O Martelo de Nietzsche XII (artigo de Gustavo Pires, 124)

Espaço Universidade 25-07-2020 18:44
Por Gustavo Pires

1.       O impacto da pandemia atingiu os mais diversos setores da sociedade, sobretudo aqueles que como o desporto já vinham de há longos anos a esta parte a destilar uma profunda crise de valores, de lideranças e de projectos com o mínimo de credibilidade social. Portanto, o impacto severo que o desporto está a sofrer não é de agora já vem de há muito tempo ao ponto de estar a alterar, radicalmente, a vocação, a missão e os objetivos de funcionamento das organizações desportivas. Em consequência, em muitos países o desporto está a viver uma quebra acentuada nas taxas de crescimento de praticantes federados,  pese embora  a resiliência e capacidade de superação de muitas organizações desportivas da base da pirâmide de desenvolvimento que, todos os dias, são obrigadas a superar a incapacidade das organizações tanto públicas quanto privadas do vértice estratégico dos Sistemas Desportivos.

 

2.       No quadro da profunda crise que o desporto está a viver, agora agravada com a pandemia, foram os pequenos clubes que, embora abandonados, perante a ineficiência da educação física e do desporto escolar, continuaram a garantir a formação de praticantes a montante dos Sistemas Desportivos. Ao empenho destes pequenos clubes acresce ainda a dedicação de milhares de famílias que a custas próprias têm permitido o funcionamento a montante dos escalões de formação nas mais diversas modalidades desportivas. E, perante a inoperância das organizações de cúpula do associativismo desportivo, são inúmeros os exemplos que ocorrem na base dos Sistemas Desportivos, autênticos milagres, que têm permitido a continuidade da prática desportiva. Infelizmente, algumas organizações do universo desportivo estão a sofrer um severo impacto nas suas fontes de receita, todavia, é necessário saber muito bem  quais são as organizações e  identificar, quais os impactos sob pena dos eventuais apoios acabarem nos orçamentos daqueles que menos necessitam.  Sendo o desporto uma atividade polimórfica e polissémica pelo que, para além do jogo de interesses que fazem a vida de muitos dirigentes desportivos e políticos, os contribuintes devem exigir que os recursos aplicados nas organizações e nos projetos sejam muito bem esclarecidos e controlados sob pena de só servirem para reforçar os poderes daqueles que autocraticamente vivem agarrados ao poder há dezenas de anos.

 

3.       Embora os impactos da pandemia na prática desportiva sejam dramáticos, todavia, não se deve acreditar no fantasma que anda a ser exibido por alguns dirigentes que afirmam que estão em vias de extinção inúmeras instituições desportivas com o consequente risco de abandono de praticantes, técnicos e dirigentes. O amor ao desporto é muito maior do que os burocratas da cúpula dos Sistemas Desportivos, habituados às mais amplas mordomias à custa dos contribuintes, são capazes de imaginar. Por isso, os olímpicos histerismos de alguns responsáveis desportivos que por aí se ouvem leva-os o vento porque a prática desportiva retomará de acordo com as condições que a pandemia vier a determinar independentemente dos habituais discursos de crocodilo que não servem senão para os institucionais orgânicos do costume conseguirem mais uns trocos do erário público que nunca chegarão onde deve acontecer a prática desportiva. E não vale a pena estarem com ameaças e reprimendas aos governos porque até Thomas Bach o líder da joia da coroa  do desporto internacional que é o Comité Olímpico Internacional (COI) não está certo daquilo que deve ser feito ao ponto de já admitir que se não houver vacina não haverá Jogos Olímpicos. Por isso, ver alguns dirigentes desportivos, há longos anos a saltitar entre diversos órgãos do poder burocrático, sem nunca terem realizado nada de significativo para além de construírem inúteis castelos de burocracia, a exigirem a ação dos governos que, por sua vez, também não sabem o que fazer, parece-nos do mais primário oportunismo de gente a tentar tirar partido de uma situação a todos os títulos catastrófica.

