Van Ginkel: mais de 2,5 anos de calvário, inferno de quase uma década

Holanda 14-01-2021 01:14
Por Luís Mateus

982 dias. De 6 de maio de 2018 a 13 de janeiro de 2021. Naquele momento, sentado na relva do Philips Stadium à vista de uma bancada em êxtase e com o sentimento de dever cumprido depois de mais um título conquistado, Marco está longe de imaginar o calvário que se segue. O joelho vai ceder outra vez. Outra vez!

 

Nada a fazer. Operação marcada. É preciso reconstruir o ligamento reconstruído e corrigir mais um problema que aparecera, agora na cartilagem. Oito meses de paragem, avisam. Passam a 18. Depois, 24. Até esta quarta-feira. Hoje, no estádio em que, apesar de tudo, tem sido mais feliz, volta a ter minutos. Três minutos. Os três minutos mais longos da sua vida. Começou a treinar sem limitações em dezembro, as cautelas são poucas. A derrota com o AZ é o único senão.

 

Van Ginkel passou um autêntico calvário nos últimos dois anos e meio, mas a verdade é que vive um verdadeiro inferno há quase uma década. É ainda em Arnhem, no dia 11 de novembro de 2011 e ao serviço do Vitesse, que rompe o menisco. Quarenta dias parado não indiciam qualquer problema de maior, nem impedem que no final da temporada seguinte se transfira, com pompa e circunstância, para o Chelsea de José Mourinho, ao mesmo tempo que um belga, ligeiramente mais velho e com cabelo cor de cenoura, também desembarca de novo em Stamford Bridge. Kevin de Bruyne já tinha assinado ano e meio antes, mas andou a ser emprestado ao Genk, clube pelo qual se formou, e aos alemães do Werder Bremen. Ambos são matéria-prima de excelência para o Special One trabalhar.

 

De Bruyne sai novamente em janeiro e de novo para a Bundesliga, desta vez para o Wolfsburgo, que paga 22 milhões de euros pelo passe. A equipa da Volkswagen depressa percebe a pérola que tem no plantel, e que apresenta especial jeito para fazer passes decisivos (37 assistências em 73 jogos, e mais 20 golos apontados). É inevitável. Mourinho tinha-se enganado. Em 2015, está de volta a Inglaterra, desta vez para o milionário Manchester City, a troco de 76 milhões de euros. Hoje, não há quem não o reconheça, é um dos melhores do mundo.

 

Se o ponto de partida para Van Ginkel é mais ou menos semelhante, ele que é um médio-centro de boa envergadura física, com apetência para o desarme e uma definição de passe de excelência, o cenário torna-se negro no segundo jogo a titular pelos Blues, num encontro da Taça da Liga com o Swindon Town. Uma entrada de Alex Pritchard provoca a torsão e o rosto de dor mostra de imediato que não é teatro, o problema é mesmo sério. Ouve a pior notícia que um jogador pode ouvir: rotura do ligamento cruzado anterior do joelho.

 

Van Ginkel regressa à competição depois de grave lesão no final da época 2013/14 (Foto: Chelsea)

Van Ginkel regressa à competição depois de grave lesão no final da época 2013/14 (Foto: Chelsea)

 

Recupera no final da época, mas perdera o seu momento. É emprestado ao Milan, com a pesada herança de substituir o regista-quarterback Andrea Pirlo e de usar a sua camisola com o número 21. Em outubro, nova entorse, desta vez no tornozelo, fá-lo mais uma vez perder o comboio conduzido por Pippo Inzaghi até perto do fim da temporada. Segue-se o empréstimo a um Stoke que só pensa em pontos para sobreviver, envolvido na transferência de Asmir Begovic, mas perde o lugar ao fim de dois meses. O empréstimo é cancelado, e volta para casa, ou para perto de casa. A 120 quilómetros e a uma hora e picos de distância de Amersfoort está Eindhoven, e o PSV. Finalmente, consegue estabilizar: oito golos marcados, o melhor rendimento em meses e o título de campeão.

 

Espera-se que o empréstimo seja renovado no ano seguinte, mas um post seu no Instagram reconhece más sensações tidas no joelho e fica por Londres. Acaba por renovar com o Chelsea por mais três épocas, apesar de apenas ter participado em quatro jogos pelo clube devido aos recorrentes problemas físicos, e em dezembro volta ao PSV para desta vez ficar ano e meio e deixar os adeptos a pedir à direção que o contratem em definitivo. Bom rendimento, braçadeira de capitão no braço, e 14 golos e quatro assistências na liga justificam os gritos das bancadas. Apelos que terá ouvido várias vezes nesse dia em que levantou a taça de campeão em Eindhoven, antes de nova descida ao inferno.

 

«Marco, queremos que fiques», gritam os adeptos no final do jogo com o Groningen, em maio de 2018 (Foto: PSV)

«Marco, queremos que fiques», gritam os adeptos do PSV no final do jogo com o Groningen, em maio de 2018 (Foto: PSV)

 

Chega o regresso a Londres, nova operação. Os dias passam devagar para quem está de fora. São quase mil dias. Uma eternidade. Pelo meio, um ato de fé. O PSV solicita o terceiro empréstimo, mesmo que no momento em que fecha as malas de viagem não saiba ainda a data do regresso. E depois de tantos deadlines falhados no passado.

 

Em 2013, quando chegou a Stamford Bridge o hype era grande. Os Blues tinham gasto 9,4 milhões de euros no novo Frank Lampard. Hoje treinador principal do Chelsea, o antigo médio também terá sido importante no momento que agora vive aquele que chegou a ser seu colega de balneário. A decisão da cedência terá obviamente passado por ele, e muito provavelmente dado os seus conselhos. Todos querem que Van Ginkel volte a jogar e que nos mostre pelo menos um pouco do que sempre soube. Tem 28 anos, mas todos têm consciência de que os joelhos nunca irão reagir da mesma forma, e de que ele nunca irá cumprir o potencial que chegou a ter. Mas quem tanto lutou durante tanto tempo, na fisioterapia, no ginásio, sem poder tocar numa bola, já agradecia uma ajuda dos deuses do futebol.

 

Mesmo que tenham sido só três minutos, são – repita-se – os três minutos mais longos da carreira do holandês.

 

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LUÍS MATEUS é jornalista, analista e comentador de futebol. Foi diretor do MaisFutebol e editor de desporto da TVI, escreveu para o «Expresso», «Público» e zerozero, e comentou ainda para a TVI, Eleven Sports e TSF. Atualmente escreve e comenta no site e no jornal «A Bola» e n’A BOLA TV. Pode segui-lo no Twitter ou no Facebook.

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