As razões para a queda inesperada de Bruno Lage

Benfica 28-06-2020 13:00
Por Rui Miguel Melo

Há um ano, Bruno Lage estava a dias de começar a época 2019/2020, e com capa de herói para os benfiquistas. O treinador que saíra da equipa B para substituir Rui Vitória conquistara o Campeonato, depois de anular sete pontos de vantagem para o FC Porto, com triunfos em Alvalade e Dragão e um 10-0 ao Nacional. O conto de fadas continuou em agosto, com os 5-0 ao Sporting na Supertaça. O bicampeonato parecia assegurado, com sete pontos de vantagem sobre o FC Porto. Hoje, tudo é diferente. Na época do Covid-19, o treinador que bateu uma série de recordes é também o treinador da pior série de sempre de jogos sem ganhar na Luz, tem a saída no final da temporada praticamente assegurada, e nem o mais leal sócio encarnado parece acreditar na possibilidade de tirar o campeonato ao FC Porto. Como caiu um herói em quatro meses? A BOLA elenca uma série de razões que explicam, em parte, o declínio do Benfica. Mas uma coisa é certa. Aconteça o que acontecer, Bruno Lage será sempre o treinador da reconquista.

 

1. Substituição de João Félix

 

Quando assumiu a equipa, Bruno Lage apostou «no miúdo» e os seis meses de João Félix com Lage levaram o avançado a sair do Benfica para o Atlético Madrid por €126 milhões. O técnico de 44 anos acreditou na permanência do jogador, mas o dinheiro falou mais alto. O Benfica perdeu o melhor jogador, o mais influente na forma como jogava, e a saída de João Félix nunca foi devidamente colmatada pela SAD. O turbilhão atual de avançados é disso exemplo.

 

2. Constituição do plantel

 

«Quero um plantel curto e competitivo» foi a frase mais dita por Lage na pré-época. Mas o mercado acabou e o treinador começou a época com 27 jogadores, incluindo três guarda-redes. Quatro extremos esquerdos, por exemplo (Cervi, Rafa, Jota e Caio Lucas). A SAD não contratou um concorrente à altura para Vlachodimos, nem um central. Chegaram Carlos Vinícius e Raul de Tomas para o ataque, todos avançados puros, nenhum com a mobilidade de João Félix. Em janeiro saíram RDT, Fejsa, Gedson e Caio Lucas, entraram Weigl e Dyego Sousa. Mas as principais carências do plantel continuaram por resolver.

 

3. Samaris

 

Samaris tem uma relação afetiva forte com os adeptos e muitos lembram a importância do grego na época passada. Em 2019/2020, Samaris fez 21 jogos, mas raramente foi titular. Com Moreirense e V. Setúbal, por exemplo, o jogador foi titular, mas o Benfica não foi além de dois empates. Os adeptos continuam, porém, a chamar pela presença do médio grego.

 

4. Campanha europeia

 

Luís Filipe Vieira falou do sonho de um grande Benfica europeu e o apuramento para os oitavos de final da Champions foi objetivo assumido. Zenit, RB Leipzig e Lyon abriam boas perspetivas, mas duas derrotas nas duas primeiras jornadas mostraram a falta de estatuto europeu da equipa. As opções do treinador, ao colocar Tomás Tavares de início ou estrear David Tavares com os alemães, foram discutidas. O Benfica mostrou outra face com RB Leipzig fora (2-2) e Zenit (3-0), nos últimos dois jogos. Era tarde de mais para o apuramento e ficou a sensação de que a equipa podia ter alcançado um pouco mais. Na Liga Europa, eliminação diante do Shakhtar. Na segunda mão, as águias desperdiçaram dois golos de vantagem.

 

5. Mudanças no onze

 

As lesões prolongadas de Chiquinho, Rafa e Gabriel trouxeram problemas, mas algumas críticas que têm sido feitas ao treinador têm a ver com o onze. RDT, Rafa, Chiquinho, Gedson e Taarabt foram jogadores que jogaram como avançados, mas nenhum se fixou. Taarabt, por exemplo, tem alternado entre meio-campo e médio ofensivo. Mas a maior crítica está na gestão dos avançados. Com Tondela e Portimonense, Carlos Vinícius foi titular. Rendeu pouco. Dyego Sousa foi a escolha com o Rio Ave e Seferovic com o Santa Clara. Nestes dois jogos, houve troca de avançados logo ao intervalo. Se na época passada o onze para a Liga poucas ou nenhumas vezes era mudado, o mesmo não se pode dizer desta época.

 

6. Líder no balneário

 

Luisão e Jonas penduraram as botas e Salvio, importante nos jogadores sul-americanos, saiu para o Boca Juniors. Hoje as referências são outras, mas parece faltar a liderança de outrora no balneário. Jardel passou a capitão, mas, nas conversas com o Sindicato sobre a paragem do campeonato e o Covid, foram Pizzi e André Almeida a servirem de intermediários. Daí que o regresso de Luisão para a equipa técnica esteja a ser pensado para a próxima época.

 

7. Jogadores não aparecem

 

Nos últimos jogos, a cara dos jogadores do Benfica sempre que sofrem um golo é sintomática da crise de confiança. A expressão de Pizzi no banco de suplentes depois do golo de Zé  Manuel, com o Santa Clara, ou de Vlachodimos ainda no relvado, mostram uma equipa que não compreende o que está a acontecer. Nos últimos jogos, os principais jogadores, os mais influentes, como Pizzi, Rafa ou Rúben Dias, não têm aparecido tanto como a equipa precisa.

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