O inferno de Bican (o alvo de Ronaldo) por entre nazis e comunistas

Internacional 22-01-2021 15:02
Por António Simões

Ao chegar aos 760 golos (na noite em que a Juventus ganhou ao Nápoles a Supertaça de Itália), houve quem o aventasse: que Cristiano Ronaldo passava, assim, a ser o maior goleador da história do futebol mundial (até a FPF foi na onda, apesar das ressalvas) – e não tardou que, de rompante, surgisse Jaroslav Kolár, chefe do Departamento de História e Estatística da Federação Checa a afiançá-lo:

 

- 821 golos é o número mais próximo da realidade na carreira de Josef Bican em jogos oficiais. Estão incluídos golos de jogos na primeira e segunda ligas, taças nacionais, a taça centro-europeia e seleções. Jogos amigáveis não estão incluídos, tirando os de representação da Áustria, da Checoslováquia e ainda do Protetorado da Boémia e Morávia. As nossas informações são cruzadas e fidedignas.

 

Para a RSSSF, a fundação internacional de estatística, não são tantos os golos de Bican – são 805 e sendo essa a marca que a FIFA reconhece, Cristiano Ronaldo ainda está a 45 golos de lhe levar o recorde do mundo. O que, porém, aqui se vai contar são outros casos, outros mistérios – a vida de Bican que é de deixar olhos em bico, tocando o inferno por entre nazis e comunistas…

 

Josef Bican Vladikov nasceu a 25 de setembro 1913 no pobre bairro operário de Viena - filho de checos. O pai jogara futebol no Hertha de Viena, combatera na I Guerra Mundial, de lá escapara ileso, mas, morrera pouco depois por não ter dinheiro para fazer operação a um rim que lesionara durante um dos seus jogos. Josef tinha, então, oito anos, a mãe continuou a trabalhar como cozinheira, o pouco o dinheiro que lhe calhava do ofício não lhe dava para a comprar de sapatos, por isso, para jogar à bola, Bican jogava descalço, revelando-o, depois:

 

- No meio da miséria, foi a minha sorte: não ter que calçar ajudou-me a dominar a bola com mais habilidade.

 

O que a mãe não deixou, nunca, foi de olhar para o que podia ser o seu futuro no futebol como devoção. Em tal fervor o fazia que se conta que, indo vê-lo num desafio, ao aperceber-se de que adversário não se cansava de pontapear Josef para o travar, ela (a mãe) lançou-se ao campo de guarda-chuva no ar com o guarda-chuvas em revolteio vergastou o defesa que lhe infernizara o filho.

 

Podendo essa ser (ou não) mais uma das várias lendas tecidas em torno de si – uma outro correu, famosa, o tempo: que apercebendo-se cedo da perícia do seu pontapé, Bican desatou a ganhar dinheiro com insólitas apostas que fazia pondo garrafas em cima da trave da baliza (que nesse tempo não eram redondas e eram de madeira) – raro sendo não as derrubar, uma a uma, com os seus remates bem de longe.

 

Em Portugal, contra a equipa de Cândido de Oliveira (que Salazar haveria de mandar para o Tarrafal por espionagem contra nazis)

 

Habilidade em flor não tardou a mostrá-la por times menores: o Schustek e o Farbenlutz - e o Hertha foi buscá-lo para a sua equipa de juniores. De lá saltou, ainda antes dos 20 anos, para o Rapid de Viena. Pela famosa seleção da Áustria de Hugo Meisl fez no Porto, no Estádio do Lima, desafio que, por janeiro de 1936, empolgou Portugal – cabendo-lhe o golo que deu a vitória à Áustria por 3-1 (e selecionador nacional era, então, Cândido de Oliveira – que já embrenhado na oposição ao Estado Novo, a polícia política de Salazar haveria de atirar para o campo de concentração do Tarrafal, ao descobri-lo envolvido numa rede de espionagem contra nazis).     

 

A Bican (já tratado por Pepi), o Rapid dava-lhe 150 xelins por mês, ainda admitiu pagar-lhe 600 – e os 600 xelins não bastaram para evitar que fosse para o SK Admira. não chegou para que Bican saltasse para o Perante sinais de que Hitler se preparava para anexar a Áustria, fugiu, sorrateiro, para Praga, foi para o Slavia (clube dominado pela alta burguesia da cidade). Também brilhara no atletismo, correndo os 100 metros em 10,8 segundos – e quando, em 1939, a Alemanha invadiu a Checoslováquia, agentes da Gestapo chamaram-no aos seus serviços com uma cobiçosa proposta na manga:

 

- … naturalizar-me alemão, para jogar pela seleção nazi. Quando entrei na sala, os generais estavam sentados, levantaram-se, aplaudiram-me. Quando ouviram a minha resposta, pediram-me que, então, saísse e depressa. E saindo, saí já como se fosse um vira-latas – ou pior: subversivo, perigoso.

