«Os dinamarqueses usam a praia de uma maneira diferente» - Pedro Ferreira

A BOLA FORA 10.01.2021 15:57
Por Tânia Ferreira Vítor

Hygge. É uma das palavras mais utilizadas na Dinamarca que remete para um conceito de felicidade. Tanto pode significar ter uma noite agradável com amigos, com muitas risadas e uma chávena de chocolate ou de vinho quente; como pode significar ler um livro no aconchego de uma manta. Hygge é felicidade e felicidade na Dinamarca é um assunto sério. Para os adeptos do Aalborg, assistir às exibições do português Pedro Ferreira também pode ser um momento hygge. O médio entrou para o onze ideal do ano. Tem contrato com o Aalborg (também conhecido como AaB) até 2024.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

- Estava à espera que a Patrícia se acabasse de arranjar e tinha o caõzito a dormir nas minhas pernas.


- Antes de mais, Feliz Ano Novo. Acabaste 2020 em grande com o teu nome no onze do ano da liga dinamarquesa.

Sim, acho que é muito bom para mim, tendo em conta que estou aqui há cinco meses. A adaptação está a correr muito bem. Estou a gostar do clube, do país e estou satisfeito com o meu rendimento dentro de campo até agora [12 jogos].


- Como é que surgiu o interesse do Aalborg?

- O meu empresário ligou-me, falou-me desta possibilidade e, entretanto, comecei a falar com a Patrícia e com a família para saber o que achavam. Percebi que seria um passo importante na minha carreira e decidi aceitar. Não houve muita hesitação, porque achei mesmo que poderia ser bom para mim.


- O futebol dinamarquês é mais físico do que o português. Fizeste ou estás a fazer algum trabalho extra específico?

- Quando eu cheguei, estava muito mal fisicamente, porque estava parado desde março. A Liga 2 não voltou à competição como a Liga, então vinha de uma longa paragem. Quando comecei a treinar foi um choque. Eu era sempre o pior nos testes físicos. Mas quando começaram os jogos amigáveis fui ganhando preparação e aí passei a aguentar os 90 minutos. Depois, entrei bem no primeiro jogo oficial e ganhei confiança. Hoje estou adaptado ao futebol daqui.


- Os treinos são muito diferentes dos que tinhas em Portugal?

- Os treinos e métodos são parecidos, a grande diferença é que no final trabalhámos a parte física, fazemos muitos sprints, muitos exercícios de resistência. Em Portugal não se costuma trabalhar tanto isso, pelo menos nos clubes onde eu passei.


- Devido à paragem de inverno, o Aalborg prepara agora a segunda metade do campeonato, ou seja, estás a ter uma segunda pré-época…

- Sim e está a ser difícil: muita corrida, muito treino físico. Como temos um treinador novo - Marti Cifuentes - toda a gente quer mostrar serviço, então os treinos estão a ser duros e intensos. Há possibilidade de irmos para Malta ou Marbella no dia 15 deste mês para dez dias de estágio.


- E como é que está a correr a adaptação de um emigrante de primeira viagem a um país escandinavo? Imagino que a pandemia torne o dia a dia mais difícil…

- Tem sido uma experiência, porque estamos num país novo, outra língua, outra moeda, com um clima muito diferente do de Portugal. Por causa da pandemia ainda não tivemos oportunidade de conhecer muita coisa, mas gostamos da cidade - tem muita natureza e espaços ao ar livre. E claro que se não fosse a pandemia, a experiência estaria a ser ainda melhor, porque podíamos conviver com os meus colegas de equipa e com as suas famílias.


- E sentes-te integrado no grupo de trabalho?

- No primeiro mês senti-me um bocado perdido, porque eu vim sozinho, a Patrícia não veio logo comigo e eu não estava à vontade com o inglês. Sou uma pessoa reservada, gosto de estar no meu canto e no início ficava um bocado à parte. Agora estou mais à vontade com a língua e já me dou bem com toda a gente. Temos um bom balneário!


- És natural de Vieira de Leiria, por isso, imagino que seja bom ter o mar por perto, mesmo que seja o Mar do Norte [risos]…

- Sim! Temos uma praia a meia hora de casa. Um dia, fomos lá passear, mas é engraçado que os dinamarqueses usam a praia de uma maneira diferente. É certo que já estava frio e era impossível fazer praia, mas eles vão com o carro para dentro do areal e depois ficam ali a olhar para o mar ou a conviver. Os dinamarqueses passeiam muito ao ar livre e as pessoas não tem o hábito de ir ao shopping ao fim de semana como os portugueses. Ao sábado, as lojas fecham às três ou quatro da tarde e ao domingo está tudo fechado.


- Há vários estudos que dizem que os dinamarqueses são dos povos mais felizes do mundo. Sentes isso?

