Portistas salvaram galegos de fuzilamento (mesmo) com Benfica campeão no «jogo das metralhadoras»

FC Porto-Benfica 15-01-2021 14:02
Por António Simões

Como o FC Porto não conseguiu ganhar ao Benfica no Porto, o Campeonato da I Liga de 1937/38 acabou como nenhum antes acabara: com os dois primeiros empatados em pontos. Os portistas tentaram evitar que a regra de desempate não os traísse - e não o conseguiram. A polémica e a confusão continuou – e o que aqui se conta é muito mais do que isso e também é a incrível história de Pinga, Valdemar Mota e Acácio Mesquita a salvaram do fuzilamento republicanos em fuga aos franquistas na Guerra Civil de Espanha…

 

O Campeonato da Liga de 1936/37 foi desastroso para os portistas: apesar de, no Porto, terem ganho ao Benfica por 2-1, nas Amoreiras os benfiquistas fizeram a festa do título com 6-0 aos portistas que deixaram a 10 pontos de distância. Pinga não jogou por estar lesionado. Acácio Mesquita e o Valdemar Mota, os outros dois Os Diabos do Meio Dia, não jogaram por François Gutkas já ter deixado de contar com eles.  No Campeonato de Portugal, Pinga regressou ao seu destino – e o FC Porto saltou do inferno para o paraíso.

 

Em vésperas da final, frente ao Sporting (que eliminara o Benfica), o Jornal de Notícias anunciara a suspensão do espetáculo Maggia Egiziana que trupe veneziana «especializada na difícil arte de fazer desaparecer pessoas e a reaparecê-las em outros» tivera em cena no Porto. Continuando fora da equipa, Valdemar Mota e Acácio Mesquita não deixaram de estar, ambos, no Campo do Arnado, em Coimbra. Viram o FC Porto a bater o Sporting por 3-2 – e horas após sucedeu o que o historiador Alcino Pedrosa descobriu:

 

- Na cidade adormecida, depois da ressaca da festa, três portugueses juntaram-se num armazém perto do Bolhão a oito republicanos galegos, que tinham fugido do terror falangista, da Guerra Civil de Espanha. Do que se passou a seguir não se sabe muito, o pouco que conhecemos baseia-se no relato efetuado por um dos galegos – Xavier Berenger – nas suas memórias. Berenger, amante do futebol, comerciante na Corunha, que acompanhara a deslocação do Depor ao Porto, em 1931, era filho de um galego, dono de uma padaria na zona da Trindade, de que Mesquita era cliente. Terá sido na loja do pai que Berenguer conheceu o jogador portista. Conta o republicano galego, que foi um seu amigo português: hombre que conocia bien la ciudad, que, com a colaboração de outros companheiros, os ajudou a fugir, prestando-lhe auxílio monetário e fazendo os contatos necessários para a saída do país…»

 

Divididos à socapa os republicanos espanhóis em dois grupos, um seguiu para Matosinhos, onde embarcou num cargueiro inglês, e outro para Lisboa, de onde rumou, via marítima, para França – e os três portugueses que puseram Xavier Berenger (e demais republicanos) a salvo eram o Acácio Mesquita, o Valdemar Mota e o Pinga:

 

- Berenger morreu, em 1938, de uma infeção pulmonar. No pouco tempo que viveu, após a fuga, nunca deixou de mostrar o seu reconhecimento para com quem o ajudara a escapar do Porto. Na página 25 das suas memórias, apensa ao relato da fuga pode ver-se a fotografia dos Três Diabos do Meio-Dia, com a seguinte inscrição à margem: los bravos hermanos portugueses (revelou-o Alcino Pedrosa também).

 

O guarda-redes que já estava na PIDE (que ainda se não chamava assim) e o que podia ter acontecido aos espanhóis: fuzilarem-nos…

 

Não fora essa ação secreta e perigosa de Pinga, Acácio e Valdemar – e o mais provável seria que aos espanhóis (em luta contra o que haveria de tornar-se o fascismo de Franco) acontecesse o que já se tornara normal: a PVDE (com António Roquete, o guarda-redes da seleção olímpica de 1928 em que também esteve Valdemar Mota, em destaque como seu agente…) apanhava os republicanos que por Portugal andavam, ia à fronteira entrega-los ao falangistas e o seu destino era quase sempre fuzilarem-nos ali mesmo, num fogacho.

