«Darwin é o herdeiro de Cavani e Suárez»

Benfica 23-09-2020 15:43
Por Pedro Soares

José Batlle Perdomo, 53 anos, é no Uruguai conhecido como El Chueco e é um dos ídolos da hinchada do Peñarol, camisola com a qual levantou a Taça Libertadores em 1987, ano glorioso na carreira de médio, durante o qual também capitaneou a seleção charrua que se sagrou rainha das Américas na Argentina - ficou também na história do futebol uruguaio como o autor do célebre gol del terremoto, a 5 de abril de 1992, no dérbi de La Plata entre Gimnasia, o clube de então, e Estudiantes, cujos festejos dos adeptos da casa nas bancadas foram registados no sismógrafo da cidade platense.

 

Foi à primeira vista

 

Terminada a carreira a meio da década de 90 que também o fez pisar relvados italianos (Génova), espanhóis (Bétis) e ingleses (Coventry), El Chueco dedicou-se ao treino e ao scouting e foram os seus olhos que colocaram Darwin Núñez no caminho que agora o conduziu ao nosso futebol como o mais caro (€24 M) de sempre.

 

«Claro que fiquei muito satisfeito pela ida do Darwin para o Benfica, fui eu que fiz 700 quilómetros em 2013 para o levar para Montevideu!», atirou a A BOLA, sem se deter. «Ainda me recordo desse dia em que o vi pela primeira vez, um domingo, dia de regionais. Havia equipa de Salto - a minha terra e também a de Cavani e Luís Suárez [risos]-, o Bella Unión, Paysandu e o San Miguel de Artigas, a terra do Darwin. Saí de Montevideu no sábado, ao início da noite, e cheguei a Artigas de manhã para ir logo vê-lo. Fiquei encantado», conta Perdomo, que de imediato percebeu que o físico possante daquele miúdo de apenas 13 anos, que a cada arrancada ficava a ver os adversários pelo retrovisor, tinha cabedal para o Peñarol.

 

Darwin crescera no seio de família humilde, num bairro modesto de Artigas, a 600 quilómetros de Montevideu e a 200 de Salto. Também natural de Salto, Perdomo tinha muitos olhos por todo o interior uruguaio e quando lhe disseram para ver mais um jogador pensou que seria a primeira de várias. «Levo muitos anos de scouting e regra geral observo 4 ou 5 jogos e, se me agradar, vou falar com os pais. Um amigo meu, Nico Gómez, pediu-me para ir ver o Darwin e mal acabou o jogo naquele dia fui logo ter com os pais - também já tinha levado o irmão do Darwin, o Junior, para o Peñarol. Foi algo especial, só precisei de o ver uma vez», prosseguiu.

 

A tarefa seguinte não foi fácil. «Lembro-me de a mãe dizer-me: ‘já me levaste um filho, não me vais levar o outro, ainda é muito novo’. Darwin fazia falta em casa para ajudar os pais, mas lá foi para Montevideu. Um mundo novo. Foi mudança demasiado drástica, Darwin não lidou bem com ela e voltou a casa. Mas regressou 12 meses depois e bastaram meia dúzia de anos para se estrear pela equipa principal e atravessar o Atlântico para se afirmar na Península Ibérica, primeiro no Almería, agora no Benfica. 

 

Futuro a bater à porta

 

Perdomo explica de seguida o porquê de verem em Darwin um novo Cavani.

 

«Começou a ser tratado assim quando teve a melhor fase no Peñarol, pelo físico imponente e por ser um goleador. Não o considero um Cavani futebolisticamente, mas pode ter a certeza que no futuro ele será o Cavani do Uruguai. Darwin é o futuro ‘9’ do Uruguai, herdeiro de Cavani e Luís Suárez», assegura El Chueco, que antecipa que Darwin até pode ser titular pelo Uruguai ante Chile e Equador na caminhada rumo ao Mundial-2022. «Cavani ainda nem tem clube, Suárez também está sem competir e Darwin vem com ritmo e pode intrometer-se...», advoga, confiante que o avançado de 21 anos não terá problemas em vingar na Luz.

 

«Tem perfil para um clube como o Benfica, que luta por títulos, e não se esqueçam que é uruguaio... e os uruguaios adaptam-se a tudo, ao frio da Rússia, ao Brasil, ao calor bárbaro da Arábia Saudita. É característica do futebolista charrua: sai de um futebol problemático como o do Uruguai e quando lhe dão tranquilidade e confiança rende o dobro dos demais jogadores. E Darwin tem a garra charrua, não desiste. Mesmo na linha ofensiva também sabe fazer pressão alta se for preciso, é muito solidário com a equipa. Nisso é parecido com Cavani», diz, rotulando-o como «um jogador de equipa».

 

Tempo e paciência

 

«O forte dele é a velocidade, o receber bolas entrelinhas para depois ganhar na potência física, mas é solidário com os companheiros, perfeitamente capaz de vir muitos metros atrás para ajudar a fechar ou a armar o jogo», descreve, realçando que «jogar de costas para a baliza não é para ele» e que uma «marcação apertada» lhe dificulta mais as ações. 

 

 Já informado do peso que recai sobre Darwin, jogador mais caro da história do futebol português, Jose Perdomo deixa pedido:

 

«Deem-lhe tempo para se adaptar, tenham alguma paciência. É importante que o treinador lhe dê confiança e acredito que Jorge Jesus, que é um tremendo treinador, como mostrou no Flamengo, vai ajudar Darwin a evoluir muito, sobretudo no jogo aéreo», concluiu.

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