- Mais ao menos…. Nota-se que as pessoas têm uma boa qualidade de vida, mas depois há uma coisa que nos faz alguma confusão que é a parte solar: amanhece muito tarde e às três e meia da tarde já é noite. Mas eles estão habituados e é normal. Têm ordenados acima da média, o país é muito seguro e, por isso, acho que têm motivos para isso.


- Vamos recuar um pouco no tempo. Fizeste a tua formação em casa, em Leiria, até chegares ao Sporting, nos iniciados, certo?

- Sim. Comecei a jogar futebol no Vieirense aos cinco anos, aos onze fui para a União de Leiria onde fiquei um ano e aos treze cheguei ao Sporting.


- E como é que surgiu o interesse leonino? Em algum torneio?

- O meu treinador na União de Leiria fazia parte do grupo de recrutamento do Sporting e um dia levou-me a uma daquelas captações com uma data de miúdos - lembro-me que foi no dia 1 de dezembro. Fui chamado à segunda fase que aconteceu no dia 8 e eles gostaram de mim. Quando somos infantis, continuamos a treinar na equipa da nossa cidade e só ao fim de semana é que vamos jogar pelo Sporting. Mas como eu estava a jogar pelos iniciados A na União de Leiria e estávamos a jogar o campeonato nacional, decidiram que para mim não seria benéfico. Então, só comecei a jogar pelo Sporting no final dessa época. Antes disso, também já tinha ido treinar ao Benfica e ao Porto, mas não fiquei. 


- Pegando nessa última confidência: de que forma é que um miúdo sente a frustração de não ser escolhido, como te aconteceu no Benfica ou no FC Porto?

- É complicado um miúdo ir treinar no meio de tantos jogadores e não ser escolhido. Depois é normal começarmos a comparar-nos com o colega que foi selecionado e às vezes até fica o sentimento de que merecíamos mais. Mas a vida é mesmo assim… Às vezes só há uma oportunidade e é essa que temos de agarrar, felizmente eu tive a sorte de ter tido três. Agarrei uma! Nessas ocasiões, é muito importante ter o apoio dos pais.


- E como é que foram esses tempos na Academia de Alcochete?

- A Academia foi a minha casa desde os treze até aos dezoito anos. Chorei muito nos primeiros seis meses. Ligava todas as semanas à minha mãe a dizer-lhe que queria voltar para casa e que não queria mais ficar ali. Ela dizia-me para ter calma, mas cada vez que ia a casa não queria mais voltar para a Academia. São momentos duros para uma criança. Houve um Natal em que estava mesmo decidido a ficar em Vieira de Leiria. Tive uma conversa séria com a minha mãe, mas ela meteu-me na cabeça que deveria lutar pelo meu sonho e que estar no Sporting era o mais acertado, mesmo que ela preferisse ter-me em casa. E assim foi. Em janeiro voltei e nunca mais pensei em desistir depois dessa conversa. Foram meses muito complicados para mim, mas também para os meus pais.


- E tinhas um plano B na cabeça ou eram saudades de casa?

- Não, não tinha plano nenhum. Tinha saudades dos meus amigos, da família e da minha cidade. Sentia que na Academia estava preso, entre aspas, claro.


- A tua geração trouxe alguns nomes com muita qualidade como o Jovane, o Rafael Leão ou o Palhinha. Manténs contacto com os teus colegas?

- A geração que está a aparecer em força agora é um ano anterior à minha, é a geração de 99 - o Maximiniano, o Daniel Bragança, o Rafael Leão, o Thierry e o Jovane que já é do meu ano. Continuo a falar com todos.


- Completada a tua formação, estiveste um ano na equipa B do Sporting (sem jogar) e depois foste emprestado ao Mafra da Liga 2 onde tiveste a oportunidade de mostrar trabalho. É depois desse empréstimo que rescindes com o Sporting para assinar em definitivo pelo Varzim. Foi uma decisão fácil?

- Foi, porque eu não via um futuro risonho no Sporting. Tinha acabado de ter duas lesões graves, de ser operado duas vezes - parti as duas canelas e parti o quinto metatarso. Além disso, vi que não era aposta, depois fiz uma época mais ao menos no Mafra e tenho de ser honesto e dizer que não me evidenciei muito. Por isso, decidi arriscar e rescindir.


- E já li elogios ao Varzim noutras entrevistas. Foi uma experiência positiva?

- Eu gostei muito do clube e do grupo de trabalho. Foi um ano muito importante para mim. Já disse isto, mas vou repetir porque é a verdade: antes eu não era um jogador agressivo, gostava mais de ter bola, mas aprendi a sê-lo no Varzim. Ganhei a agressividade que agora se nota no meu futebol. É um clube com muita raça e paixão, os adeptos são muito presentes e põem muita pressão.