 

Por entre o negrume no campeonato da Liga, nasceu uma outra estrela no FC Porto: Francisco Ferreira. O pai fora guarda do Campo da Constituição, morreu quando o Chico não tinha ainda cinco anos sequer. A mãe deixou-se ficar por São Mamede de Infesta na labuta pela vida, ele foi entregue, para o criarem, aos avós de Guimarães – e, em Guimarães, no campo que se improvisara na zona da Feira do Gado depressa se descobriu que tinha dom sobretudo no pé esquerdo. Aos 11 anos, achou que era hora de ir ao reencontro da mãe, não foi apenas ao reencontro da mãe, lançou-se à aventura até à Constituição, pediu que o deixassem fazer um teste na equipa de infantis, meia hora depois estavam a tratar de lhe dar a papelada para se tornar jogador do FC Porto…

 

Mais do que um pé partido no «jogo das metralhadoras» que o FC Porto não venceu (e por isso campeão foi o Benfica)

 

A temporada de 1937/38 já não arrancou com Gutskas a treinador, arrancou com Miguel Siska (sim, já era Miguel e não Mihaily por se ter naturalizado português) em seu lugar – e logo se percebeu que, com ele, Francisco Ferreira se tornara indiscutível na equipa, indiscutível no lugar de João Nova. Após vencer o Carcavelinhos, a Académica, o Sporting e o Barreirense, no Campeonato da Liga, o FC Porto perdeu, nas Amoreiras, com o Benfica por 3-1. Para o intervalo fora a ganhar graças a golo de Costuras e só começou a derrapar quando Francisco Ferreira saiu de pé partido de um despique com Rogério de Sousa:

 

- O Rogério jurou-me que não tinha feito de propósito, mas eu nunca acreditei. Que não quisesse partir-me o pé, vá que não vá, mas que me pretendeu segurar à má fila, embora a coisa tenha saído pior do que pensara, disso nunca me restaram dúvidas…

 

16 dias esteve Francisco Ferreira internado numa Casa de Saúde do Porto, voltando à liça já na segunda volta, contra o Sporting, o jogo em que descalabro atingiu a equipa como se não imaginara possível perante aquilo que ela vinha sendo: perdeu com o Sporting, perdeu por 6-1.  com os portistas a queixarem-se amargamente do árbitro, de Henrique Rosa. Na antepenúltima jornada, foi o Benfica ao Porto – o jogo que entrou para a história através de uma poética metáfora: o jogo das metralhadoras:

 

- … tão quentíssimo, em ambiente tão pesado, que houve necessidade de acautelar e acalmar, para acautelar e acalmar a polícia não deixou de mostrar as armas que tinha.

 

O FC Porto tinha de ganhar, ao Benfica bastava empatar para ser campeão (se, depois, ambos vencessem, como venceram, as duas partidas que lhes faltavam). Acabou 2-2, o golo que valeu o título marcou-o Alfredo Valadas a 18 minutos do fim – e, depois disso, fazendo fé em em várias crónicas que se lhe dedicaram tornou-se «súcio» o jogo, «marcado por violências», como se os jogadores, também eles, estivessem em campo «numa guerra sem quartel, de metralhadoras na mão».

 

Benfica e FC Porto terminaram o campeonato empatados a 23 pontos (mais um que o Sporting) - com a festa benfiquista a soltar-se do goal-average e os portistas levaram protesto à FPF por o desempate ser o que foi:

 

- … valer o facto do Benfica ganhar por 3-1 nas Amoreiras e empatar por 2-2 no Lima…

 

Francisco Ferreira achou que Rogério o estava a tratar como «anjinho» e a partir daí «foi tudo fogo» (e não só entre os dois…)

 

Ambas as direções trocaram ofícios em azedume (ou pior…) – e, por entre as acusações do Benfica, não deixou de se visar Francisco Ferreira.  Teve a ver com o que sucedera nos despiques que mantivera com Rogério de Sousa, ele próprio o revelou, deliciado, quando já era jogador do Benfica):

 

