Quando o aluno ultrapassa o mestre (artigo de José Augusto Santos, 22)

Espaço Universidade 13-08-2020 17:23
Por José Augusto Santos

Um dos aforismos que mais elevam a dignidade deontológica de um professor diz que “honra pouco o mestre quem fica discípulo toda a vida” (Nietzsche). Pela parte que me toca fui bem honrado pois muitos dos meus alunos afirmaram-se na vida e deram-se lições que me fizeram crescer e agradecer aos deuses por me ter cruzado com eles nas estradas da vida.
 

O Domingos Silva foi meu aluno na licenciatura, no mestrado e no doutoramento. Que posso dizer dele? Que posso dizer da sua vontade e pundonor? Cada etapa que ultrapassava era sempre a olhar a próxima etapa. Foi o segundo mestre em Nutrição no Desporto de Portugal (o primeiro foi o médico Luís Horta) e foi o primeiro doutorado português nesta mesma área. Cada tarefa que lhe propunha ele resolvia-a muito antes do tempo programado. Tinha de dizer por vezes: - Vê lá Domingos se me deixas respirar. É um estudioso incansável. Imediatamente a ter terminado o doutoramento em Ciências do Desporto enveredou logo por estudos na área das matemáticas e estatísticas. Já fez o mestrado e acabou de entregar a tese de doutoramento em matemática intitulada “Estatística dos Extremos: limites da performance humana”. Onde parará? Não sei, pois, a inquietação é um dos traços fundamentais da sua personalidade.
 

O Rui Garcia, foi meu aluno, meu monitor, meu colega no gabinete de Atletismo, meu chefe e depois derivou para a Sociologia do Desporto. A sua tese de doutoramento sobre a Corrida de Maratona é um documento exemplar que marca um ponto alto no caminho quase autónomo que encetou quando derivou do Atletismo para a Sociologia. Afinal os homens do desporto (ele foi um corredor de meio-fundo e fundo) também podem “correr” no campo da cultura. Lembro-me, quando convivíamos quotidianamente, das sextas-feiras de tarde, quando, por entre as mais disparatadas chalaças e tiradas de non-sense, percorríamos campos diversos do conhecimento humano e aprendíamos um com o outro a explorar abordagens originais de vários assuntos quer das ciências quer das humanidades. Alguma formação plural que possuo muito se deve ao que aprendi com ele.
 

O António Fonseca apareceu-me na primeira aula de Atletismo com uma jaqueta sem mangas do futebol. Era daqueles alunos que primeiro fazia e depois perguntava. Queria saber a utilidade dos exercícios. Eu nessa altura dava muita fisiologia e teoria de treino nas aulas e ele gostava enquanto os outros se queixavam do volume de conhecimento transmitido. Logicamente que fiquei sintonizado com ele desde cedo e, quando o Rodolfo Reis me pediu um preparador físico para me substituir na sua equipa técnica eu de imediato pensei nele e assim ele entrou profissionalmente no desporto da sua predileção. O António Fonseca foi outro trânsfuga do desporto “tout court” e enveredou pela Psicologia do Desporto debaixo da asa protetora de um dos grandes mestres que Portugal teve – António da Paula Brito. O que aprendi de essencial com o António Fonseca? A dignidade após a luta. Tive um pleito com ele que nos levou inclusive ao âmbito dos tribunais e, passado o momento da luta por aquilo em que acreditávamos, regressamos a penates e mantivemos a amizade que permaneceu incólume. As palavras dele na minha aula jubilar foram a demonstração inequívoca de que o que ficou da nossa longa relação foi gratidão e amizade.
 

O Daniel Gonçalves, não me canso de repetir, é um ser humano “out-the-box”. Tal com o Rui e o Fonseca ele chegou à faculdade através do desporto. Praticante de Atletismo foi-me cair nas mãos nas aulas e na sua tese de licenciatura. A faculdade, a FADEUP, esta casa maravilhosa que nos permite crescer em todas as dimensões do humano, despertou-o para a ciência e para a investigação científica. E aí foi ele, ganhando etapas, estacionado em novas áreas do conhecimento (Medicina) e chega-nos cheio de vontade para ajudar a manter a qualidade científica que é nosso apanágio. Com ele aprendi que os sonhos são sempre possíveis de realizar quando olhamos o futuro municiados com a força e a vontade de vencer. O Daniel é agora um dos meus mestres e estimula-me, nos meus 72 anos, a aprender com a avidez de uma criança sedenta de futuro.
 

O Jorge Mota é um visionário, um espírito inquieto projetado no devir. Foi meu aluno normal não se distinguindo em nada em especial. Fazia tudo certinho, mas nunca o vi explodir em nenhum sentido. Quando entrou na faculdade como professor nem por um minuto me passou pela cabeça que ele faria alguma vez a diferença. Mas fez e de que maneira. O Jorge Mota, com a sua saudável ambição que eu não tinha reconhecido enquanto seu professor, desde os alvores da sua carreira docente que quis fazer diferente e melhor. E fez. Foi e é o responsável genésico pelo que de melhor em ciência a FADEUP realiza. Com o seu espírito inquieto, com a sua inteligência dirigida para a transformação da realidade realizou-se a ele e abriu as portas para que muitos dos nossos melhores ganhassem espaço de afirmação profissional no campo científico. Alguns dos projetos que a FADEUP desenvolve são subsidiados por bolsas de milhões de euros. Qual o principal responsável? Ele, o Joca da nossa amizade e dos jogos de futebol arrepiantes.
 

Com o José Maia, andei de candeias às avessas durante muito tempo. Ele é mais novo que eu alguns anos. Quando chegou às minhas aulas já trazia largos conhecimentos da metodologia de treino e biologia pois era atleta de elite e mestre em karaté. Questionou alguns dos meus ensinamentos e como eu nessa altura era um sujeito muito calmo resolvi a situação com a seguinte oração pacifista: - Ouve lá ó menino! Tens a mania que sabes? Pois bem, no exame ou respondes como eu estou a ensinar ou então chumbas como um peixe. Respondeu como eu queria, passou e chegou a professor desta casa plural. Passados muitos anos, no decurso do meu doutoramento, anda eu à volta dos meus resultados como um cão em volta do rabo com comichão e só tive uma solução, recorrer ao José Mais. Meti o orgulho no saco e entrei no gabinete dele: - Ouve lá José Maia! Se aprendeste alguma coisa comigo quando foste meu aluno, está agora na altura de me retribuíres. Ajuda-me no tratamento estatístico dos meus dados. Foram meses que ele gastou, não para me resolver a estatística dos dados, mas para me ensinar nos procedimentos. Aprendi com ele a estatística que tinha ficado no tinteiro durante o meu curso de licenciatura. Ensinou-me a pescar, não me quis dar o peixe.
 

Bem, vou ficar por aqui embora a minha gratidão não acabe aqui. Fui mestre e sou aluno de muita gente que passou por esta faculdade. Eles estão espalhados por todo o lado, no controlo do treino, na metodologia do treino, na cientificação do treino, na gestão do desporto, etc.

Também já afirmei sobejas vezes, despojado de qualquer muleta escatológica, que a vida não tem sentido. O sentido da vida encontrámo-lo nas coisas simples que vamos construindo. Ter sido professor foi uma dádiva dos deuses que eu julgava não merecer. Os meus alunos/mestres determinaram a razão fundamental da minha existência.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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