X6 e eu lembro-me de ir ao lado e de pensar: ‘quem me dera um dia ter um carro destes’.

 

- E por falar no Venlo… O campeonato holandês foi uma boa escola?

 

- Gostei muito. Foi a minha primeira experiência fora do país e fui muito bem recebido pelos colegas e staff. Era gente muito acolhedora com os mais jovens e com os estrangeiros. O futebol holandês é muito atrativo e ofensivo, potencializou as minhas qualidades. Tirando o frio e a neve, gostei de tudo.

 

- Tinhas 20 anos. Foste sozinho?

 

- No primeiro ano, sim. No segundo ano de empréstimo, fui com o Josué e o Jorge Chula.

 

- Mais tarde e numa fase diferente da tua carreira, tens a segunda aventura no estrangeiro. Conta-me como foram os tempos na liga búlgara?

 

- Eu fui para o Litex com o Arsénio Nunes. O clube estava para a liga búlgara como o SC Braga está para a liga portuguesa. Havia o Ludogorets, o Levski de Sófia e o Litex, o CSKA de Sófia estava na terceira por causa de problemas financeiros. O Litex pagava bem, davas boas condições, mas a cidade era muito pequena e limitada. Os apartamentos eram fracos, nada tinham a ver com aquilo a que estamos habituados. Eu vivi num T1 que era um autêntico cubículo sem o mínimo de conforto. Na época a seguir, vivi em Sófia, onde a vida é totalmente diferente. É uma cidade desenvolvida, com muita coisa para fazer, vários shoppings, restaurantes, etc. Mas quando sais de Sófia, parece que caiu uma bomba.

 

- O Arsénio contou-me que tinhas muitas dificuldades a conduzir na neve [risos]…

 

- Não estava habituado. Tínhamos de travar com muita antecedência e de andar com muito cuidado. Apanhei muitos sustos por causa da neve: tive o carro a derrapar muitas vezes e ainda dei uns toquezinhos.

 

- E falou-me de outra história que envolveu uma carrinha num estágio em Espanha. Foram apanhados?

 

- O condutor fui eu [risos]. O treinador deu uma tarde de folga para dar uma volta e sair um bocado daquele ambiente de estágio. Éramos uns quatro ou cinco e pedimos a carrinha ao técnico de equipamentos para não ir de táxi. A verdade é que a gente fez daquela carrinha um carro de rally… Puxámos mais do que o que ela podia, passámos as lombas a abrir e a carrinha já acendia os alertas todos. No dia a seguir, quando íamos para o treino, a carrinha não pegava. Fizemos de conta que não era nada connosco e não fomos apanhados.

 

- Sei que tens um episódio caricato quando o presidente do Litex expulsou a equipa do relvado. Coisas impensáveis de acontecer em Portugal?

 

- Tenho muitas histórias da Bulgária, mas a maior é mesmo essa. Estávamos a lutar pelo segundo lugar com o Levski de Sófia e se ganhássemos esse jogo passávamos para segundo. Eu não sei se lá o campeonato tem resultados viciados ou comprados, mas a verdade é que havia coisas muito estranhas e esse jogo foi escandaloso. Nós fizemos o um a zero, estávamos a ganhar na casa do Levski e imediatamente a seguir ao golo o árbitro expulsa um jogador da minha equipa, uma expulsão que não lembra a ninguém. Ficámos com menos um e ao minuto 45 o árbitro marca penálti contra nós. Essas imagens estão na internet: o nosso jogador nem toca no adversário e é expulso. Eles empatam o jogo e ficámos com nove. O nosso presidente estava a ver o jogo na televisão e ligou para o diretor desportivo para tirar a equipa do campo. O diretor desceu da tribuna e entrou no relvado a coxear, é manco, porque levou sete tiros na perna no tempo da guerra. Fomos para o balneário com a ideia de que íamos perder na secretaria por 3-0, mas que ao menos íamos dar uma lição a alguém. Mas não ficou por aí: levaram o caso para tribunal e o Litex desceu de divisão. Joguei os últimos três meses na segunda, sem público. Uma curiosidade: o presidente do Litex era o dono do CSKA de Sófia que estava na terceira por dívidas. O homem pagou tudo, o CSKA voltou à primeira divisão e a equipa do Litex foi transportada para o CSKA. É assim que vou lá parar. Contado ninguém acredita [risos]…

 

- Foste mais feliz no CSKA de Sófia?

 

- É um clube enorme, com muitos títulos, estádio sempre cheio com tochas e coreografias. Ali senti-me outra vez jogador. Adorei! Estava a fazer uma época extraordinária, era muito acarinhado pelos adeptos, vivia no melhor condomínio de Sófia. Foi uma realidade totalmente diferente.

 

- E tinhas colegas portugueses…

 

- Sim, foi para lá o Rui Pedro, o David Simão, o Rúben Pinto e foi muito bom. Juntávamo-nos muitas vezes e criámos ali uma irmandade.

 

- Recentemente passaste uma fase complicada ao estar à margem do plantel do SC Braga. Foi um divórcio amigável?

