Meninas da Comunidade Lusófona entre as Promessas do Basquetebol Africano (artigo de Eduardo Monteiro, 62)

Espaço Universidade 04-10-2020 16:03
Por Eduardo Monteiro

O gosto pela prática desportiva das populações autóctones dos países africanos sempre foi uma realidade que ultrapassou os regimes coloniais quando as populações ignoraram uma educação física de tipo  militarista imposta pelos militares que a traziam da Europa para, em alternativa, aderirem a uma prática desportiva livre e espontânea que tinha muito mais a ver com as suas identidades culturais. Pierre de Coubertin foi o primeiro a perceber essa realidade quando, em 1923, para além de propor a realização dos Jogos Africanos avançou com a ideia de distribuir em grande quantidade por todos os países africanos uma medalha de penetração desportiva com os seguintes dizeres: “É essência do atleta conhecer-se, conduzir-se e superar-se”. Esta semente desportiva germinou e, a partir de meados dos anos cinquenta, com as independências dos países a Sul do Saará, deu os primeiros frutos quando começaram a surgir nas competições internacionais grandes atletas provenientes de África. A partir de então, o “Efeito de Ídolo” surgiu como uma questão essencial no processo de desenvolvimento do desporto africano uma vez que o atleta passou a conhecer-se para além dos estereótipos culturais dos colonizadores, a conduzir-se para além das estruturas orgânicas coloniais e a superar-se para além da identidade da pátria colonialista, assumindo-se, deste modo, como um exemplo das identidades nacionais para a generalidade das populações sobretudo das mais jovens.

 

Por exemplo, a obtenção continuada de bons resultados nas competições africanas de homens no basquetebol motivou as equipas femininas a um esforço notável para acompanhar a evolução técnico/desportiva dos praticantes masculinos. Por sua vez, a FIBA África começou a organizar provas regionais e continentais para os escalões etários das jogadoras jovens Sub-18 (1993), Sub-20 (2006) e Sub-16 (2008), o que permitiu a aquisição de experiência competitiva a nível internacional e às praticantes mais evoluídas a possibilidade de acesso, com maior facilidade,  às seleções nacionais dos escalões seguintes. Face à evolução verificada as jogadoras mais talentosas começaram a ser solicitadas para jogarem em clubes europeus ou frequentarem universidades norte americanas através da concessão de bolsas de estudo na qualidade de estudantes atletas.

 

No decurso deste processo evolutivo e no âmbito do percurso das etapas da formação desportiva e académico das atletas, têm surgido no contexto do basquetebol feminino no continente africano um conjunto de jogadoras, com idades compreendidas entre os 17 e os 23 anos que, pela sua valia e provas dadas em representação dos seus clubes e países, foram consideradas recentemente pela FIBA África como as actuais grandes promessas do basquetebol africano.

 

Entre as 12 atletas africanas apontadas como as mais promissoras jogadoras que futuramente irão participar nas principais competições programadas pela FIBA África, aparecem 4 jovens oriundas dos países de língua portuguesa (Angola, Cabo Verde e Moçambique). Esta situação vem confirmar o crescente interesse das meninas dos países lusófonos pela prática desportiva, neste caso especial por um desporto colectivo muito popular em África, o basquetebol. Esta distinção feita pelo organismo máximo da modalidade (FIBA), surge como corolário dos excelentes resultados alcançados pelas equipas moçambicanas e angolanas nas competições africanas e  consequente melhoria no processo da formação das jogadoras lusófonas nas diferentes colectividades desportivas.

