Ouviu-se «lá mataram o Hall!» (e as varizes acabaram com o craque do outro lado)

FC Porto-Benfica 13-01-2021 19:19
Por António Simões

Tendo Cosme Damião a treinador, António Ribeiro dos Reis (o António Ribeiro dos Reis que haveria de fundar A BOLA com Cândido de Oliveira e Vicente de Melo) despediu-se de jogador do Benfica a 18 de Janeiro de 1925 -  no Campo da Palhavã, na quinta jornada do Campeonato de Lisboa, ganhando por 3-0 ao Belenenses. No centro do terreno juntaram-se-lhe companheiros e adversários, José Bentes Pimenta, o capitão de equipa, leu-lhe, emocionado, discurso de saudação – e, em seu nome e dos demais, ofereceu-lhe um tinteiro de prata.

 

Sim, Ribeiro dos Reis já era, então, jornalista de renome – e essa foi a razão do tinteiro. Mas era mais do que jornalista de renome – e como treinador do Benfica, no lugar de Cosme Damião, se estreou a 17 de Outubro de 1926, exatamente no mesmo cenário, na Palhavã, mas com resultado bem diferente: 1-3. Semelhante, o facto de o Benfica continuar sem ganhar nada, aliás, nessa época ficou-se pelo quinto lugar no Campeonato de Lisboa, atrás do V. Setúbal, do Belenenses, do Carcavelinhos e do Sporting. Nas duas vezes seguintes, duas vezes foi segundo no Campeonato da AFL - e no fecho da temporada de 1928/29 Ribeiro dos Reis não era apenas treinador do Benfica, era seu vice-presidente também, presidente era Alfredo Ávila de Melo, o cunhado – e foi ele próprio, o António Ribeiro dos Reis, quem decidiu ir contratar ao Vitória de Setúbal o inglês Arthur John – que teria como missão ser também massagista de todas as outras modalidades.

 

José Pimenta deixou de jogar no Benfica, tornou-se piloto, o avião caiu e ele não morreu

 

José Pimenta deixara de jogar meses antes para tirar brevet de piloto – e, tendo patente de tenente, a 8 de janeiro de 1929 só por milagre escapara à morte. Levando para um treino Arantes Pedroso, o Avro 3 atingira 50 metros de altura quando, de súbito, se despenhou – «por paragem do motor». Retirados dos destroços, levados para o Hospital de Santa Marta, repórter do Diário de Lisboa apanhou de Pimenta (que lá chegara «apenas com uma ferida contusa no maxilar e no malar direito para além de uma comoção cerebral»:

 

- A nossa sorte foi termos sido atirados para fora do avião. De outra forma estaríamos com os ossos num feixe...

 

No Campo das Amoreiras tinham-se gasto 30 contos para se fazer a cobertura das bancadas com chapas de zinco, para se construírem dois balneários (num deles instalou-se um telefone até…) e para se vedar o terreno de jogo – e se essa época de 1929/30 começara em agitação, terminou em encanto.

 

No Campeonato de Lisboa de 1929/30, o Benfica parecia estar a vencer todos os seus fantasmas, ganhou ao Belenenses, saltou para o topo da classificação, mas à 12ª jornada, sem poder contar com António Pinho e Vítor Silva (que em 1928 fora contratado ao Óquei de Portugal por... 15 contos), ambos doentes, empatou com o Casa Pia, treinado por Cândido de Oliveira – e o Restelo agitou-se em batalha campal. Carlos Monteiro, o árbitro de Setúbal, não validou golo que António Roquete (o António Roquete que, por essa altura, já trabalhava como agente da PVDE, a polícia política que haveria de dar lugar à PIDE…) defendeu dentro da baliza – e pôs os adeptos do Benfica em ebulição e ira. Logo a seguir, Guedes Gonçalves chocou com um jogador do Casa Pia, João de Oliveira correu a tirar desforço e os dois jogadores envolveram-se em cena de pugilato. Foram expulsos. Oliveira, desorientado, agrediu o árbitro a pontapé, teve de ser retirado de campo pelos companheiros – quando os tumultos já se tinham espalhado. À cautela, esperando que o Belenenses escorregasse também, o Benfica protestou o jogo – alegando ter marcado um golo claríssimo que o árbitro não considerou. Se lhe fosse dada vitória contra o Casa Pia, o Benfica voltaria ao primeiro lugar…

 

Depois da manifestação dispersada a cassetete, sócios queriam que o Benfica abandonasse todas as competições

 

Dois dias antes de a AFL analisar o protesto, benfiquistas concentraram-se em manifestação junto da sede da associação - e O Século noticiou-o:  «Junto à entrada da Associação, a Polícia a custo conteve a multidão que, por vezes, fazia ouvir, energicamente, os seus protestos. Como na rua a aglomeração fosse grande, a ponto de prejudicar o trânsito e a boa ordem, saiu o piquete de serviço do Governo Civil que, pouco a pouco, conseguiu dispersar a multidão, não permitindo, depois, agrupamentos no citado largo».

