Memórias da minha segunda Champions (Artigo de Paulo Sousa)

A BOLA É MINHA 28-05-2020 09:27
Por Paulo Sousa

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

A 28 de Maio de 1997, o Borussia Dortmund venceu a Juventus para conquistar a sua primeira e (até agora) única Champions League.
 Foi uma noite incrível para milhares de adeptos alemães, para as centenas de pessoas envolvidas nesse caminho de sonho dentro do clube, e para mim, um momento especial: ganhava a segunda Champions League consecutiva e em dois clubes e países diferentes.


 A minha melhor fase enquanto jogador foi no Dortmund. Foi um período curto da minha carreira, logo após uma lesão, que fora um dos motivos que me empurrou para a saída da Juventus. Naquela época, a Serie A era o melhor campeonato do mundo, e a Juventus a sua melhor equipa. Mas o futebol que se jogava e vivia na Alemanha era muito especial: os estádios estavam sempre cheios, os adeptos com uma atitude sempre positiva e de apoio, e jogadores super motivados em resultado disso.


 Já tinha jogado duas vezes contra aquela equipa do Borussia, tanto na Taça UEFA como na Champions League (94/95 e 95/ 96 respetivamente). Nesses jogos, tive a oportunidade de analisar a equipa: muito boa a nível individual na maioria das posições, muito forte física e tecnicamente. Quando cheguei, pude confirmar que era mesmo assim. Aquele Borussia foi uma equipa em que me pude integrar, trazer o meu jogo, e elevar o nível para estarmos aptos a conquistar troféus internacionais.


 Essa sempre foi a minha mensagem, tanto para dentro como para fora: vinha para Dortmund para ganhar a Champions League.
 Ottmar Hitzfeld era um treinador muito inteligente. Para mim, tinha duas características que o destacavam, e que penso que foram fundamentais para o seu sucesso:
O instinto que utilizava para a sua tomada de decisão, que era fora do comum. Para um treinador não é só preciso saber ler o jogo, mas também tomar decisões muito rápidas, baseadas em algo mais do que a análise.


 Em segundo lugar, a forma como lidava com diferentes jogadores e personalidades, e o facto de não precisar de formar uma hierarquia para ser respeitado. Era um líder que conseguia agregar vários sublíderes dentro do grupo para poder discutir ideias. Naquele tempo, em que a grande maioria dos treinadores ainda atuavam como ditadores, era uma abordagem totalmente diferente. Este aspeto foi para mim um grande ensinamento, algo que valorizo muito ainda hoje, como treinador.


 Aquela era uma equipa fantástica: jogadores como Mathias Sammer, Jurgen Kohler, Andreas Moller, entre outros. Todos juntos, sob a liderança do Ottmar, a debater ideias para o nosso jogo e a levá-las adiante. Era uma equipa destinada ao sucesso. Quando decidi integrar essa equipa, sabia que era para chegar e causar impacto, mesmo havendo já muita qualidade presente.


Acredito que numa final, tudo é possível. Sou muito positivo, e acreditava plenamente naquela equipa. A 28 de Maio de 1997, isso provou-se: a Juventus era favorita, mas tinha a certeza de que poderíamos ganhar aquele jogo. A Juventus tinha feito grandes contratações, como Zidane ou Boksic, e era uma equipa ainda mais forte do que aquela em que eu tinha estado durante dois anos. Mas pela minha experiência de duas eliminatórias contra o Dortmund, sabia que éramos uma boa equipa, e sabia que poderia trazer algo mais para sairmos vitoriosos.


Os primeiros vinte minutos desse jogo foram difíceis: a Juventus mostrou que tinha um grande impacto. A certo ponto, disse ao Paul Lambert: «vês aquele tipo (era o Zinedine Zidane)? Só tens de te preocupar com ele. Tudo o resto a meio campo, eu trato. Mas não o largues!». Acredito que foi um dos momentos chave do jogo.


 Outro momento está relacionado com o tal instinto do Ottmar: a entrada em jogo do Lars Ricken. Há momentos na nossa vida em que há luzes, mas são poucos os que as conseguem ver. A entrada do Lars Hickman, a sua capacidade de fazer aquele gesto técnico na perfeição, no seu primeiro toque, 11 segundos depois de entrar, para fazer o 3-1, revela tanto da sua capacidade como da visão do Ottmar Hitzfeld.


Como jogador, sempre gostei de assumir a responsabilidade do jogo, em campo. Acredito que seja algo que tenha transportado e me tenha transportado, anos mais tarde, para a carreira de treinador. Esse jogo, que guardo com muito carinho, foi um exemplo de como encarar a competição, o momento decisivo que é uma final, e executar um plano, adaptando-o à medida que o jogo evolui, para chegar ao resultado desejado: a vitória numa das maiores competições do mundo como a Champions League.
 

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