O desporto-sistema e os seus valores (artigo de Vítor Rosa, 103)

Espaço Universidade 14-05-2020 15:31
Por Vítor Rosa

Com o aproveitamento do 50.º aniversário do nascimento da União das Sociedades Francesas de Desportos Atléticos (USFSA, no acrónimo francês), o barão Pierre de Coubertin (1863-1937) lança, em 1894, um desafio invulgar. Com 31 anos de idade, o orgulho e vaidade pessoal assim o obrigam. Ao analisarmos as questões geopolíticas e estratégicas dos primeiros Comités Olímpicos Internacionais (CIO), o projeto político de Pierre de Coubertin, tem, de fato, um sentido particular, sobretudo no âmbito dos valores alocados ao desporto moderno. Para regularizar a sua internacionalização, ele cria uma instituição que deverá ser o guardião do templo dos supostos valores do desporto. Os historiadores do olimpismo estão geralmente de acordo para datar a origem do CIO em junho de 1894, quando da organização de um congresso na célebre Universidade Sorbonne. O seu programa procura reunir intelectuais e homens políticos em torno do tema de amadorismo e profissionalismo e refletir sobre o tema dos futuros jogos olímpicos. 79 delegados de 12 países (Espanha, Itália, Inglaterra, Bélgica, França, Alemanha, Suécia, Rússia, Grécia, Nova-Zelândia, Estados Unidos da América, Uruguai) participaram durante mais de uma semana nos debates. Em 23 de junho de 1894, realiza-se a sessão plenária do congresso, que formula sete votos, nomeadamente o de renovar os JO. Esta série de intenções inaugurais constituem, na realidade, a primeira carta olímpica da história do desporto moderno. Em boa verdade, os 13 membros que o constituíram foram escolhidos por Pierre Coubertin.

 

Pertencendo todos a uma aristocracia ou à grande burguesia europeia e/ou mundial, estes “senadores” são designados, com minúcia, pelo barão. A composição do primeiro CIO é muito política. Vejamos mais em detalhe. O primeiro presidente do CIO chama-se Dimitrios Vikelas (ou Bikelas), residente em Paris desde 1872. Vice-Presidente da Sociedade de Estudos Gregos, ele incarna uma forte influência do pensamento helénico no olimpismo e representa uma garantia determinante no sucesso dos primeiros JO de Atenas, em 1896.

 

O CIO é composto de um general russo, Alexeï Boutowski, que estava na direção das escolas militares russas, de um médico checoslovaco, Dr. Jirí Guth (considerado um dos mais fiéis amigos de Pierre Coubertin), de um militar da armada sueca, o coronel Viktor Balck (considerado um dos pais do desporto sueco e defensor, desde a primeira hora, do restabelecimento dos JO), de um notável neozelandês, Léonard Albert Cuff, secretário da “New Zeland Amateur Athletic Association”, de um professor americano, William Milligan Sloane (professor na Universidade de Princeton de Nova Jersey), de um médico do Uruguai, o Dr. José Benjamín Zubiaur (reitor do Colégio Nacional do Uruguai), de um aristocrata italiano, o conde Mario Luchesi-Palli (Vice Cônsul de Itália em Paris), de dois ingleses, Charles Herbert (secretário da Amateur Athletic Association de Londres) e o Lorde Ampthill (aristocrata), de um húngaro, Ference Kemény (diretor da Escola Real de Eger na Hungria) e de um francês, Pierre de Coubertin (antigo secretário da USFSA), que arroga o título de primeiro secretário do primeiro CIO. Nota-se uma importância da amizade franco-russa relativamente à Inglaterra. Desde a sua promulgação, o CIO estabelece relações com o “Bureau International de la Paix” (Gabinente Internacional Permanente para a Paz), confirmando imediatamente a sua dimensão supranacional.

 

Os primeiros jogos em Atenas em 1896 reafirmam as intenções do francês, que transformam progressivamente esta instituição “democrática” num cenáculo aristocrático. A partir de 1896, Pierre de Coubertin dirige o CIO com mãos de ferro em luvas de veludo, nomeadamente até 1925, data da sua demissão de presidente do CIO, dando lugar ao seu sucessor, o conde Henri Baillet-Latour. Pierre de Coubertin controlou o desenvolvimento das federações desportivas internacionais, integrando-as progressivamente no CIO. Várias federações depois da Grande Guerra (1914-1918) tentam adquirir a sua autonomia, contestando a liderança. A concorrência do desporto feminino e do desporto da classe operária, subestimada antes da Guerra, deveria ser controlada.

 

Ela acaba por ameaçar o sistema olímpico, que decide reagir integrando-os, pois foi incapaz de os eliminar. Sobre o plano dos valores, esta assimilação de federações autónomas destabiliza um pouco mais a ideologia olímpica, que não hesita em atuar para salvar o que poderia ser no plano simbólico. Sem chocar muito, os valores do desporto operário ombreavam com os valores do desporto aristocrático. Nos anos 1930, a grande confusão reina. Se o presidente do CIO está à frente de um sistema, ele não controla mais a sua evolução.

 

O desporto oferece, no âmbito dos valores, tudo e o seu contrário. A urgência de salvar esta organização não governamental e o seu sistema de propaganda, incarnado principalmente nos JO, faz esquecer o inicial ideal filosófico. Para evitar a implosão e/ou complots olímpico por parte dos seus membros, o CIO mantém os critérios de recrutamento muito estritos. Os principais membros representam as grandes potências ocidentais, a que se integram, entre as duas Guerras, novas nações. Os países em via de independência não tinham nenhum direito de pertencer à instituição olímpica. De forma geral, só as grandes potências reinam na Suíça, fiéis ao princípio de Pierre de Coubertin, segundo o qual o CIO apoia-se prioritariamente nas nações fortes. O desporto-sistema coloca em prática a visão de uma sociedade internacional desigual. O CIO recruta os verdadeiros militantes, pronunciando a sua adesão de modo não democrático, dado que nenhuma eleição é organizada. O CIO organiza uma instituição internacional, fortemente hierarquizada, com as suas filiais, as suas organizações nacionais, as suas publicações, as suas manifestações, as suas tradições e os seus ritos, que promove valores que não são exatamente o seu reflexo.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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