 

Não, a AFL não aceitou o protesto – e aplicou castigos a vários jogadores benfiquistas, o mais duro coube a João Oliveira, punido com oito meses de suspensão. Ao sabê-lo, o Benfica convocou Assembleia Geral de emergência. Alfredo Silveira Ávila de Melo, o presidente, arrasou o árbitro, acusou-o de «falta de categoria, de falta de honestidade desportiva, de falta de capacidade de decisão» e de «nele só existir espírito de vingança».

 

Os sócios queriam que o Benfica «abandonasse de imediato todas as provas oficiais» - e para compensar a quebra nas receitas até se comprometeram a cada qual uma quota adicional de cinco escudos. Ficou a direção de decidir – o que fazer. O presidente inclinava-se para o boicote, os seus companheiros de direção não. Foi essa a decisão que vingou – e a derrota do Benfica com o Chelas na última jornada apagou qualquer dúvida em relação ao Campeonato de Lisboa, pois, o Belenenses venceu-o com três pontos de vantagem, mas permitiu que o Benfica fosse ao Campeonato de Portugal.

 

Nesse Campeonato de Portugal de 1929/30, o Benfica foi deixando pelo caminho o União Operário de Santarém, o Casa Pia AC, O Carcavelinhos e o União de Lisboa – e, na final, já com João Oliveira amnistiado pela AFL, surgiu-lhe o Barreirense dos irmãos Pireza, que eliminara o Belenenses. Jogou-se a 1 de Junho de 1930, no Campo Grande, a vitória por 3-1 só se deu no prolongamento e esse foi o primeiro título nacional que o Benfica conquistou.

 

Com a nova época no seu coreer, a guerra do Benfica com a AFL não amainou. A AFL estava em conflito com a FPF também – por causa de um jogo entre Portugal e a Checoslováquia. A associação comunicou que só aceitaria que jogadores de clubes de Lisboa fossem integrados na seleção se se treinassem na cidade, se na cidade fosse o Portugal-Itália que estava também em perspetiva e se a receita líquida do jogo revertesse a favor do Cofre de Beneficência do Governo Civil de Lisboa – e réplica da federação foi suspender a AFL de todos os direitos de filiada. Em contra-ataque, a associação deu aos seus clubes ordem para que boicotassem o Campeonato de Portugal de 1930/31. Ávila de Melo achou que sim, que era o que o Benfica devia fazer, mas não quis tomar de pronto a decisão, levou-a a Assembleia Geral e o que da Assembleia Geral saiu foi o que se resumiu numa frase:

 

- Seria imoral que o Benfica não fosse defender em campo o título de campeão que detém, por isso vamos defendê-lo em campo.

 

Sentindo-se desautorizado, Ávila de Melo demitiu-se de presidente. No seu lugar era para ficar Félix Bermudes, acabou por ficar Manuel da Conceição Afonso, então encadernador da Imprensa Nacional, operário e sindicalista (e, por isso, declarado opositor da Ditadura Militar que a cada dia que passava afiava as suas garras, mesmo com Salazar ainda só Ministro das Finanças…)

 

AFL suspendeu o Benfica (e o Casa Pia AC), mas a FPF não admitiu o castigo e por isso os encarnados defenderam título de campeão de Portugal

 

Ofendida pela inscrição do Benfica no Campeonato de Portugal, a AFL suspendeu o clube por um ano e por um ano também o Casa Pia AC que havia decidido solidarizar-¬se com os benfiquistas - e todos os outros clubes de Lisboa cortaram relações com ambos. A FPF avisou que o Benfica e o Casa Pia AC não estavam nada suspensos – porque a AFL não poderia castigar, que ela sim é que estava castigada com pena de suspensão. E foram, assim, os dois  ao Campeonato de Portugal.

 

O Benfica entrou na aventura batendo o Estrela de Portalegre por 8-3. Nos oitavos-de-final, o FC Porto afastou o Casa Pia – e o Benfica penou para se livrar do Olhanense. Na primeira mão, nas Amoreiras, venceu por 5-1. Em Olhão perdeu0-2 – e, nesse jogo da segunda mão, no último minuto, Montenegro, avançado do Olhanense agrediu o árbitro à bofetada e ao pontapé, saiu de campo em braços, com sangue a escorrer-lhe no rosto.

