A casa portuguesa (artigo de Paulo Jorge Pereira)

A BOLA É MINHA 26-06-2020 10:15
Por Paulo Jorge Pereira

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.


Hoje fui almoçar a um restaurante português em Vigo, a Casa Portuguesa. Encontrámos nas redes sociais a informação da sua existência. Como acredito que uma das missões que temos enquanto cidadãos, após este período de pandemia, é contribuir dentro das nossas possibilidades à reabilitação da economia, uma das coisas que fizemos foi reservar neste restaurante um almoço, mal o desconfinamento teve início. É certo que, olhando para a página de Facebook do restaurante, o menu é atrativo, sobretudo para um Português que vive uma grande parte do tempo fora do seu país. Lembro que resido em Espanha. Experimentámos algumas iguarias tipicamente portuguesas propostas pelo Daniel Gonçalves, o dono e cozinheiro, ao som dos fados de Marisa. A esposa do Daniel, Emanuela Gonçalves (de origem brasileira), rodopiava simpaticamente pelas mesas enquanto nos perguntava o que iríamos comer.


Eu já me tinha antecipado na demanda, porque fui perto da cozinha perguntar ao Daniel o que nos propunha. Acabámos por nos decidir por um bacalhau à moda da casa com batata fumada. Bebemos um vinho verde de produção exclusiva para o restaurante e que o Daniel vai, religiosamente, levantar à Sapataria Mesquita, em Braga, propriedade do seu tio Manuel Mesquita, sobre quem fala com carinho e gratidão. Poderia continuar a descrever o menu, mas tendo em conta o propósito desta reflexão, acaba por ser secundário. Fomos falando ao longo do almoço e sobretudo no final. Percebemos que, em Vigo, existe um jovem Português nascido em Barcelos, tendo vivido a maior parte do tempo em Lisboa e corrido meio mundo, que não abdica de trabalhar com sal Vatel e azeite Gallo. Se terminarem as natas portuguesas, o bacalhau com natas desaparece da ementa, trabalha fundamentalmente com vinhos nacionais e vai buscar a sardinha a Matosinhos para a noite de São João.


A voz de Marisa acompanhou, como referi, o nosso repasto, mas também me saltou à vista um livro com tanto de música portuguesa, como das vivências da minha juventude. Das Turmentas há Boua Esperança, título de um disco dos Trabalhadores do Comércio, grupo do Porto cuja imortal canção Chamem a Polícia logo me veio à memória. E mais um mote para a conversa do Daniel que, afinal, contou manter amizade com Sérgio Castro, vocalista do grupo que reside em Vigo, onde detém um dos maiores estúdios de gravação da Galiza. Deste cliente habitual, Daniel contou ainda da oferta do tal livro. Não bastasse essa curiosidade, além do título, saltaram à vista na capa elementos dos Descobrimentos e dos Heróis do Mar. Nem mais do que a alcunha por que a Seleção Nacional de andebol ficou conhecida pelo percurso feito até e durante o histórico Campeonato da Europa, da Noruega (inédito 6.º lugar).


Chamou-me a atenção a paixão e a energia que o Daniel e a Emanuela colocam naquilo que fazem. Tudo isto fez-me lembrar a luta que muitos portugueses têm no seu dia a dia para marcarem presença em mercados extremamente competitivos e que nunca deixam de sonhar, respeitando, acima de tudo, a sua identidade e as suas raízes. Fez-me pensar que a paixão é crucial para se atingirem resultados excelentes, até nos sentirmos inconscientemente competentes. Voltaremos à Casa Portuguesa porque, além do excelente menu, queremos fazer parte de um motivo comum, mostrar o que é nosso!
 

 

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