A prática desportiva enquanto caraterística humana (artigo de Vítor Rosa, 139)

Espaço Universidade 02-01-2021 18:04
Por Vítor Rosa

Numa preleção no âmbito de um Congresso Internacional da Associação Internacional de História do Desporto (HISPA), apresentado no INSEP (Paris), em março de 1978, o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) fazia “figura de amador entre profissionais” e solicitou aos presentes que tivessem “espírito desportivo” para as palavras que iria proferir. Não sendo um especialista na análise histórica do desporto, conferia-lhe o estatuto de colocar questões que muitos já tinham deixado de colocar ou pensavam estar completamente resolvidas.

 

Ele tinha um olhar externo, mas encontrava nos seus objetos de estudo as práticas e os consumos desportivos. Questionava-se, então, sobre a relação entre determinadas variáveis (o nível de instrução, a idade, o sexo, a profissão). Na sua perspetiva, as práticas desportivas (futebol, natação, atletismo, etc.) são uma oferta destinada a encontrar uma procura social. Sendo um produto, como chega aos agentes sociais o gosto pelo desporto e de uma determinada prática? Que condições sociais e históricas tornaram este fenómeno social aceitável? Como foi possível a criação de instituições ligadas quer direta, quer indiretamente às práticas desportivas? Quem são esses agentes sociais que têm por função defender os interesses do desporto? Como funciona este campo de concorrência, em que cada um defende os seus interesses específicos?

 

Nestes questionamentos, Pierre Bourdieu referiu que “a história do desporto é uma história relativamente autónoma que, ainda quando é escandida pelos grandes acontecimentos da história económica e política, tem o seu próprio ritmo, as suas próprias leis de evolução, as suas próprias crises, em suma a sua cronologia específica”. Não interessa datar o desporto, mas a de saber quando se pode falar dele, ou seja, a partir de quando se constituiu esse campo de concorrência. Pouco interessa a procura das “origens”. O que é importante é analisar as especificidades das práticas desportivas e, mais especificamente, como determinados exercícios físicos preexistentes receberam uma significação social diferente, como fez o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), na sua perspetiva evolucionista. Muitos são os historiadores e sociólogos que referem que a passagem do simples jogo ao desporto terá sido efetuada nas escolas inglesas reservadas às elites no século XIX. Os filhos das famílias da aristocracia ou da grande burguesia retomaram um certo número de jogos populares, transformando-os. Uma das chaves da divulgação do desporto e da criação de várias organizações desportivas, no final do século XIX, foi porque as “public schools” assumiam a tarefa de educar os jovens a tempo inteiro.

 

A prática dos desportos foi um meio de “ocupar” (a baixo custo, saliente-se) os adolescentes. Eles entregavam-se a uma atividade física “sã” e descarregavam a sua violência nos seus camaradas de escola em vez de descarregarem nos seus professores. Com os bons resultados, foram recebendo o reconhecimento e o auxílio dos poderes públicos. De notar também que a passagem do desporto das escolas de elite para as associações desportivas de massa (populares) é acompanhada de mudanças e de transformações por parte dos desportistas e dos dirigentes. “A escola, lugar da scholé, do ócio, é o local onde práticas dotadas de funções sociais e integradas no calendário coletivo, se convertem em exercícios corporais, atividades que são o seu próprio fim, espécie de arte pela arte corporal, submetidas a regras específicas, cada vez mais irredutíveis a qualquer necessidade funcional, e inseridas num calendário específico”, refere Bourdieu.

 

Associado ao nome de Pierre de Coubertin (1863-1937), pai do olimpismo moderno, a definição de desporto integra um ideal ético e moralista, reclamando regras e compromissos e valores de convivência e de cidadania. No campo das práticas desportivas, existem lutas, lutas essas que procuram impor a definição legítima: amadorismo versus profissionalismo, desporto-prática versus desporto-espetáculo, desporto de elite versus desporto de massas, desportos chiques versus desportos vulgares, etc.

 

Existe, de facto, uma distribuição das práticas desportivas segundo as classes sociais. Nos seus estilos de vida, cada um privilegia o que mais lhe interessa (musculatura, elegância, bem-estar psíquico, etc.). Existe, igualmente, uma atenção desigual relativamente aos ganhos intrínsecos. Ainda na perspetiva de Bourdieu, “tudo permite, portanto, supor que a probabilidade de praticar os diferentes desportos depende, em graus diferentes para cada desporto, do capital económico e secundariamente do capital cultural e também do tempo livre”. Nas sociedades modernas, e na “busca da excitação”, o desporto tornou-se um espaço compensatório das rotinas do quotidiano.

 

Referência

Bourdieu, P. (2003). Questões de sociologia. Lisboa: Fim de Século.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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