- O Rogério que era de poucas falas, a certa altura virou-se para mim e disse-me: «Tu és feito de cimento das Devesas, oh Chico!» Não sei bem porquê, aferrou-se-me no espírito a ideia de que ele me estava a dizer, com ironia, que me considerava um «anjinho» e, a certa altura, não resisti: não, não lhe parti o pé, não lhe parti coisa nenhuma, mas dei-lhe e, claro, a partir daí foi tudo fogo, muito fogo, mas, como se sabe, não só entre nós os dois…  

 

O FC Porto já tinha então novidade no seu seio: uma claque. denominava-se Esquadrão Azul e Branco – e a ameaça ficou clara, solta do jogo dos rancores: tratou de receber os benfiquistas em tempestade agreste, mal eles voltassem ao Porto. Voltaram sem demora, para os quartos de final do Campeonato de Portugal – e sucedeu o que sucedeu, a chusma em chinfrineira:

 

- … a entrada em campo do Benfica marcada por uma formidável zaragata de assobios e pateadas.

 

O Benfica não mais se livrou de apupos (e insultos…) que das bancadas e do peão se lhe lançaram, mas, dentro de campo, ainda houve pouco mais de meia hora de «jogo limpo». Pinga fez 1-0 aos 17 minutos, Rogério de Sousa empatou aos 18. Carlos Nunes pôs o FC Porto de novo em vantagem aos 20, de Espírito Santo saiu o 2-2 aos 23. Aos 34 foi golo outra vez, golo de Costuras. Logo após Rogério atingiu Pinga a pontapé - e foi expulso. Pouco antes de ser igualmente expulso, Costuras fez o 4-2 para os portistas, aos 67 minutos já Álvaro Santos aplicara igual castigo a António Santos e o Gaspar Pinto ao vê-los embrenhados em mais uma escaramuça.

 

Houve crónicas que falaram em «desafio disputado em ambiente de guerrilha», outras foram ainda mais marcantes no relato (regressando-se, outra vez, à analogia da guerra): «Após o 2-2, as hostilidades romperam com impetuosidade, não mais deixaram de se ver jogadores de arma na mão. Alguns ficaram fora de combate e, assim, impossibilitados de jogar durante semanas, outros, apesar de abandonarem o terreno, acusavam contusões, feridas visíveis no corpo, como se, em vez de futebol, tivessem saído de um campo de luta livre. Uma vergonha!»

 

Na Stadium, Domingos Lança Moreira escreveu: ««A arbitragem do conimbricense Álvaro Santos foi irregular no critério aplicado em faltas idênticas. A expulsão de Rogério teve o carácter duma explicação dada ao público, que não se calava. E a de António Santos e Gaspar Pinto foi inoportuna. A de Costuras mais aceitável, porque a agressão a Albino existiu, de facto. Teve, porém, uma virtude importantíssima: a de no meio daquela algazarra toda, nunca dar a impressão de estar desorientado. Embora intimamente o pudesse estar».

 

Depois dos 7-0 do Benfica, a ameaça de castigo ao Pinga que o deixou escondido em casa...

 

Na segunda mão dos quartos de final desse Campeonato de Portugal de 1937/38, nas Amoreiras, o ambiente não esfriou, bem pelo contrário - e a Stadium não o escondeu em traço de indignação a vingança que se serviu tórrida: «Lamentavelmente, em Lisboa houve a ideia da vindicta, mas à face da verdade o público desportivo da capital estava sob a influência dos hinos guerreiros que uma parte da imprensa tinha cantado altissonantemente. Desse desvario, resultaram vítimas os jogadores, precisamente os que, normalmente, menos culpa têm, vivendo à margem das discussões. E como consequência de toda a excitação provocada, assistiu-se nas Amoreiras à maior orquestração de assobios e pateada que temos presenciado em Lisboa…»

 

Viu-se a polícia a rodos, guardando balizas, tomando as portas dos balneários, estabelecendo caminhos, – tudo isto deu à partida sinal que um jornalista lhe apanhou:

 

- … um aspeto belicoso e de desconfiança, que não fica bem a um campo de desporto, que arrepiava e indignava.

