Sem vivência, não há competência (artigo de Manuel Sérgio, 354)

Espaço Universidade 22-10-2020 18:28
Por Manuel Sérgio

Toda a nossa vida se faz de incongruências, de sobressaltos e das mais diversas paisagens. Percorri a Europa, de Lisboa a Moscovo, visitando boa parte do que mais estremecido e delicado ela tem; passei pelos USA e conheci a América Latina, de almas atravessadas de desejos e revoltas, como de espadas, onde beijei as mãos de D. Helder Câmara e acolhi sábios conselhos de Paulo Freire; e de África, onde todo o português que o pudesse fazer deveria vir em romagem, relembro, sobre o mais, o Tarrafal, principalmente o Tarrafal, que conserva ainda um sabor agressivo, agoniante e jamais esquecerei a viagem que o Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, meu excelso Amigo e escritor da mais alta vibração poética, me proporcionou; visitei alguns retalhos da China, fascinei-me com Hong-Kong e com Macau e… não cheguei às terras longínquas da Oceania.  Mas, mergulhando, uma vez mais, no ardente e fluido curso das minhas recordações, é do Brasil de quem mais saudades sinto. De facto, na pátria de Machado de Assis muito aprendi, principalmente a conjugar, no conhecimento científico, o rigor metodológico e a motivação política. Registo, com emoção, o nascimento do Partido dos Trabalhadores, ao lado de colegas brasileiros de sensibilidade social admiravelmente bem modulada, quase todos eles também finíssimos saboreadores da “res musicalis”. Demais, era o tempo de vigorosa e sentida atenção à música de Tom Jobim, Vinicius e João Gilberto. Descobria-se, na experiência estética desta música brasileira, uma abertura a um amplo universo de significados e caracterizava-se por centrar-se sobre a própria mensagem – que não era unicamente política. Quem não se lembra do Samba de uma nota só?: “Eis aqui este sambinha / Feito numa nota só / Outras notas vão entrar / Mas a base é uma só / Esta outra é consequência / Do que acabo de dizer / Como eu sou a consequência / Inevitável de você / Muita gente existe por aí / Que fala fala e não diz nada ou quase nada / Já me utilizei de toda a escala / E no final não sobrou nada não deu em nada / E voltei pra minha nota / Como eu volto pra você / Vim mostrar com minha nota / Como eu gosto de você / Quem quiser todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si dó / Fica sempre sem nenhuma / Fique numa nota só”…
 

Dialoguei, com demora, no Brasil, e aplaudi com entusiasmo, a rejeição de um discurso moralista e puritano, que não cessa de desvalorizar o corpo e que julga que a via da humanização passa pela purificação dos instintos “mais baixos”. E assim se confina a sexualidade à alcova, ao silêncio. A visão platónica do corpo dissociava, como inimigos figadais, o amor carnal do amor espiritual. Na Reforma protestante, na vida de um homem probo, esclarecido e realizador, toma parte relevante o trabalho e redescobre-se o sexo e a ociosidade como os grandes inimigos da riqueza e da prosperidade (será preciso recordar a teoria da predestinação?). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber, e Eros e Civilização, de Marcuse, dois livros fascinadores e complexos, esclarecem-nos como a “teoria do desempenho” burguesa promove a dessexualização do corpo e da própria sociedade. O princípio de adestramento do corpo, inclusive no desporto, incita o trabalho a transformar-se não apenas num freio para o sexo, mas a promover, mesmo nos Ronaldos e nos Messis e noutros prodígios iguais, um processo de dessexualização e deserotização do corpo. Se bem me lembro do que li em Marcuse, no seu livro Eros e civilização, posso adiantar que se assiste a uma “super-repressão sexual” no “princípio do desempenho”. Quero eu dizer: podem convergir, demasiadas vezes, no desporto altamente competitivo, eficiência e repressão. A consequência de uma sociedade dualista (dualista, na economia, nas finanças, na sociedade) é, também na família, uma “dupla moral”. Frequentemente, embora cada vez menos (graças a Deus!), na educação dos jovens, a educação do rapaz difere da educação da menina, pois que esta existe, sobre o mais, para ser uma boa mãe – tranquila e sonhadora, quieta e desambiciosa e vítima de uma educação que faz dela um ser dessexuado. Lembram-se do romance de Mário de Andrade, Amar verbo intransitivo, em que um pai contrata uma governanta alemã, sob o pretexto de educar os filhos (um rapaz e duas meninas) mas com o objetivo oculto de iniciar o rapaz, só o rapaz, na vida sexual? Enfim, não é verdade que o antropocentrismo se confunde, frequentemente, com androcentrismo?...


