De volta ao mar (Artigo de João Rodrigues)

A BOLA É MINHA 19-05-2020 10:53
Por João Rodrigues

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

 

Dando o primeiro ano de vida como segurança, nos últimos 47 anos jamais havia ficado tanto tempo sem pôr os pés no mar. Se foi difícil? Muito, mas mesmo muito... particularmente para quem teve de me suportar todo este tempo enfiado em casa. Mas para se perceber o grau de dificuldade, convém contextualizar a minha realidade do dia a dia.


Vivo na ilha da Madeira. A primeira visão que tenho logo pela manhã, quando abro a janela do meu quarto, é aquele imenso azul. E nesse instante, instintivamente, ponho-me logo a imaginar como será o dia. Se haverá vento e de que direção, se o mar estará ordenado ou caótico. E depois, ato contínuo, visualizo-me usando uma qualquer prancha, para aceder ao oceano, seja de surf, SUP ou windsurf. À noite, quando volto a fechá-la, em noites de lua cheia, vejo um mar prateado. Em dias escuros de tempestade, ouço as ondas furiosas lá mais abaixo, ora rebentando em pleno oceano, ora explodindo de encontro ao calhau. E claro, já vou dormir a pensar como será o dia seguinte. É assim há 39 anos seguidos, dia sim, dia sim senhor.


As maiores ausências foram devidas, paradoxalmente, ao desporto. Uma qualquer lesão. Um mês terá sido o máximo, depois de uma operação ou outra. Mas essas não custaram assim tanto. Afinal, era a minha saúde que estava em causa.


No entanto, nestas seis semanas que agora passaram, estava de perfeita saúde. É caso para dizer que, desta feita, nem sequer uma mazela mais impertinente tinha. Aliás, quando fui apanhado por este verdadeiro tsunami, estava na clássica ida anual a Cabo Verde, descendo ondas em spots míticos da ilha do Sal, numa prancha de windsurf.


Houve um princípio que assumi desde o primeiro dia. O de que, enquanto assim estivesse decretado, não iria ao mar. Fi-lo baseado na crença de que vivo num Estado de Direito. Concordo com a regra de interdição ao mar? Não. Mas respeito. É o respeito que devo ao meu país e a quem teve de tomar tantas decisões, tão rapidamente, no meio de tanto ruído.


No entanto, se a proibição da ida ao mar estava alicerçada no conceito de preservação da saúde pública, então atrevo-me a sugerir que, agora que lentamente vamos saindo desta primeira fase crítica, esta será a altura para debater essa questão. Porque a saúde do indivíduo, como é sabido, não se restringe ao seu bem-estar físico. Abrange o seu bem-estar psicológico, ou, dito por outras palavras, inclui a sua saúde mental. E aí, seria interessante percebermos até que ponto este confinamento que não contemplava a prática de atividades ao ar livre, trará consequências para um conjunto apreciável de indivíduos. E não falo só daqueles que veem o mar como a sua segunda casa. Incluo neste lote todos aqueles que precisam da natureza para manter o seu equilíbrio emocional. Novos, mas sobretudos, mais velhos.


Em termos de saúde pública, teria sido um erro? Nunca saberemos. Mas podemos olhar para outros países, outras regiões, que assumiram que as atividades ao ar livre eram importantes e deviam ser mantidas. Não sei que argumentos terão usado para justificar tal decisão. Mas imagino que o que precisamos é de uma população saudável, que possa enfrentar esta pandemia recorrendo às suas próprias defesas naturais. E aqui, o exercício físico, o contacto com a natureza, pode ter um papel preponderante. Com regras, é certo.


O que de certa forma me deu alguma tranquilidade ao longo destas semanas foi a prática de yoga. Que me fez voltar a sentir níveis de concentração, de bem-estar, de relaxamento e de introspeção que não obtinha desde que a minha carreira olímpica terminara. Mas também me fez compreender como o mar desempenhou um papel tão relevante ao longo da minha vida. Foi lá que tantas e tantas vezes me transcendi. Onde me descobri uma e outra vez. Onde me deparei com as minhas limitações, fraquezas, mas também com aquilo que o ser humano é capaz. Fosse em mim ou noutros que nutrem a mesma paixão pelo oceano.
Nos Jogos Olímpicos de Pequim, numa regata em que estaria bem colocado ao fim da primeira volta, tive uma avaria no equipamento. Ainda que conseguisse velejar, era-me impossível manter a velocidade. Paulatinamente, vi a frota toda passar-me até terminar em penúltimo. E com esse pequeno incidente, perdi a esperança de obter um resultado interessante. Nesse dia, quando regressávamos de bote à marina olímpica, enfiado no convés, em silêncio e de costas para o mundo, não era sangue que sentia percorrer nas veias. Era antes um ácido, que me queimava por dentro. Jamais sentira tamanha ira, raiva, mesmo desespero, uma incompreensão pela ordem das coisas. Esse episódio deixou marcas. Mas foi esquecido, assim como o sentimento associado. Até que há pouco dias, regressou e instalou-se. E pela primeira vez na vida, apercebi-me de como a minha saúde mental é tão importante como a minha saúde física.


Já estava parado no meio do mar há largos minutos, olhando para o horizonte. Esperava pacientemente. Até que comecei a ver aquele alterar-se. Veio a primeira onda do set, grande, mas não era esta que queria. Deixei-a passar. Tal como a seguinte, maior e mais bem formada. E foi à terceira, que vi aquela maravilhosa massa de água agigantar-se à minha frente. Virei de bordo, bombeei duas vezes a vela e já estava a descer aquela montanha líquida. À minha frente, água lisa, inclinada. Acelerei por ali abaixo, descrevendo S’s numa melodia com o mar, embalado pelo som ensurdecedor da onda a quebrar atrás de mim, tendo como pano de fundo as magistrais falésias do Paul do Mar.


Sessenta dias depois, regressei ao mar. Estava um dia extraordinário. Vento, muito vento mesmo, sol e um mar que me chamava. Foi um regresso a casa, um retorno a mim mesmo.

 

 

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