Relançar o desporto pós-desconfinamento (artigo de Vítor Rosa, 106)

Espaço Universidade 27-05-2020 15:58
Por Vítor Rosa

A crise sanitária ligada à Covid-19 colocou os cidadãos em casa e os países ficaram “fechados”. Para além das incertezas que esta situação excecional provocou (e provoca), esta crise oferece também um tempo de reflexão sobre a sociedade que queremos, coletivamente, construir depois desta crise. O desporto, nas suas múltiplas dimensões (prática desportiva, espetáculo desportivo, atividade económica), não se pode afastar deste questionamento. Algumas preconizações (a curto, médio e longo prazo) poderiam ser tomadas em conta quer a nível nacional, quer a nível europeu:

 

1.   A curto prazo: relançar o desporto de forma partilhada e solidária. Na Europa o desporto pesa 2,12% do PIB europeu e representa 2,72% de empregos. Neste sentido, é essencial que o setor seja considerado como um elemento da retoma económica e que possa beneficiar de todos os apoios colocados em prática para fazer face a esta pandemia. A nível nacional: os atores desportivos devem beneficiar das medidas urgentes colocadas à disposição; estabelecer um plano de relançamento do desporto numa perspetiva de longo prazo (via fiscal, por exemplo); favorecer a convergência dos dispositivos de apoio; assegurar uma comunicação fluída e acompanhar os atores, por forma a responder à grande heterogeneidade de situações (associações desportivas, empresas privadas, etc.). A nível europeu: reorientar alguns apoios financeiros, nomeadamente dos fundos estruturais de investimentos europeus (FSE, FEDER), para ações que visem a promoção de bem-estar dos cidadãos, pelo desporto e exercício físico.

 

2.   A médio prazo: apoiar o desporto durante a fase de desconfinamento. O desporto representa um importante instrumento de coesão social, suscetível de facilitar novas formas de viver coletivamente e de acompanhar o processo de saída da crise. A nível nacional: adaptar materiais de proteção às especificidades das disciplinas desportivas; propor, no quadro escolar, um programa de educação e de higiene relativamente aos gestos de segurança apropriados, adaptado segundo as idades (as associações desportivas deveriam ser chamadas para desempenhar essas funções); encorajar a digitalização e a individualização da oferta de serviços desportivos propostos pelos clubes, federações, e privados; coordenar os calendários desportivos, evitando uma concentração de atividades e locais de prática. A nível europeu: encorajar as boas práticas no âmbito do desenvolvimento de ferramentas pedagógicas, mobilizando o desporto e a atividade física na Escola; criar novas oportunidades de financiamento e apoiar as inovações técnicas e sociais associadas à atividade física e desporto.

 

3.   A longo prazo: promover o desporto na sociedade. A nível nacional: encorajar o desporto para todos, nomeadamente para os mais frágeis socialmente; valorizar o estatuto do voluntário (colocar em prática contratos de trabalho associativos, permitindo aos clubes remunerar os voluntários com valores definidos e exonerados de impostos); desenvolver ferramentas informáticas (as universidades e os politécnicos poderiam auxiliar); transformar os espaços urbanos, para fazer das cidades, escolas, empresas, etc. ambientes de vida ativos, combatendo o sedentarismo e a falta de exercício físico.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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