Jogadores e treinadores serão gatilho da emoção (Artigo de Rui Almeida)

A BOLA É MINHA 24-05-2020 11:04
Por Rui Almeida

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

 

O ano 2019 foi, para mim e para minha família, um ano forte e repleto de momentos de grande intensidade (uns pelas melhores razões e outros pelas piores), mas é isto que tem dado enorme sentido à nossa vida. Nos últimos dez anos, desafiámo-nos com novas experiências, novas relações, novas culturas em diferentes países (Síria, Grécia, Egito, França) com novas casas, novas escolas, novas rotinas, novas pessoas nas nossas vidas. Essa aparente intranquilidade permitiu enriquecer e alargar a nossa visão da vida e do Mundo.
 
Ninguém no Mundo imaginava, porém, o que 2020 guardava para todos! Sem dúvida, também novas experiências, mas daquelas que todos dispensávamos!
Se alguém tinha dúvidas (muitos tinham!), há imensas coisas no mundo sobre as quais não temos controlo! Temos a capacidade de enviar, ao milímetro, naves e sondas para o espaço, fala-se mesmo do envio de humanos a Marte! Temos a capacidade de enviar mísseis que atravessam meio mundo e atingem o alvo milimetricamente! Mas falhámos por quilómetros, as advertências para os perigos da chegada certa de uma pandemia!

Infelizmente o sofrimento que proporcionou a todos, nomeadamente aqueles que perderam familiares e amigos, levou o Mundo, todos nós, a refletir, a olhar um pouco mais longe. Como António Damásio disse no seu livro Erro de Descartes: «O sofrimento proporciona-nos a melhor proteção para a sobrevivência, uma vez que aumenta a probabilidade de darmos atenção aos sinais de dor e agirmos no sentido de evitar na sua origem ou corrigir as suas consequências». Esperemos que esta seja a realidade futura, que os próximos tempos, sejam de ação real e sem retrocessos, no sentido da prevenção desta pandemia, mas também de outros temas, talvez ou não interligados, que estão em suspenso há anos/décadas: fome em diferentes partes do mundo, condições higiénico-sanitárias, aquecimento global, etc.

Os jogos à porta fechada serão um desafio? Sem dúvida que sim!  Contextos diferentes, que exigem adaptação de todos os envolvidos: jogadores, treinadores, árbitros e falo por experiência própria! Vários jogos sem público pela seleção da Síria, após o início da guerra (Kuwait vs. Turquemanistão). No Egipto (Zamalek, como adjunto do professor Jesualdo Ferreira), todo o campeonato decorreu à porta fechada e, por fim, em França, como treinador do SC Bastia, dois jogos, após os incidentes num jogo com o Olympique Lyon.

Para quem está em casa, vai-nos poder ouvir: instruções (e muito mais…), a comunicação entre jogadores, os feedbacks posicionais que passam entre eles, mas também o som do jogador a bater na bola. Tudo isto vai dar ainda mais realismo à imagem que veem.

Nós, dentro do terreno, seremos obrigatoriamente o motor da emoção no jogo. Jogadores e equipa terão de encontrar o gatilho da emoção, da adrenalina, pois eram muitas vezes empurrados pelos adeptos! Manter o foco no que controlamos, que é a qualidade da nossa ideia de jogo e como iremos impor-nos ao nosso adversário (nada de diferente). A única vantagem do ponto de vista de treinador, sem o barulho da multidão: poderemos falar um pouco mais baixo, pois os atletas vão escutar-nos muito facilmente, mas naturalmente o adversário também!
Leio, repetidamente, que não há futebol sem adeptos. Concordo a 100%! Jogar em estádios repletos, como o Olímpico de Atenas, Estádio José Alvalade, Estádio Bollaert-Delelis (Lens) é fantástico! É impossível substituir a paixão do adepto, que canta, salta, grita quando ganha e perde! Julgo que chegamos a um momento, que a pergunta não é se gostamos mais de futebol com ou sem adeptos, mas sim, sem adeptos ou…

Sem futebol!
Elogiar as inúmeras DOAÇÕES de pessoas  e instituições do futebol e do  desporto em geral para um objetivo comum. Federações, associações, treinadores, atletas, comprometidos com as suas responsabilidades sociais, promoveram várias campanhas de angariação de fundos, que renderam vários milhões de euros, destinados à aquisição de diverso material hospitalar e ainda bens alimentares para distribuir pelos mais afetados pela pandemia.

Palavra de AGRADECIMENTO para todos os que estão e estiveram na frente de todas as operações. Incansáveis na dedicação, prescindindo em muitas situações do seu bem-estar, para garantir o nosso. OBRIGADO!

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