O meu carro já deve ter as rodas quadradas (artigo de João Sousa)

A BOLA É MINHA 21-05-2020 10:41
Por João Sousa

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

 

Tenho saudades da minha vida. Daquela a que estou habituado há 15 anos, de aeroporto em aeroporto, carregando o saco de raquetas, de torneio em torneio. Aquela em que eu, o João Sousa tenista, se realiza. Porém, é nesta espécie de regresso ao passado, à minha outra vida em Guimarães, na casa dos meus pais, que escrevo estas palavras sobre este momento, em que este adversário desconhecido me obrigou, a mim e a todos nós, a renascer para uma vida diferente. A minha casa em Barcelona já não me conhece, provavelmente o meu carro de lá já está com as rodas quadradas. Mas sei que tenho de esperar mais um pouco, antes de tentar voltar à minha outra normalidade.

 

Não posso dizer que tenha sentido medo de ser infetado. Respeito, talvez. Tenho feito tudo para me proteger, cumprindo as indicações para que ninguém corra riscos. Existe sempre uma possibilidade de ficar doente, mas tenho estado envolto numa bolha de segurança que só fica abalada quando falo com os meus amigos, em Barcelona, e tomo conhecimento de que já sofreram com a doença ou tiveram familiares que faleceram devido a ela. São esses momentos que me despertam, abrem os olhos, lembrando que o vírus existe, não é só algo que vemos na televisão.

 

Não posso queixar-me da forma como me tenho habituado a esta nova realidade, mesmo sabendo que é perigosa e invisível. Tal como todo o ser humano, estou a tentar adaptar-me a ela, mais consciente do quão preciosas são a saúde e a liberdade. Qualquer uma delas está ameaçada, dificultando a forma como encaro o confinamento. Tenho saudades das minhas rotinas, dos treinos, no fundo, de ter um bocadinho da minha outra vida. Por outro lado, sou um felizardo, porque tenho boas condições para sobreviver. Regressei a casa dos meus pais, que é grande, tenho court para me treinar e muita natureza em redor.

 

Tenho aproveitado para repousar e desfrutar do estar em família, algo tão raro. Estou há 15 anos em permanente viagem, e neste período posso garantir que, se calhar, nunca estive mais do que dez dias seguidos em casa dos meus pais e foi em período de férias. Agora já cá estou vai para lá de dois meses. Este é o lado bom.

 

As regras cá em casa são um pouco diferentes das que a profissão me ensinou, mas até sabe bem cumprir os horários cá de casa. Sobretudo os das refeições. Aqueles em que deleito com os cozinhados da minha mãe. É cliché, mas a comida das nossas mães é sempre a mais especial. Cá em casa não somos muito de fritos, só que ninguém resiste a um arrozinho de cabidela e outros petiscos tradicionais. A pobre da minha mãe é que já está sem ideias, já nem sabe o que há de preparar para pôr na mesa, mas o que quer que venha é sempre maravilhoso.

 

É verdade, nesta minha nova/antiga vida não tenho poupado muito a Sra. D. Adelaide na cozinha, mea culpa, mas ajudo na arte da jardinagem. Do lado de fora da casa, corto a relva, é mais o meu ramo [risos]. (In)felizmente não me falta espaço. É bom ter a casa grande, mas depois o trabalho é proporcional cá fora. Já não estava habituado a estas tarefas. E assim vou compensando a falta que sinto da pressão de competir, das viagens…

 

Além deste convívio familiar, também tenho usado o meu tempo livre para ler, gosto de livros sobre acontecimentos históricos, e jogar PlayStation, na maior parte das vezes com amigos de Barcelona. Vario entre o Fifa e o Fortnite, mas não ganho em algum deles. E eu que não gosto de perder em nada, insisto. Tenho que ver se ganho algum jeito para aquilo, dê por onde der. Admito, tem sido uma missão complicada, definitivamente este tipo de jogos não são o meu forte. Sou fraquinho nos dois.

 

Agora que o desconfinamento está em marcha, tenho aproveitado para ir ao ginásio, mas pouco mais. Sou defensor que este processo deve ser feito gradualmente, embora tente estar na melhor forma possível. Também dei um salto ao clube de ténis para me treinar, principalmente nos dias em que choveu. E sempre pude socializar, sempre com o distanciamento social recomendado. Soube bem. Tinha saudades. Tantas quantas as que tenho de ir à Praça da Oliveira. É um sítio mítico com alguns bares, um local muito bonito no centro da cidade. Sim, é um espaço de reunião e confraternização com os amigos, algo que já há algum tempo não faço. E ainda é cedo para voltar a fazê-lo…

 

Tão incerto como qualquer previsão de regresso à competição. Neste momento, continuo apenas a tentar perceber qual será a melhor altura para voltar. O ténis tem esta dualidade. Por um lado, é uma das modalidades em que o regresso aos treinos parece ser mais fácil. Por outro, voltar a competir é talvez das mais difíceis, dado que estamos a viajar pelo mundo permanentemente. Tenho recebido muito pouca informação. O grupo de jogadores do top-100 no WhatsApp, do qual faço parte, tem estado pouco ativo. Para já, a única certeza é que está tudo suspenso até final de julho. Tenho dúvidas que vá haver ténis este ano. É difícil prever. Penso que tentar jogar em agosto será prematuro. Vai depender se a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais que tutela o circuito masculino) quer prolongar o circuito até ao final do ano, se o quer cancelar e só reiniciar em 2021…

 

Enquanto estes ses não têm resposta, vou estando por Guimarães, batendo bolas com o meu pai. É ele que me vai atirando algumas bolas. Coitado, já não dá luta, só nos baldes, mas também se diverte. Para eles, está a ser bom ter o ninho cheio de novo. Para mim, está a ser ótimo voltar a uma normalidade que, afinal, também nunca deixou de ser a minha.

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