 

O desempate fez-se em Setúbal - e ao fim dos 90 minutos, o resultado era 1-1. No prolongamento, mal o Olhanense fez o 2-1, o árbitro, em antecipação da regra da «morte súbita», deu o jogo por encerrado, apesar de ainda faltarem 10 minutos para os 120. Como nem os próprios jogadores do Benfica conheciam bem os regulamentos - convencidos de que tinham perdido o acesso aos quartos-de-final, mantinham-se cabisbaixos, enquanto se desequipavam. Até que apareceu Ribeiro dos Reis a dar-lhe, num clamor, nova alma (e sorrisos):

 

- Então, o que há? Os períodos suplementares são de 30 minutos, o Benfica vai protestar e ganhará com certeza o protesto.

 

Assim foi: a 27 de Maio, do quarto jogo contra o Olhanense, saiu o Benfica com vitória por por 2-0. Bem mais tranquilos os quartos de final com o Lusitano de Évora: 7-0 e 4-2 – e naturais as meias com o V. Setúbal: 3-0 e 2-1. 

 

Com o FC Porto derrotado, escreveu-se: «Não houve bicha luminosa que não entoasse: olha o balão, olha o arraial, olha o Benfica campeão de Portugal»

 

Antes da final desse Campeonato desse Portugal de 1930/1931, no Campo do Arnado, em Coimbra, o FC Porto queixou-se de «manhas e artimanhas» que impossibilitaram que pudesse utilizar Pinga, o Artur de Sousa que fora buscar ao Marítimo, mas cuja transferência continuava por autorizar. Era a primeira vez em que ambos os clubes se defrontavam oficialmente, os benfiquistas ganharam-no por 3-0, com dois golos de Vítor Silva e um de Dinis – e, em Vinte Anos de Futebol em Torneios da Federação, Ricardo Ornelas e Rebelo da Silva escreveram: «O encontro decorreu sem que nada o ofuscasse como desafio importante. A vitória pendeu para Lisboa normalmente, como reflexo da maior rapidez sobre a bola, energia infatigável e ação particularmente feliz dos trunfos mais valiosos da equipa. Os encarnados não estiveram com azáfama em nenhum período da partida, passada que foi uma jogada perigosa criada pelos portuenses logo no começo do desafio. Em véspera de São Pedro, como se estava, os bailes populares e as marchas de Lisboa logo adaptaram poesia alusiva à vitória. Por isso, toda a noite, não houve bicha luminosa que não entoasse: «Olha o balão, olha o arraial! Viva o Benfica — campeão de Portugal!»

 

200 quilómetros a pé de Lisboa a Coimbra para ver o Benfica ganhar...

 

Lisboa tinha por essa altura cerca 100 mil pobres. Pelo país inteiro, a mortalidade infantil roçava os 149 por mil. Os mais bem pagos salários da indústria (os da refinação do açúcar) andavam pelos 18 escudos, mas estudo de Daniel Barbosa que pouco depois se tornaria Ministro da Economia concluía que uma família-tipo (pai, mãe e três filhos) precisaria de 57 escudos para «viver com o estritamente necessário» - e o embaixador de Inglaterra chocava-se em relatório oficial:

 

- Arrepiante ver os pobres a apanhar as sobras de palha que caiem da alcofa de algum cavalo impaciente, e as crianças, de manhã, a fazer a ronda dos caixotes do lixo à porta das casas.

 

Insólita atração em Coimbra também foi Júlio Pinto Barbosa. Ainda não tinha 15 anos – e era engraxador em Lisboa. Cinco dias antes do Benfica-FC Porto atirou-se ao caminho, a pé. Durante os mais de 200 quilómetros do percurso – não parou de trabalhar. Sempre que assomava a uma vila, a uma cidade, oferecia os seus préstimos, foi assim que arranjou dinheiro para a comida, dormir – dormia onde calhasse, um banco de jardim, uma sombra de árvore. Ao saberem da odisseia – os jogadores do Benfica juntaram dinheiro entre si para lhe pagarem o bilhete de comboio de regresso a Lisboa...

