A prática desportiva e a Escola (artigo de Vítor Rosa, 107)

Espaço Universidade 01-06-2020 18:59
Por  Vítor Rosa

Será que o atraso que se verifica na prática desportiva em Portugal é da Escola? As opiniões valem o que valem. Alguns comentadores, dirigentes e políticos dizem que sim. Outros respondem que não. A verdade é que muitos ignoram a realidade da escola (pública e privada). A existência de alguma confusão sobre o que é o desporto e o que é a educação física também não abona em nada. Sabemos que a escola, enquanto espaço de aprendizagem, pode dar um contributo para a elevação da prática desportiva, mas não resolve todos os problemas existentes. Não lhe cabe a ela formar “campeões” e “atletas”. Todavia, a prática desportiva escolar pode dar um contributo, qualificando os jovens. O esforço tem que vir também dos clubes desportivos. Mas muitos não conseguem atrair a juventude, que organizam o seu tempo livre de outra forma. Os espaços de sociabilidade, os hábitos, os consumos e os gostos culturais são outros.

 

Determinados dirigentes de clubes precisam de compreender isso e deveriam se adaptar-se novas realidades. Neste mundo globalizado, há práticas desportivas que não têm interesse por parte dos jovens. Os estudos nacionais e internacionais, relativamente aos hábitos desportivos, demonstram que determinadas variáveis (idade, género, escolaridade, estatuto socioprofissional) são estruturantes da prática desportiva. Em termos tendenciais, podemos dizer que: 1) os homens praticam mais desporto do que as mulheres; 2) os jovens praticam mais desporto do que os mais velhos; 3) os que têm um nível de escolaridade mais elevado do que os que têm um nível de escolaridade mais baixo; 4) os que detêm um estatuto socioprofissional mais elevado do que os que detêm um estatuto socioprofissional inferior. O argumento da “falta de tempo” entre os não praticantes, como a principal razão para não praticarem uma modalidade desportiva, merece um estudo aprofundado em Portugal.

 

Os que dizem não gostar de desporto permite reforçar a ideia de que existe uma deficiente aculturação dos valores da cultura físico-desportiva. Quando olhamos para os dados do Eurobarómetro do Desporto e da Atividade Física (2017), verifica-se que participação desportiva portuguesa é baixa, quando comparada com outros países da União Europeia. Em 2009, a percentagem de portugueses que praticava exercício ou desporto regularmente era de 9%, diminuiu para 8% em 2013 e para 5% em 2017. O número dos que raramente ou nunca praticam estas atividades (nos tempos de lazer) subiu de 66%, em 2009, para 72%, em 2013, e para 74%, em 2017. Estudos recentes referem também que muitos adolescentes não praticam exercício físico suficiente. Portugal regista uma percentagem de 84,2% (em adolescentes, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre 11 e 17 anos). Ocupa, assim, o 74.º lugar da tabela de classificação dos 146 países avaliados pela OMS (Organização Mundial de Saúde) entre 2001 e 2016. Dá que pensar…

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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