 

(Foto: A BOLA)

 

Bican recusou a Juventus por medo de que a Itália se tornasse comunista, comunista tornou-se a Checoslováquia (e foi inferno outra vez…)

 

Temendo as represálias do pé para a mão, Josef Bican ainda viveu mais ou menos escondido o tempo da ocupação mais feroz – e já por 1945 surgiu, ousado, à cabeça de movimento popular que, em Praga, se rebelara contra nazis (à beira do seu fim).  Ao terminar da II Guerra Mundial a Juventus desafiou-o para Turim, oferecendo-lhe contrato milionário, a sua resposta foi:

 

- Não, obrigado!

 

Fê-lo por temer que Itália passasse a ser dominada pelos comunistas, apanhou-se-lhe em clamor. Não, a Itália não foi dominada por comunistas, a Checoslováquia foi – e, quando tal sucedeu, algures por 1948, Josef Bican negou-se a militante do PC, ficando, de pronto, pedra no sapato do regime. Ainda mais ficou quando, o governo comunista, querendo que em furor a força do futebol da Checoslováquia passasse para o Dukla (fundado no seio do seu exército) determinou que os melhores jogadores do Slavia para lá fossem – e Bican não o aceitou.

 

Acusado de «desvio revolucionário», num truque para «salvar a pele», admitiu, então, jogar pelo clube da siderurgia estatal, o Železárny Vítkovice. Não tardou a passar para o mais descomprometido FC Hradec Králové – mas, a 1 de maio de 1953, o Partido Comunista obrigou-o a deixar a cidade, forçando-lhe o regresso a Praga e ao Slavia que entretanto se tornara Dínamo, o Dínamo de Praga. Ainda por lá jogou três anos, o adeus ao futebol deu-se por meados de 1955, a caminho dos 43 anos (e já como jogador-treinador).

 

Para além das seleções da Áustria e da Checoslováquia, ainda fez um jogo pela fugaz seleção da Boémia e Morávia contra a Alemanha nazi: acabou 4-4 e Bican marcou três golos.

 

(Foto: A BOLA)

 

A trabalhar no jardim zoológico, o que Bican disse quando lhe falaram do golo 1000 de Pelé

 

Entre 1956 e 1959 treinou o TJ Slovan Liberec e no ano seguinte passou para o TJ Spartak ZJS Brno. Três anos esteve fora do futebol, trabalhando como motorista de autocarros – ao futebol regressou em 1963 para técnico do TJ Baník Príbram. Na época seguinte lançou-se ao FC Hradec Králové. De lá saltou para o SONP Kladno – era onde estava quando, por entre a Primavera de Praga, o governo (que tentava, em vão, desligar-se do domínio soviético) lhe permitiu que fosse para a Bélgica treinar o KSK Tongeren. Levou-o da quarta à segunda divisão, a Praga regressou em 1972 – tornando-se funcionário do Jardim Zoológico.

 

Em fogacho continuava a lenda de que ao longo da sua carreira Josef Bican marcara 1500 golos – e quando Pelé chegou, em fervor, ao golo 1000, um jornalista correu a entrevistá-lo e perguntando-lhe por que não revelava a «misteriosa» lista com o registo dos seus 1500 (que se dizia que ele tinha), a resposta saiu-lhe (em toque misturado de humildade e bom humor):

 

- Não sei se haveria gente que acreditasse em mim quando eu mostrasse que tinha 500 golos mais do que Pelé.

 

Mais comedida, havia estatística que apontava para que só em 540 partidas pelo Slavia de Praga tivesse feito 1054 golos – e a Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation, admitindo-lhe 1468 golos, garante que, desses 1468, 805 foram marcados em jogos oficiais (e é o que a FIFA reconhece e a Federação Checa voltou a confirmar).

 

(Foto: A BOLA)

 

Reabilitado pela Revolução de Veludo de 1989 que desfez o regime comunista na Checoslováquia – Josef Bican voltou a herói nacional e não mais se ouviu o que se ouvira (durante o período comunista), displicente ou não: que era «bastardo austríaco mais do que checo».

 

Morreu dois anos depois, no mausoléu que lhe ergueram no cemitério de Praga, o topo fez-se com estátua sua. Na lápide, colocou-se uma bola de futebol – e desde o dia da sepultura nunca deixou de estar, à sua beira, um ramo de rosas vermelhas e brancas.

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