 

A  listagem das atletas africanas difundida pela Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) tem a seguinte composição:

--- Lena Niang (Senegal) (23 anos/1,88 m ) Equipa :Temple University (NCAA); Experiência internacional:  FIBA Women´s Afrobasket-2019; 

--- Chanaya Pinto (Moçambique) (20 anos/1,86 m) Equipas: Quinta dos Lombos (Portugal) e Northwest Florida State College (NCAA); Experiência internacional: FIBA Africa Sub-16 Women´s - 2015 e  FIBA Sub-19 Women´s World Cup - 2019;

 --- Djeneba N`diaye (Mali) (23 anos/1,86 m) Equipa: AMI Basketball  (Marrocos); Experiência internacional: FIBA África Sub-16 Women´s - 2013,  FIBA Women´s Afrobasket - 2015 e  FIBA Women´s Afrobasket - 2019;

 --- Mariam Coulibaly (Mali) (22 anos/1,94 m) Equipa:  Club Basquet Femini Sant Adria (Espanha); Experiência internacional:  FIBA Women´s Afrobasket - 2019;

 --- Marian Gnanou (Costa de Marfim) (23 anos/1,96) Equipa: Oklahoma State University (NCAA); Experiência internacional:  FIBA Women´s Afrobasket - 2019;

 --- Joseana Vaz (Cabo Verde) (20 anos) Equipas: GDESSA Barreiro e CAB Madeira (Portugal); Experiência internacional: FIBA Women´s Afrobasket - 2019;

 --- Sara Caetano (Angola) (17 anos/1,73 m) Equipas: Formigas do Cazenga (Angola) e Quinta dos Lombos (Portugal); Experiência internacional: MVP do NBA Academy Africa Women´s Camp - 2019 e FIBA Africa Sub-16 Women´s - 2019;

 --- Aléxia Dizeko (Angola) (19 anos/1,73 m) Equipa: Helios Sion (Suiça);                            Experiência internacional: FIBA Africa Sub-18 Women´s - 2018 e FIBA Women´s Afrobasket - 2019;

 ---Batouly Camara (Guiné) (23 anos/1,88 m) Equipas: Kentucky University e University of Connecticut ( NCAA) e Club Baloncesto Bembibre (Espanha); Experiência internacional: FIBA Women´s AfroBasket - 2019;

 --- Raneem Elgedawy (Egipto) (23 anos/1,86 m) Equipa: Western Kentucky University (NCAA); Experiência internacional: FIBA Women´s AfroBasket - 2019;

 --- Meral Abdelgawad (Egipto) (21 anos/1,81 m) Equipa: Western Kentucky University  (NCAA); Experiência internacional: FIBA Africa Sub-18 Women`s - 2016, FIBA Sub-19 Women´s World Cup - 2017, FIBA Women´s AfroBasket - 2017 e FIBA Women´s AfroBasket - 2019;

 --- Bella Murekatete (Rwanda) (20 anos/1,96 m) Equipa: Washington State University (NCAA); Experiência internacional: FIBA Africa Sub-18 Women´s -  2018 e FIBA Women´s AfroBasket - 2019.

 

O desenvolvimento desportivo nos países africanos devido a todo o tipo de constrangimentos económicos, sociais, demográficos e geográficos tem de encontrar o seu próprio caminho que nada tem a ver com os modelos utilizados nos vários países europeus. Por isso, para além de todas as dificuldades o “Efeito de Ídolo” é de fundamental importância a fim de desencadear processos de desenvolvimento a partir da dinâmica das populações e de modalidades desportivas que já tenham algumas raízes culturais nos interesses e hábitos da juventude. África está a fazer o seu caminho e os países tem de encontrar a melhor maneira de o percorrerem. Neste sentido  as organizações desportivas internacionais a começar pelo Comité Olímpico Internacional têm de proteger o desporto africano da cobiça dos países ditos desenvolvidos. A este propósito, Jacques Rogge, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), em 2004, manifestou de uma forma clara a sua total oposição à compra de atletas pelos países mais ricos que, deste modo, só pretendem aumentar o seu “medalheiro olímpico”. O problema é que, como referiu Gustavo Pires parafraseando  Roy Batty do filme Blade Runner, todos estes sentimentos que visam proteger o desporto africano, no mundo hiper mercantilizado do desporto, acabam, simplesmente, por se perder como lágrimas na chuva.

 

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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