«Despertámos o gigante adormecido»

Ciclismo 08:25
Por Fernando Emílio

Aproveitando pausa no recheado calendário de homenagens, foi em sua casa, em Pegões Velhos, que Ruben Guerreiro recebeu A BOLA. Abordou o presente, falou do passado e projetou o futuro. Tendo sempre como pano de fundo uma brilhante Volta à Itália, na qual ganhou o prémio da montanha
 

- Como define os momentos que tem vivido desde que chegou de Itália?

- Só agora estou a tomar consciência do impacto que tiveram em Portugal as minhas prestações e do João Almeida. As entidades oficiais e as pessoas do povo têm sido incríveis nos elogios e felicitações, ao ponto de poder afirmar, que no ciclismo despertámos o gigante que se encontrava adormecido em Portugal. Nunca me passou pela cabeça que houvesse tanta gente a seguir o ciclismo, espero que os que agora nos convidam para entrevistas quando a época recomeçar arranjem espaço para falar da modalidade, num País que confirmou existirem outros desportos para além do futebol.

 

- O que significa ter conquistado uma etapa e o prémio da montanha no Giro?

- É o momento mais alto da minha carreira e não fazia parte dos meus objetivos a curto prazo ganhar as duas coisas. Quando parti para o Giro tinha a intenção de vencer uma etapa e para que isso pudesse acontecer comecei a perder tempo para não incomodar os favoritos, o que haveria de permitir-me entrar numa fuga. Tinha marcado a etapa de Roccaraso, por ser muito dura com duas contagens de montanha de 2.ª categoria e duas de primeira e quando o grupo se formou pensei que desta vez tinha de ser. Como conhecia bem Berg e Castroviejo, apertei um pouco mais na entrada dos últimos dois quilómetros, onde cedeu o dinamarquês. O espanhol demonstrava que estava sem pernas e nos últimos 300 metros arranquei convicto de que ia mesmo vencer. Foi um momento de alegria indescritível e pela minha cabeça passaram tantas coisas que nem consigo explicar, apenas sentia que estava feliz e que tinha realizado um dos sonhos da minha vida, que era vencer uma etapa numa grande volta.

 

- Como analisa a prestação do João Almeida?

- Foi extraordinário ter liderado o Giro durante 15 dias. É um corredor completo, muito forte em todos os terrenos e posiciona-se muito bem no pelotão. Encarava com naturalidade ser líder do Giro, quando nos encontrávamos na saída das etapas, meio a sério meio a brincar ao falarmos sobre a corrida marcávamos encontro para o dia seguinte. Era uma sensação incrível estarmos dois portugueses com duas das quatro camisolas da Volta à Itália. O João tem condições para discutir as grandes voltas, recupera bem do esforço o que é uma grande vantagem e adapta-se a todos os terrenos, não tenho dúvidas que vai ser um grande campeão.

 

- Qual das voltas é mais difícil: o Giro ou a Vuelta?

- As duas são difíceis mas gosto mais do Giro e se no futuro me derem a escolher prefiro correr a Volta à Itália que a Volta à Espanha. O percurso do Giro tem etapas muito seletivas com subidas míticas como o Stelvio e Mortirolo. Em Espanha também existem subidas muito duras, como L’Angliru, mas não têm o carisma das italianas.

 

- Quais os objetivos para a próxima temporada?

- Devido à pandemia ainda é cedo para projetarmos o que vamos fazer em 2021. Gostaria de correr a Volta ao Algarve mas não sei se a equipa estará interessada em vir a Portugal. Depois de ter corrido Vuelta e Giro é um sonho participar no Tour, fascinam-me as suas montanhas e gostaria de vencer uma etapa, vamos ver se para o ano será possível. Sou um corredor de ataque, sei que não estou direcionado a vencer grandes voltas, o meu objetivo passa para ganhar etapas e clássicas onde me sinto muito bem. No ciclismo existem dois tipos de corrida, os que correm para a geral e os que disputam as outras classificações, como é o meu caso.

 

- Porque motivo deixou o futebol e optou por ir para o ciclismo?

- Nas camadas jovens comecei a jogar no Samora Correia com sete anos, depois pelo Pegões e ainda fiz um jogo nos juniores no Estrela da Vendas Novas, mas a minha sedução eram as provas de BTT. Comecei no Quintajense, passei pelo Bike Zone e Matos Cheirinhos onde comecei a correr na estrada, porque até aí o meu pai tinha medo que corresse as provas de estrada por causa dos acidentes. Seguiu-se o Alcobaça como júnior, em 2013 Liberty Seguros com dois anos em sub 23 e mais dois anos nessa categoria na Axeon-Hagens Berman. Passei a profissional em 2017 na Trek-Segafredo, em 2019 fui para a Katusha-Alpecin e como a equipa foi extinta ingressei na Education First onde tenho contrato por mais um ano.

 

 

- Vai continuar disponível para representar aSeleção Nacional?

-  Estou e estarei sempre pronto para representar a Seleção Nacional, é a equipa de todos nós e que tenho orgulho em representar. O presidente da federação Delmino Pereira e o selecionador nacional José Poeira já mereciam que o ciclismo voltasse a ter destaque como está a acontecer e que faz recordar outros tempos e corredores importantes.

 

- Qual o principal objetivo da carreira?

- Gostava de um dia ser campeão do mundo e envergar a camisola arco-íris. É o sonho de todos os corredores e faz parte dos meus objetivos. Também gostava de vencer uma ou mais etapas na Volta à França e algumas das grandes clássicas, nas quais se incluem alguns dos cinco monumentos do ciclismo mundial.

 

- Qual é o seu clube favorito em Portugal?

- Sou adepto do Benfica como quase toda a família cá em casa, exceto o meu avô que é sportinguista. Fui convidado para ir conhecer as instalações do Benfica no Seixal e falar com toda aquela gente que admiro. Vai ser um momento interessante, não para me felicitarem mas para falar com os craques que vejo na televisão e até pode ser que aprenda alguma coisa no futebol que possa colocar no ciclismo.


 

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