 

4.       Mas ainda se percebe menos a ansiedade das lideranças que nunca se interessaram por nada, a não ser pelo rendimento, os recordes e as medalhas dos atletas sob a sua alçada que lhes proporcionam protagonismo, agora estarem tão preocupados com o direito constitucional à prática desportiva dos cidadãos dos respetivos países. O direito ao desporto é uma responsabilidade inalienável do Estado, por isso, não venham agora alguns dirigentes com discursos de crocodilo a exigirem soluções de acesso dos cidadãos à prática desportiva quando nunca se interessaram minimamente por isso.

 

5.       Não há cultura desportiva sem educação e não existe educação sem prática desportiva do ensino ao alto rendimento. O desporto, enquanto educação que é, está implicitamente expresso na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nos países que apresentam resultados de excelência nas competições internacionais suportados em altas taxas de prática da generalidade da população o que, por via de regra, resulta numa  forte e esclarecida cultura desportiva, é natural que exista uma certa preocupação relativamente à quebra de receitas capturadas através das estratégias e planos de marketing fora dos dinheiros públicos. Nestas circunstâncias, o apoio oficial ao desporto deve ser equacionado com urgência, mas também, com o máximo rigor equitativo.

 

6.       Nos países em que os Sistemas Desportivos, com um padrão de subdesenvolvimento nas suas assimetrias sociais e económicas, vivem atavicamente dependentes dos habituais envelopes financeiros das respetivas tutelas politico-administrativas, não se justificam quaisquer apoios especiais uma vez que as despesas logísticas de suporte de vida das organizações estão garantidas por via da tutela e as despesas relativas às operações desportivas deixaram de existir. Por isso, não se percebe a perturbação de alguns dirigentes cujos Sistemas Desportivos apresentam taxas de prática desportiva mais do que medíocres e resultados nos Jogos Olímpicos absolutamente miseráveis quando, com ameaças de extinção e colapso das respetivas estruturas de base do desporto, exigem apoios financeiros sem que se perceba para quê ! E até fazem chegar às respetivas tutelas documentos reivindicativos, vazios de conteúdo e ausentes de propostas para além do “queremos mais dinheiro”.

 

7.       Se, no âmbito da Agenda 2020, o COI tivesse mantido a tradição que vinha do tempo de Monique Berlioux (antiga diretora geral da instituição) dos CONs apresentarem um relatório circunstanciado relativo à situação do desporto nos respetivos países o que, para além das habituais festarolas do Dia Olímpico,  os obrigava a conhecerem e refletirem o desporto bem como a terem uma visão estratégica aberta à sociedade sobre o seu desenvolvimento, hoje, não tínhamos de assistir, em vários países, à triste figura de alguns dirigentes desportivos, tal qual baratas tontas, sem saberem o que fazer nem para onde ir, a correr inutilmente de capelinha política em capelinha política e a produzir documentos de uma mediocridade confrangedora que não servem para nada a não ser para mostrar serviço e entreter os basbaques.

 

8.       Se os CONs, para lá das soluções providenciais como de vez enquanto acontecem protagonizadas por dirigentes com uma agenda própria e da boa vontade dos grupos espontâneos que se desfazem às primeiras dificuldades, tivessem promovido, como muita gente alertou para a necessidade, uma cultura de participação e reflexão estratégica, com a produção de verdadeiros documentos de trabalho, compreendidos e assumidos pelos diversos agentes que, posteriormente, após negociações verdadeiramente úteis e leais com a tutela, se encarregariam de os pôr em execução, o ambiente desportivo que se vive em muitos países seria muito diferente daquele que nos é dado assistir. Nos países desenvolvidos liberais e democratas de economia de mercado não é aos governos que compete essa missão é ao Movimento Olímpico cujos dirigentes, sob pena de serem afastados dos lugares que ocupam, deviam ser obrigados por aqueles que os elegem assumir essa responsabilidade. Se  os atletas são controlados segundo a segundo, centímetro a centímetro, destreza a destreza, golo a golo e vitória a vitória, se os técnicos são controlados e responsabilizados pelos resultados dos atletas e das equipas que orientam, porque é que os dirigentes não hão de ser responsáveis quando, ao cabo de vários anos de poder, os resultados são cada vez piores.