 

Antes da meia hora, o FC Porto já perdia por 5-0, voltou a ficar sem Pinga, que magoado com gravidade teve de deixar o campo ao colo de Carlos Nunes, de Augusto Amaro e do próprio árbitro – e foi já na segunda parte que os jogadores portistas que tinham perdido a alma, perderam a cabeça, Domingos Moreira escreveu-o na Stadium: «A parte que escureceu o encontro foi devida ao nervosismo que se apoderou de alguns dos jogadores do Norte, que parece terem pensado no rifão: perdido por um, perdido por mil, e como já nada lhes restava, resolveram deixar triste recordação, contundindo os benfiquistas. Ângelo e Nunes foram expulsos, mas se houve qualquer exagero quanto ao primeiro, foi justíssima a expulsão do segundo, que, por capitão do grupo, maior responsabilidade tem, e que passou quase todo o encontro a protestar, por tudo e por nada, e a implicar com os adversários. Do lado do Benfica, também Alcobia seguiu o rumo daqueles, por ter respondido a Nunes. Ao intervalo, os portistas já perdiam por 5-0 – e durante cinco quartos de hora, resfolegando de fadiga, de rostos esfarrapados pela angústia, como frangalhos da vida, foram (ao menos isso!) mantendo intocável olímpica postura, mas, de súbito, a cólera ou a angústia da desfeita ressoaram em si – e perderam a cabeça. Na refrega, Ângelo e Carlos Nunes foram expulsos do lado do FC Porto, do lado do Benfica também Vieira seguiu o rumo daqueles, por ter respondido a Nunes».

 

Aos 50 e 55 minutos, Espírito Santo fez mais dois golos, o 6-0 e o 7-0, o 7-0 foi o seu terceiro. Três golos marcou igualmente Luís Xavier, o Luís Xavier que haveria de contar:

 

- Por causa disso, passei o resto da vida a arreliar o Soares dos Reis, meu grande amigo. Sim, foi o tal jogo das «bombinhas de Santo António», como sendo o jogo das «bombinhas de Santo António» passou à história por o Soares dos Reis se ter queixado de que só fora batido como fora porque detrás da baliza lhe atiravam bombinhas de Santo António que estalavam à sua volta. Exagerou, claro. Os golos entravam porque tinham de entrar, porque o Benfica estava numa daquelas tardes verdadeiramente à Benfica e nada nem ninguém podia resistir. Muito defendeu ainda o Soares dos Reis – e note-se que marcámos a maioria dos golos do lado da baliza dos sócios titulares, onde ninguém deitou as tais bombinhas, que antes da meia hora já havia 5-0.

 

Numa crónica pôde ler-se: «… os portistas, no desespero das agonias, corpos doridos e orgulho ferido, deixaram o campo como se saíssem de uma câmara de tortura. Na cabina, um silêncio tumular, primeiro, depois os remoques dos dirigentes que prometiam castigos, dispensas, etc…»

 

Depois dos 7-0 do Benfica ao FC Porto, fizeram de Pinga «bode expiatório» e ele escondeu-se na Boa Hora…

 

No abalado dos 7-0 das Amoreiras, um dos bodes-expiatórios que se procurou arranjar, entre os «destroçados» diretores do FC Porto - foi Pinga. Arrecadava, então, 1500 escudos por mês do FC Porto, no Sporting, Peyroteo cobrava pela metade. (Nessa época, os ordenados de todos os jogadores portistas ultrapassaram os 166 contos.)

 

A Pinga, acusavam-no de «não ter suado a camisola que vestia», enxofrado partiu de férias para o Funchal, o rumor correu:

 

- … talvez não volte, talvez não volte mais ao FC Porto, que o que dele se anda a dizer o abalou de morte…

 

Não era preciso conhecê-lo bem para se saber que ele jogava sempre com o coração acima do génio – e, por isso, na cidade, gerou-se uma onda solidariedade em torno de si, mais ainda ao verem-no voltar (ao contrário da boataria…) Não deixou, contudo, de viver «dias terríveis»:

 

- … escondeu-se na sua casa da Boa Hora, evitando até aqueles banhos de multidão que adorava, sobretudo entre as meninas da terra, que o consideravam o mais simpático e galante jogador do Mundo.

 

Achava, claro, que a suspensão com que o ameaçaram era «beliscadura» na sua honra – e só voltou a ser Pinga quando Carlos Costa, o presidente, deu sinais de que a ameaça em hora de dor não fazia grande sentido.