- E é da Póvoa de Varzim que sais para Aalborg. Alguma vez imaginaste que uma época ia bastar para dar o salto para o estrangeiro?

- Sinceramente não. Os jogos estavam a correr-me muito bem, estava satisfeito com o que estava a fazer, mas achei que podia ter uma oportunidade na Liga, por exemplo. Não me passou pela cabeça ir tão cedo para o estrangeiro, mas surgiu a oportunidade e estou feliz.


- O que é que te atraiu na proposta do Aalborg?

A parte financeira foi importante, porque devido ao Covid-19, os clubes de meio da tabela estavam e estão com mais dificuldades e não havia muitos que quisessem pagar o que o Varzim pedia por mim. Então, ou ficava no Varzim ou tinha de ir para o estrangeiro. As pessoas podem achar que não, mas o campeonato dinamarquês é bastante competitivo e é muito bom.


- À semelhança dos outros países europeus, a Dinamarca também tem lidado de uma forma bastante apertada com a pandemia. Como está a situação aí?

- Olha, no Natal chegou a ter cerca de quatro mil casos por dia e agora o número anda nos mil e tal. A máscara é obrigatória na rua e está tudo fechado até dia dezassete de janeiro - restaurantes, cafés e comércio.


- E é permitido público nos estádios, mesmo com restrições?

- Só são permitidas duzentas pessoas por jogo, é muito pouco mesmo. Às vezes, ponho-me a ver vídeos de anos anteriores em que o estádio estava lotado [leva 13 mil pessoas]. Fico com pena e espero que em breve tudo volte ao normal.


- Tens acompanhado o campeonato português e a boa campanha do Sporting, casa onde fizeste a maior parte da formação?

- Estou a acompanhar e fico muito contente, porque é o clube onde fui formado e onde tenho vários amigos a jogar na primeira equipa. Fico contente por eles estarem a fazer o que estão a fazer.


- Consegues nomear o melhor onze da primeira volta?

- É difícil, mas vou tentar. Então: guarda-redes, Adán; defesa-direito, Porro; os centrais, Coates e Pepe; defesa-esquerdo, Nuno Mendes; no meio, Palhinha, Sérgio Oliveira e Pedro Gonçalves, à frente, o Paulinho e o Ricardo Horta do Braga e como ponta de lança o Darwin Núñez. O melhor treinador da primeira volta? Para mim, o Rúben Amorim!


- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?

- O jogo do ano passado contra o Varzim para a Taça. Foi no Dragão e perdemos 2-1.


«Não há água de garrafa nos supermercados»


Conheceram-se numa saída à noite em Leiria, com um grupo de amigos em comum e estão juntos há pouco mais de um ano e meio. Patrícia tinha acabado de mudar-se para a Póvoa de Varzim, onde trabalhou numa loja até embarcar nesta aventura que teve a Escandinávia como destino. «Conheci o Pedro na altura da rescisão do Sporting, por isso fui-me preparando para esta mudança. A partir do momento em que comecei a namorar com ele sabia que a profissão envolvia mobilidade geográfica - faz parte de ser mulher de jogador de futebol. Não imaginava é que fosse tudo tão rápido, mas estou disposta a segui-lo para onde quer que seja», declara.


E é com entusiasmo que a jovem de 24 anos, natural de Leiria, encara este desafio. «Claramente será bom para o desenvolvimento pessoal individual e enquanto casal, porque estamos aqui os dois sozinhos. Estamos sem o apoio dos nossos pais, dos nossos amigos. Temos de voltar a ser independentes e ainda por cima num país que não é o nosso e que mal conhecemos», refere.


Quando lhe perguntei sobre as diferenças culturais ou sociais, a água engarrafada veio logo à tona: «Aqui, não há água de garrafa nos supermercados. Já percorremos uns seis ou sete supermercados e não encontrámos. Em Portugal, a maioria das pessoas bebe água engarrafada, aliás há da marca X e Y, de sabores, etc. Aqui não. Os dinamarqueses só bebem água da torneira. A comida também é diferente, é mais deslavada por assim dizer - é simples. Nós estamos habituados a uma culinária mais elaborada e há ingredientes que não encontramos aqui. Mas tudo se resolve e vamo-nos adaptando.»


Em relação ao idioma dinamarquês, pouco sabem. A prioridade é o inglês, língua universal. «O Pedro já não tinha contacto com a língua inglesa há muito tempo, nunca precisou, basicamente. Mas no início da época passada, dividiu casa com o Lumeka [jogador inglês do Varzim] e acredito que isso o tenha ajudado a perder a timidez. Este ano foi obrigado a desenrascar-se. Temos visto séries e filmes em inglês sem legendas para melhorarmos e já se nota uma evolução grande. Eu não sou fluente, mas falo bem, por causa do atendimento ao público nas lojas», conclui.

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