 

Não muito depois da euforia da vitória sobre o FC Porto, Aníbal José, defesa que o Benfica despachara para o Vitória de Setúbal, contou, magoado, à Stadium:

 

- Deixei o Benfica quase por imposição de Vítor Silva — a pretexto de ser indisciplinado, incorreto... Eu era acusado de incorreto e de não querer obedecer-lhe, mas, aquando do desafio entre o Benfica e o FC Porto, em Coimbra, na final do Campeonato de Portugal, era o Norman Hall o melhor jogador portista, podendo estorvar o Benfica. Vítor Silva, o capitão de equipa, veio ter comigo e disse-me: Ó Aníbal, dá uma grande pancada no Hall, inutiliza-o, quando não estamos perdidos! Eu imediatamente fui ao seu encontro e desanquei-o de tal maneira que os rapazes no campo disseram: Lá mataram o Hall! O certo é que logo a seguir o Benfica fez dois goals, de nada valendo vir o desgraçado do Hall para ponta esquerda, visto que nada podia fazer... E na outra parte metemos outro goal, ficando o resultado em 3-0.

 

Aconteceu também o que haveria de acontecer com Jorge Jesus. Presidente do Sporting era um médico dentista, oficial da Marinha: o Comodoro Joaquim Oliveira Duarte – e foi ao Benfica buscar o treinador campeão sem que ele nada ganhasse por lá…

 

A estrela do Benfica e a casa pobre à sombra do Campo das Laranjeiras

 

Muito mais do que só estrela do Benfica, desse Benfica era Vítor Silva – que o destino haveria de trair num suplício de varizes. Ele, o Vítor Marcelino da Silva, nascera em 1909 – e aos dois anos os pais mudaram-se para uma casa pobre à sombra do Campo das Laranjeiras, onde o CIF, clube dos irmãos Pinto Basto, os que trouxeram as primeiras bolas de futebol de Inglaterra para Portugal, jogava:

 

- Nos dias de treino, lá ia eu, de cambulhada com a rapaziada. Púnhamo-nos atrás das balizas, eu e o meu irmão Pedro éramos dos mais atrevidos na apanha da bola, só para a chutar quando ela saía do campo. E eu chutava-a de tal forma que, os jogadores do CIF, por piada, começaram a dar-me bolas para eu chutar – e um dia fizeram mais, chamaram-me para jogar com eles num treino.

 

O destino abriu-se-lhe ainda com mais encanto nos seus caprichos numa tarde em que o CIF estava para jogar com o Vitória de Setúbal desafio de segundas categorias. Ainda não tinha 14 anos e levaram o Vítor com eles – porque Gentil dos Santos, o guarda-redes, não pôde alinhar, estava de partida para os Jogos Olímpicos…

 

(Filho de uma guineense e de um português, Gentil dos Santos nascera em Bolama, a 19 de maio de 1899 em Bolama. Aos 18 anos, o pai mandou-o para Lisboa, para o curso de veterinária – e logo se percebeu o talento que tinha. Fez-se atleta no CIF, não era só atleta, também jogava futebol.  Correu os 100 metros nos Jogos de Paris, também foi árbitro, árbitro de futebol – e, no final desses loucos anos 20 já deixara o atletismo e resto, fora trabalhar para a roça de um padrinho em São Tomé. Depois, foi viver para Angola, de Angola saltou para Moçambique…)

 

No que deu não ter dinheiro para o bilhete do Eléctrico que o levasse a teste no Benfica

 

Pouco depois desse seu primeiro jogo no CIF, o CIF acabou com o futebol no seu seio – e Vítor Silva foi oferecer-se ao Hockey Club de Portugal, o outro clube de Sete Rios:

- … tinha de ser ali porque não tinha dinheiro para os transportes, o que eu mais queria era ir fazer teste ao Benfica, mas infelizmente não podia!

 

No Hockey, Bento Beirão percebeu-lhe de pronto o destino, mostrou-lho assim ainda não como haveria de sê-lo, fulgurante:

 

- … a partir de hoje vais ser interior, interior direito!

 

Vítor Silva achou que lhe estava a anunciar que seria o interior direito da equipa infantil, mas não: ainda não tinha 15 anos e Bento Beirão decidira pô-lo na equipa principal:

 

- … ao fim de dois ou três jogos, passei para avançado-centro e nunca mais de lá saí!

 

A avançado centro jogava futebol – e a avançado centro também jogava hóquei em campo:

 

- Não deixavam, porém, de me pôr igualmente nos jogos da equipa infantil, num deles aconteceu-me episódio inacreditável. Como nos faltou o defesa direito, fui eu para lá – e como estava tão habituado a chutar à baliza, num mau momento chutei para a nossa, foi golo, golo do Belenenses, o Belenenses ganhou-nos por 1-0 e, nesse jogo, pelo Belenenses jogou o Pepe, o desgraçado Pepe que haveria de morreu envenenado pelo maldito pedaço de chouriço da sopa…

 

Como Ribeiro dos Reis evitou que o destino de Vítor Silva fosse o Carcavelinhos (e com 500 escudos por mês do Benfica, continuou estofador)

 

Chegou-se a 1927, Carlos Guimarães, o guarda-redes que jogara, contra a Espanha, o primeiro jogo da seleção nacional, estava, nesse ano, no Carcavelinhos – e não descansou enquanto não convenceu os seus dirigentes a irem ao Hockey buscá-lo, afiançando-lhes:

 

- Só de uma coisa se poderão arrepender: de não trazerem o miúdo para aqui, talvez nunca tenha havido em Portugal jogador como ele pode ser.