 

- Sim, foi. A verdade é que eu não joguei tanto quanto gostaria. Tinha uma ambição de chegar lá e de ser feliz. Quem fez força para a minha contratação foi o Abel Ferreira e o facto dele se ter ido embora passado duas semanas não ajudou [técnico saiu para o PAOK]. Eu fui contratado por ter feito três épocas muito boas no Belenenses em que usava o cruzamento como a minha melhor arma. Na altura, o SC Braga jogava com dois pontas de lança fortíssimos: o Dyego Sousa e o Paulinho. O Abel usava muito os cruzamentos e foi por isso que me foi buscar. Depois da saída dele, senti que não ia jogar muito. Estar vinculado a um clube grande só para dizer que sim e sem estar a fazer o que se gosta não vale a pena. Quando é assim, penso que mais vale rescindir e abrir portas noutro sítio. Mas atenção que fui muito feliz em Braga: ganhei um título e ficámos em terceiro lugar.

 

- No verão, sabias que não entravas nas contas de Carlos Carvalhal e falou-se que estarias perto do Panathinaikos. O que aconteceu?

 

- Estive muito perto de ir para o Panathinaikos, só que esperei demasiado e hoje arrependo-me. Estava à espera de umas situações da Turquia que acabaram por não avançar… Como o interesse da Grécia apareceu imediatamente a seguir à rescisão, preferi esperar para ver se surgiam ofertas melhores. Acabei por ficar sem nada; hoje teria jogado pelo seguro.

 

- Como é que surgiu o Feirense?

 

- O Tiago Calisto do Feirense ligou-me a perguntar se queria ir para lá. E a verdade é que há muitos anos que acompanhava o clube, também por ter muitos amigos aqui. Sempre foi um clube que me encheu as medidas a todos os níveis: não atrasa pagamentos, tem sempre estágios, tem três ou quatro campos relvados para treinar, a relva está sempre boa, tem uma grande estrutura desde a comunicação ao staff, ao posto médico... Como gosto de futebol e estava a gostar do que via na televisão, decidi aceitar. É um projeto muito ambicioso e não pensei duas vezes.

 

- A luta pela subida de divisão está sempre ao rubro na II Liga. É uma adrenalina particular? 

 

- Toda a gente sabe que a II Liga é muito complicada. Tanto estás em primeiro, como na jornada a seguir estás em quarto ou quinto. Por ser conhecedor da II Liga, pois já joguei no Penafiel, e pela equipa ser muito experiente, nunca falamos da subida no balneário. Nunca. Pensamos jogo a jogo e, no final, vamos ver a contabilidade dos pontos na tabela. Sabemos que só dependemos de nós, porque estamos numa boa posição, mas temos de continuar a trabalhar.

 

- As tuas equipas de formação estão em grande: o Sporting continua invencível no campeonato e o FC Porto passou aos quartos da Champions, em Turim. Comecemos pelo Sporting: vai mesmo ser campeão?

 

- Acho que este ano ninguém tira o título ao Sporting. Trabalhei com o Rúben Amorim e sei o trabalho que ele desenvolve. É muito difícil perderem a vantagem pontual, também pela forma como o Rúben Amorim joga. Estão invencíveis. O Rúben já incutia essa filosofia no SC Braga: ‘quando não se ganha, não se perde’. O trabalho está à vista de todos e acho mesmo que o Sporting vai ser campeão.

 

- Em que é que o Rúben Amorim se diferencia?

 

- É muito incisivo na forma como trabalha, é tudo ao pormenor e é muito exigente. Lembro-me que nunca na minha vida treinei tantas bolas paradas como treinei com ele. Não terminava o treino até que os jogadores percebessem na prática a mensagem dele. A palavra que o define é a exigência, trabalha sempre no pormenor.

 

- Liga dos campeões: como é que viste a qualificação do FC Porto para os quartos de final da prova?

 

- Vi com uma grande satisfação e fiquei muito feliz. É uma casa que merece muito, também pelo Sérgio Oliveira que é um amigo. Trabalhámos juntos nos juniores do FC Porto e no Penafiel, é uma pessoa que estimo muito.

 

- Torces por algum clube?

 

- Não. Vou ser muito sincero: quando era pequenino, era do Benfica por influência do meu pai. Mas quando fui para o Sporting, com 10  anos, passei a adorar o Sporting. Tinha um amor ao clube do outro mundo; foi ali que cresci como homem e jogador. O Sporting educou-me juntamente com os meus pais. E dali vou para o FC Porto que é uma casa com uma mística incrível. Acho que não há clube que sinta tanto o jogo como o FC Porto. O Belenenses tem um lugar especial no meu coração, foram três anos em que fui muito feliz. Depois, passei pelo SC Braga, clube pelo qual guardo um grande carinho também. Isto pode fazer confusão a muita gente, mas eu não tenho clube. Estou a torcer pelos meus amigos, pelas casas por onde passei e fui feliz e, acima de tudo, gosto de ver bom futebol. Se tiver de escolher um, digo que sou do clube onde jogo e que me paga.

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?

 

- Ui, é uma boa pergunta… Acho que repetia a minha estreia na equipa principal do FC Porto. Por tudo: fiz uma assistência, joguei bem e, no dia seguinte, fui capa do jornal O Jogo. Foi a recompensa por todos os sacrifícios que eu fiz na minha formação; enchi-me de orgulho de mim mesmo.

 

- As pernas tremeram?

 

- Não, estava tranquilo. Houve dois momentos em que as pernas tremeram por razões diferentes: um no jogo contra o Feyenoord em que estavam 80 mil pessoas no estádio e metade estava em pé. Quando entrei em campo, senti as pernas a tremer como varetas. O outro momento foi quando marquei ao Benfica, pelo Gil Vicente, na Luz. Depois, o Benfica marcou aos 90 e aos 92 minutos. O estádio estava quase cheio e no segundo golo deles, houve uma explosão tão grande que senti a relva a tremer. Foi impressionante!

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