Os cantadores das Janeiras e dos Reis e… a Dança do Menino (artigo de José Neto, 116)

Espaço Universidade 02-01-2021 15:37
Por José Neto

Nota de abertura – Costuma-se dizer que o que é fácil lembrar para quem tem memória, é difícil esquecer para quem tem coração. Deste modo pretendo cultivar a minha memória, fazendo um regresso ao passado, convertendo a vida feita de estórias, neste caso, entre gente humilde da terra que me ajudou a crescer e da qual muito me honra ter sido também sua pertença.

Pode ter sido este conto em tempos objeto de publicação, mas anoto algumas reflexões de conteúdo, o que lhe acaba por conferir uma prova de reedição:

 

Uma pandeireta sem fundo, a roda de aço suspensa na baraça do pião e uma harmónica de beiços que “gemia” em agonia três ou quatro notas soltas perfazia o instrumental que servia de fundo a meia dúzia de vozes franzinas que rompiam por entre o silêncio das noites gélidas cercadas pelo luar dum janeiro a nascer:

 

«Olhei para o céu, estava estrelado

Vi o Deus Menino em palhinhas deitado

Em palhinhas deitado, em palhinhas estendido

Filho duma rosa e dum cravo nascido»

 

Ou

 

«Pastorinhos do deserto

Correi todos, vinde ver

A pobreza da lapinha

Onde Cristo quis nascer»

 

Depois do cântico “dos vivas” aos senhores da casa e dos seus meninos, gerava-se a expectativa no grupo. Olhos fitados numa janela com a luz a espreitar, era o estender de mãos à procura dum “trocadito” que era lançado com algumas recomendações: – “olhai lá se prá próxima, trazeis uma gaita mais afinada!” …ou: – “anda por aí uma voz que até mete medo!” …ou, na melhor das hipóteses: - “muito bem, por isso lá vão 25 tostões!”…
 

O giro estava traçado – saímos da Igreja, vamos ao Sr. Abade (P.e Ramiro) – “Oh!… dali só vêm restos de hóstias e bolachas Maria (das pequenas)”, refilavam alguns…Bom, depois vamos por Vale de Suz ao Sr. Urbaninho – “isso, isso” – animados com a certeza de melhor oferta. Seguimos pelo 5 merreis – “eh lá, isso não, que ele solta os cães!”, balbuciavam outros… Depois, damos um salto ao Sr. Quinzinho da Bouça, vimos pelo Sr. Toninho da Inveja e logo ao Sr. Protazinho!… Lá fazíamos a estafeta serpenteada por entre o caminheiro carregado de ilusões e canseiras…e alguns tostões na boina. Recordo um dos janeiros, (muito húmido e frio, como este que estamos a passar…), em que a noite apareceu mais cedo, escura e fustigada por forte ventania. Quis o nosso grupo encurtar o caminho para fugir ao temporal que se fazia anunciar: “rápido, rápido… vamos, vamos… dás só dois vivas e pronto!” …Avança o Manel do ferreiro, sempre o mais fortalhaço e destemido e logo a ondulada perseguição em estreita correria. Ali para os lados da Cruz, houve uma troca de passos e, num ápice, surge um grito agoniante do Manel, seguido pelo chafurdanço na presa. A sorte é que a água lhe ficou pela cintura, mas… lá se foi a boina com algumas branquinhas!…

Mas nem tudo correu mal. Chegados a casa dos meus avós, toca a acender o lume para secar o Manel. Mesmo por cima do espreguiceiro, espreitavam uns chouricitos, farinheiras e alguns presuntos. Foi mesmo com a vara de varejar o castanheiro que duma estocada vimos voar 4 chouriços e algumas farinheiras… e com o calor das brasas, o resto da noite viu-se bem animado com muita alegria e apetite dos cantadores de Janeiras… mesmo de bolsos vazios!…

…/…/…

Passados mais uns anitos, lá fui encontrar alguns dos meus companheiros na conquista dum lugar para a “DANÇA do MENINO”

”Tu dás para pastor, este também dá para pastor… Ora, guardamos este papel também de pastor para o Firmino que não tarda a vir do Ultramar… e ele decora-o num instante!…” “Então Terezinha a Dança do Menino só tem pastores?!” - alguém pergunta lá do fundo. “Não rapaz… também tem pastoras!” …e continuou: – “o Sr. Brito do Padrão será o capitão Bambalho (tenho ali uma farda que lhe vai ficar um mimo); ali o Sr. António Rei, claro, vai fazer de rei Herodes; a Lucília a Rainha… o Sr. Dias dá mesmo para velho Semião… o Sr. Albino raboto, o conde Fraím” …etc… e a este rapaz coube-lhe o papel de “Príncipe”.
 