 

9.       Dizem que é nas crises que surgem as grandes oportunidades. E aqueles que acreditam em tal metáfora até explicam que no mandarim a palavra crise resulta da conjugação da palavra risco com a palavra oportunidade, ideia que, segundo a Wiki, é muito utilizada nas  palestras e nos textos motivacionais. Não posso garantir que assim seja, todavia, o que posso garantir é que seria de todo conveniente utilizar este compasso de espera que está a afetar todo o mundo para, além das proclamações estafadas dos feiticeiros de Oz que por aí pululam, perspetivar o desenvolvimento de um desporto novo que, à primeira grande dificuldade não se desmorone sobre si próprio como agora está a acontecer em muitos países. Esta situação fica em grande medida a dever-se ao facto da generalidade dos dirigentes desportivos do vértice estratégico dos Sistemas Desportivos apresentarem uma confrangedora ausência de perceção dos impactos sociais, culturais, políticos e económicos do desporto, pelo que se permitem tomar decisões à revelia das estatísticas que caracterizam a situação desportiva dos países e das respetivas modalidades enquanto instrumento de fundamental importância para a tomada de decisões. Ora, não existem boas decisões sem informação estatística. Decisões sem informação estatística não passam de decisões de conveniência. Alguma informação existe, outra está dispersa e outra não existe. O problema é que se veem dirigentes a pedirem cada vez mais dinheiro e nunca os vemos a solicitarem mais informação capaz de sustentar as decisões que tomam. E esta informação tem de ser conseguida em tempo real uma vez que existe uma interação dinâmica entre a informação e os seus efeitos no sistema que por sua vez vai gerar nova informação. Informação que os pode levar a perceber que: (1º) Não é criando mais burocracia e controlo que, algum dia, os Sistemas Desportivos poderão desenvolver-se. O desporto moderno desde a sua origem tem demonstrado uma extraordinária capacidade de auto-organização que deve ser estimulada e apoiada. Sempre que os dirigentes políticos e desportivos resolvem introduzir novas burocracias para resolverem problemas que eles próprios criaram só provocam caos e subdesenvolvimento; (2º) O dinheiro para o desporto deve, prioritariamente,  ser fornecido à base dos Sistemas Desportivos, quer dizer, aos clubes, sobretudo aos pequenos clubes que produzem prática desportiva e não às estruturas do topo que, tendencialmente, evoluem para produzir cada vez mais burocracia. Por isso, integrar um setor de natureza associativa e não lucrativa a funcionar no âmbito da economia social nas linhas de financiamento e mecanismos de apoio à economia real trata-se de uma opção contranatura que é necessário, a todo o custo, contrariar. A promiscuidade que hoje já habita no desporto deve ser combatida sob pena do desporto se transformar num simples espetáculo circense (o que em muitas circunstâncias já está a acontecer) à semelhança daquilo que se passava na Roma antiga; (3º) A valorização social do desporto tem-se traduzido na valorização social e política dos seus dirigentes, enquanto os ex atletas andam completamente ignorados e perdidos pelos cantos do esquecimento. Por isso, hoje, em muitos países, valorizar socialmente o desporto significa valorizar social e politicamente os dirigentes. Quando tal acontece através da constituição de fundos especiais à custa do dinheiro dos contribuintes trata-se de uma aberração; (4º) Diz-se que Salazar quando não queria resolver um problema criava uma comissão ou um grupo de trabalho. Propor a revisão geral do sistema fiscal e incentivos fiscais para o desporto!!! Para quê? O desporto do que mais necessita é de programas de educação desportiva, promotores de cultura desportiva. O resto e tudo o mais virá por acréscimo; (5º) A escassez de agentes desportivos é outro mito que salta para o discurso politicamente oportunista. Escassez baseada em que estudos? Faltam dirigentes profissionais? Benévolos? Ninguém sabe! E qual é a escassez? De quantidade? De qualidade? Escassez baseada em que fundamentos: Num modelo de desenvolvimento sustentado no mercado ou sustentado no Estado? (6º)  A inclusão da ideia peregrina que, geralmente, salta para o rol de reivindicações é o turismo. Na realidade, o turismo necessita do desporto nos seus vários aspetos para o desenvolvimento de projetos. Já o desporto, de acordo com as características de cada país, pouco ou quase nada necessita do turismo para o seu próprio desenvolvimento. Neste sentido, o melhor que o desporto pode fazer a fim de valorizar a interface que estabelece com o turismo é promover o seu próprio desenvolvimento do ensino ao alto rendimento. Quer dizer, se as Federações Desportivas tratarem do desenvolvimento das suas modalidades o Turismo, depois, saberá tirar partido desse desenvolvimento que se repercutirá no desenvolvimento do desporto. Não vale a pena andarem a inventar à custa do dinheiro dos contribuintes; (7º) Na primeira metade do século passado e nos países menos desenvolvidos até finais dos anos setenta, as campanhas de sensibilização da importância do desporto tinham alguma lógica. A vinte anos passados sobre o século XXI regressar ao passado é de uma falta de visão confrangedora sobre o que deve ser o desenvolvimento do desporto no século XXI. Se o Estado cumprir as suas funções a sociedade civil, naturalmente, também o saberá fazer. O problema é que as estruturas do vértice estratégico dos Sistemas Desportivos, em muitos países do mundo, foram capturadas pelos Estados neomercantilistas e transformadas em meras repartições administrativas. O melhor que pode acontecer ao desporto é que elas não atrapalhem.