 

Emprestado pelo Hockey Club, Vítor Silva ainda fez, pelo Carcavelinhos, torneio em que também estavam Belenenses, Sporting e Benfica. Ribeiro dos Reis ficou tão entusiasmado com ele – que decidiu contratá-lo de pronto. Para isso, o Benfica fez o que nunca se fizera em Portugal: deu 15 contos ao Óquei pela sua «carta de desobrigação». E a ele, ao Vítor Silva prometeu-lhe subsídio mensal de 500 escudos. Tinha 18 anos, Continuou a trabalhar onde já trabalhava: como estofador de automóveis. Pelo Benfica estreou-se no primeiro dia de 1928, num jogo particular contra o FC Porto, o Benfica ganhou por 4-1 – e meses depois Cândido de Oliveira levou-o aos Jogos Olímpicos. Dele haveria de dizer, na hora dura do seu adeus:

 

- Foi a mais prodigiosa intuição para o futebol que jamais conheci. De uma rapidez de execução absolutamente fulgurante, valorizada sempre pelo cunho de imprevisto que punha na jogada, não denunciando, nunca, ao adversário, o que ia fazer…

 

Mal chegou à seleção, J. Miquellarema escreveu no jornal espanhol ABC, que Vítor Silva era a «bala roja», o «homem mais perigoso de Portugal».  Ainda mais famoso foi ficando pelos golos que foi marcando como, antes, se não viam: em golpes de cabeça, a que se chamaram:

 

- … os saltos de peixe do Vítor. 

 

De 500 escudos passou a receber 1000 por mês – e era um luxo no futebol receber-se assim, então. Uma bicicleta Raleigh («as melhores no mercado») podia comprar-se a 12 prestações de 59 escudos. Ao cinema ou ao Parque Mayer ia-se, então, normalmente, por 25 tostões (que era como se chamavam aos 2 escudos e 50 centavos) – e, às vezes, por menos do que isso se ia ao futebol. Consoante a importância dos jogos, ao longo do campeonato, as gerais venderam-se (fora da candonga, cada vez mais perigosa de se fazer, claro…) entre os 2 e os 5 escudos; as laterais entre os 4 e os 12; as centrais entre os 6 e os 15. As cadeiras ficavam pelos 25 escudos, os camarotes podiam iam de 36 a 175 escudos – e se a entrada se fizesse por senhas individuais, cada senha oscilava entre os 12 e os 25 escudos. Nalguns casos, fazia-se diferença, punham-se à venda «bilhetes de senhora» - e esses ou eram a 4 ou a 5 escudos – e difícil já era almoçar-se ou jantar-se na Baixa por 5 escudos apenas.

 

Campeão de Portugal pela terceira vez foi Vítor Silva em 1934/1935 (em que o campeão da I Liga foi o FC Porto) – e a penar com uma flebite, sabendo-se já condenado a deixar o futebol, em dor o decidira Vítor Silva:

 

- Apesar destas malditas varizes, vou até ao fim, até fazer do Benfica campeão hei de ir, mesmo custando o que me vai custar.

 

Custou muito, o Benfica ganhou mesmo o campeonato da Liga, o primeiro da sua história da sua história – e logo depois fez-se a Festa de Despedida de Vítor Silva que não tinha 28 anos ainda…

 

Final do Campeonato de Portugal 1930/1931

Campo do Arnado, Coimbra

28 de junho de 1931

BENFICA – Artur Dyson; Ralph Bailão e Luís Costa; João Correia, Aníbal José e Pedro Ferreira; Augusto Dinis, Emiliano Sampaio, Vítor Silva, João de Oliveira e Manuel de Oliveira

Treinador: Arthur John

FC PORTO – Miguel Siska; Avelino Martins e Pedro Temudo; Filipe dos Santos, Álvaro Pereira e Anaura; Lopes Carneiro, Valdemar Mota, Norman Hall, Acácio Mesquita e Castro

Treinador: Joseph Szabo

Golos 1-0: Vítor Silva (37), 2-0: Augusto Dinis (44); 3-0: Vítor Silva (65)

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