Aquilo é que era uma corrida para o Centro Paroquial de Penamaior. Papéis em punho, memorizar as entradas e as saídas, decorar aquelas páginas todas, provar as indumentárias, era uma roda-viva de entusiasmo e dedicação. Não podia ser de outra forma já que a Terezinha Mota, nossa Diretora/Ensaiadora/Modista, era sempre a primeira, dum largo sorriso nos lábios e uma extraordinária dedicação às verdadeiras causas, no empenhamento para fazer sair a peça na perfeição.
 

…Tudo a postos para a primeira apresentação, e o nervoso miudinho nas últimas passagens pelos papéis.

O Sr. Silva experimenta o correr das cortinas, oleando as roldanas que faziam cá uma chiadeira… espeta mais um galiota nos cenários, dá uma espreitadela por entre uma “talisca” entre tábuas descasadas e segreda-nos, esfregando as mãos de contente: – “até já há pessoal em pé!…”

Encontro a um canto o Sr. Antero (que fazia o papel de um dos doutores da lei) e diz-me baixinho: – “Olhe menino, isto é letras como panelas, não sei ler nem escrever, como decorei isto tudo, ao menos consolo-me de olhar para elas!…”
 

Surgem as fortes pancadas no palco… o Sr. Joaquim (camolas), com a flauta e os Soutos com os trombones, atacam com o musical de abertura e … e …

…Vou apenas contar este passo: – o rei Herodes após a cena da perseguição e matança dos meninos inocentes, também “morre” e eu sou naturalmente na sucessão, coroado. Mas aquela coroa pesadíssima, a capa quase a espalhar-se pelo chão e aquele espadão enorme, parece que me davam ainda mais intranquilidade e… medo!…

Logo a seguir, tinha de me bater com Singo (o Sr. Emílio, homem que na vida real sempre foi de poucas falas, de semblante carregado…e até se contava que por meia dúzia de treta, assapava uns borrachos a qualquer um).

Num belo dia, e em que a interpretação me estava a sair de autêntica confiança e em plena luta, o Singo teria de cair vencido. Agora vem o mais importante da história: eu aproximo a espada do seu rosto e digo em alta voz: – “fica-te malvado!…” mas, o peso daquele objecto enorme foi de difícil controlo e piquei-lhe levemente o pescoço, fazendo saltar uns pingos de sangue!… Ó homem dos diabos, qual papel, qual quê… levanta-se, vem ao meu encontro, encosta o vozeirão ao meu ouvido, sussurrando: – “quando esta merd… acabar, vou-te partir todo meu caralh…” e voltou a cair “desmaiado” …mas de olhos fitados em mim!…

Olhem, nem terminei o verso. Saltei da cena por detrás do palco e lancei-me em fuga, sentindo-lhe ainda a marcha acelerada, colada aos meus calcanhares!…

Num rápido, atirei-me contra a porta de casa, deixando em espanto os meus avozinhos, quando viram pela frente um “príncipe” de túnica desajeitada, carregando numa das mãos a coroa de “rei” e na outra o espadão a rastejar pelo chão, fazendo faíscas e gritando: “TRANQUEM AS PORTAS!…”

 

Que neste tempo confinado pela agonia da distância, pela ameaça do conflito, pela saudade do encontro, as “Janeiras e Reis” sejam cantadas entre portas de cada qual e com muita alegria e esperança se possam aplaudir noutros palcos da vida, continuadamente iluminados pela luz divina, feita estrelinha do presépio dum Menino Jesus renascido, adorado por pastores e reis e possam ser envoltas numa síntese de harmonia onde a PAZ, SAÚDE e AMOR sejam as grandes mensagens para o SUCESSO.

Que 2021 seja o reiniciar dos passos para grandes caminhadas na conquista da distância…como dizia F. Pessoa “por mar ou outra, mas que seja sempre nossa!…”

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário/ISMAI.

 

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