Com tanta e tão sofisticada tecnologia, tenho receio que os campeões desportivos, ao contemplarem-se no espelho, passem a duvidar, se são homens ou máquinas. E, numa sociedade chagada pelos vícios do capitalismo, onde a máquina se afirme mais pelo poder do que pela sabedoria, mais pela arrogância do que pela humildade, mais pela vontade de auto-afirmação do que pela sinergia entre filhos do mesmo Pai. “O universo é em tudo cooperativo, pois todos os seres são interdependentes entre si. A lei orientadora na evolução dos seres vivos não visa à sobrevivência dos mais fortes (se assim o fosse, os dinossauros estariam ainda entre nós) mas à preservação do  equilíbrio dinâmico, para que todos possam estar inseridos, possam viver e se desenvolver (Leonardo Boff, A voz do arco-íris, Sextante, Rio de Janeiro, 2004, p. 131). Um “quidam” qualquer, como eu, percebe que todos os seres vivem impregnados de espírito, quero eu dizer: em todos eles é possível visionar um sentido! Em todos eles, encontramos horizontes de espiritualidade, o “fiat” criador que os põe na constituição do real e a transcendência que os faz caminho do Absoluto. Todas as criaturas, mais do que seres, são um “tornar-se”, pois que num mundo de paz imperturbada, sem réstea de movimento, jamais poderíamos respirar esta sensação capitosa de sol e de risco de quem sabe o sentido e a significação da existência, mas não sabe, se a não vive, a originalidade de uma profunda vida interior. E… sem dúvidas? Só com certezas? Sim, com dúvidas, dado que a fé é um caminhar na noite mas com a coragem de instalar a Esperança onde a complexidade é mais complexa e mais condicionante a própria educação. Também eu tenho para mim que Deus fez-nos pouco, seres limitados e agónicos, para que nós nos pudéssemos fazer muito. Há um vazio axiológico, na educação e no desporto. São muitas as normas, as leis e os decretos, mas quem acredita na mundividência de tudo isto se, no ensino, nas universidades, nos grandes clubes, são inúmeros os aspirantes a técnicos, a especialistas, com um fascínio aviltado do “ter”, mas que se esquecem de crescer, simultaneamente, como pessoas?   


“Sem vivência, não há competência”. E, porque a vida é, sobre o mais, um “tornar-se”, um sujeito histórico com a necessária competência deve acrescentar à tecnociência o sentido que a vida tem, ou seja, a busca incessante do Absoluto, sem esquecer as condições objetivas ou as injustiças sociais. É patetice pretender inovar a realidade, com teoria apenas. Mas não é menor estultícia julgar que a prática transforma, abdicando de princípios, de valores, de uma certa motivação emocional. Qualquer projeto sério de mudança implica engajamento ideológico e recebe deste motivação decisiva. Um ponto ainda a salientar: aplaude-se ainda, com mesura, que a democratização do conhecimento possa significar apenas simplificação apressada do saber para as camadas populares. Com isto, mesmo sem o dizer, propagando mesmo uma doirada orgia de promessas, admite-se que ao pobre cabe um saber mascarado de ciência. E continuamos bem longe do anelo de Alceu Amoroso Lima de “elitização das massas e massificação das elites”.  Recordo o Eduardo Prado Coelho, em Tudo o que não escrevi – II: “é preciso ver como se fosse o olhar de um pobre, como se fosse dar a ver a um pobre”, no seio de uma sublime operação de “conduzir a força do amor até à invisibilidade de si mesma” (pp. 58/59). Quando se passa por Roma e por Florença e por Nápoles, três cidades que me seduzem,  cada uma das pedras de um monumento alberga um segredo, detém uma evocação, que se escutam com vagares de admiração e amor. Aliás, em Teilhard de Chardin, o Universo converge, pelo amor de Deus e de todas as criaturas, para um estado superior de consciência que tornará capaz a este nosso mundo de dar ao ato de caridade, à solidariedade em suma, uma amplidão cada vez mais cósmica. Sempre o Amor! Sempre um Amor tapetado de Esperança! “E Deus será tudo, em todos”.   


Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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