 

10.   Relativamente às questões que acabámos de equacionar Portugal podia estar numa situação privilegiada e, até, ser um exemplo. E porquê? Porque, em Junho de 2013, foi criada uma Comissão de Orientação Estratégica que tinha por função o aconselhamento crítico do COP.   Tinha uma missão de natureza consultiva e assumia-se como “um fórum de discussão e crítica sobre os eixos de orientação estratégica nas questões ligadas ao cumprimento da missão e finalidades do COP”. E devia assumir-se como um “espaço de diálogo e intercâmbio de ideias, acompanhando as políticas para o desporto e refletindo sobre o seu posicionamento estratégico e o respetivo modelo de desenvolvimento”. Era constituída pelo presidente do COP, presidentes das Federações Desportivas membros do COP e ex presidentes do COP. Segundo o regulamento, podiam ainda participar, sempre que fosse entendido conveniente,  “outras personalidades que não integrem a composição da Comissão”. Ao tempo, a 6 de Novembro de 2013 (Sapo), Mário Santos, Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos de Londres (2012), em afirmava: “em Portugal gostamos de fazer análises, mas não de mostrar números”. Na realidade, Mário Santos alertava para a necessidade de se iniciar uma nova era para o desporto nacional em que as decisões deviam passar a ser sustentadas por processos de tomada de decisão que as fundamentassem. Desde logo porque era inconcebível e hoje ainda é que pomposos documentos de orientação estratégica os únicos números que apresentavam e ainda assim acontece eram e são os que referenciam a ordem das páginas. Mas também não se percebe como é que as organizações desportivas do vértice estratégico do desporto nacional não percebem a necessidade de existir um sistema de informação estatística sobre a situação desportiva nacional que, em matéria de políticas públicas, permita tomar decisões minimamente credíveis. Nesta perspetiva, a tal Comissão de Orientação Estratégica podia ter iniciado um ciclo novo, todavia, se alguma coisa aconteceu ou foi produzida ficou no segredo dos deuses do Olimpo porque nada chegou aos simples mortais que habitam nas mais diversas organizações do desporto nacional.  Se aquela Comissão de Orientação Estratégica tivesse, realmente, funcionado ao longo dos últimos sete anos, hoje, para além de ser um exemplo para o mundo, o COP estava seguramente munido da inteligência, da informação, do conhecimento e das competências necessárias e, sobretudo,  de uma cultura sustentada numa estratégia operativa que permitiria tomar decisões em ambientes de grande complexidade caracterizados pela sua incerteza, volatilidade e dúvida permanente que caracterizam os tempos de pandemia que o Mundo está a viver. Se assim tivesse acontecido, o País não tinha de assistir à mais antiga instituição desportiva do vértice estratégico do desporto nacional a solicitar soluções ao governo quando se sabe que, nos tempos que se vivem, nenhum governo tem capacidade para as dar. Mas este é um imbróglio burocrático que, certamente, o presidente do COP já teve oportunidade de explicar aos presidentes das Federações Desportivas. Entretanto, para memória futura, espero que também explique, muito bem explicadinho, ao País.

 

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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