 

«O senhor ou assina a ficha já ou põe-se na rua, porque não queremos malandros cá dentro»  (e esse talvez tenha sido um erro histórico…)

 

Na sequência desses 7-0 do Benfica ao FC Porto, ficara o Porto como Silva Petiz o revelou na Stadium:

 

- … parece que houve, nesta cidade, qualquer sismo, algum terramoto ou cataclismo semelhante, anda tudo fúnebre, o 7-0 levou esta aficion ao paroxismo: foge dos jogadores, nega-se ao seu contato, ataca-os baixo ou alto, despreza-os mesmo…

 

e, sabendo que havia companheiros a «ganhar muito dinheiro», que, por exemplo, o ordenado do brasileiro Vianinha era de 1500 escudos por mês, Francisco Ferreira foi à sede do FC Porto solicitar um «ordenadinho como os demais» - lembrando que do clube não recebia nada (a não ser os prémios por vitória e empate, nunca mais de 80 escudos no melhor caso…), que era pobre, que trabalhava como cortador, que lhe era difícil a vida. Hesitante, murmurou:

 

- Não quero muito, 700 escudos por mês já me chegava… 

 

O dirigente que lá encontrou deu-lhe, ríspido, duas alternativas:

 

- O senhor ou assina a ficha já ou põe-se na rua, porque não queremos malandros cá dentro a pedirem-nos dinheiro.

 

Por isso, Francisco Ferreira já nem sequer lhe juntou a outra parte do pedido que levara na cabeça:

 

- … 10 mil escudos pela assinatura e, logo que se pudesse, um emprego melhor do que o emprego de cortador…

 

virou costas num silêncio magoado. Sabendo do que se passara, Ilídio Nogueira, benfiquista do Porto, procurou o Chico para o desafiar para as Amoreiras, largando-lhe de pronto, promessa:

 

- Tudo o que pediste, terás, se fores para o Benfica.

 

Acordou de pronto a mudança, Nogueira mandou-o de «férias» para uma quinta de Valadares. Quatro dias depois, levaram-no de lá para Lisboa. E foi já em Lisboa que, certo dia lhe apareceu, muito sorrateiro, Sebastião Ferreira Mendes, que em tempos fora presidente do FC Porto e continuava a ser uma das suas mais emblemáticas figuras. Levou-o a almoçar, por entre a sopa, exclamou-lhe:

 

- Eu sei, Chico, que lá no Porto te fizeram mal, mal que não merecias, mas foi um mau momento, tens de desculpar. Vais, pois, voltar comigo. Receberás imediatamente 25 contos, terás emprego numa das minhas fábricas, enquanto jogares não precisarás de trabalhar, que o dinheiro estará sempre garantido, garantidos estarão pelo menos 1000 escudos todos os meses ou talvez mais até…

 

Francisco Ferreira replicou-lhe:

 

- Bem sei o bem que me quer fazer, senhor Sebastião, mas apesar de ainda não ter nenhum compromisso assinado com o Benfica, já dei ao Benfica a minha palavra de honra – e, por isso não seria capaz de abandoná-la.

 

Joseph Szabo, que era, então, já treinador do Sporting tentou também desviá-lo para lá, não o conseguiu, Francisco Ferreira largou-lhe, em brado:

 

- Do mesmo modo que já disse que não voltarei ao Porto, digo: só jogarei no Benfica!

 

O FC Porto começou por negar-lhe a carta de desobrigação, mas o presidente do Benfica, sensibilizado pela atitude de Francisco Ferreira – querer cumprir o que acordara apesar de não ter ainda sequer assinado a ficha - para evitar que ficasse de «pernas cortadas», ofereceu aos portistas 13 500 escudos por ela. Fez-se o negócio – e conta-se que ao vê-lo partir da Constituição, alguém murmurou, desolado:

 

- … é a história da asneira de um burro que dá uma pérola a porcos!

 

O resto é o que se sabe: Francisco Ferreira tornou-se ícone no Benfica, um dos seus primeiros imortais jogadores – que só não foi o capitão que foi ao alto da tribuna do Estádio Nacional receber a Taça Latina de 1950 porque, lesionado, não pudera jogá-la.

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