«Quando as portas abrirem estaremos mais fortes do que nunca» (artigo de Frederico Morais)

A BOLA É MINHA 01-05-2020 10:41
Por Frederico Morais

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

 

2019 foi o ano montanha-russa na minha carreira desportiva.
Se, por um lado, o primeiro semestre foi difícil, por outro, o segundo semestre ficará marcado por algumas das melhores conquistas. No final de 2018 era o único surfista português no circuito mundial de surf, a elite do surf mundial, qualifiquei-me no final de 2016 e desde 2017 que, com muito orgulho, carrego a bandeira de Portugal e a responsabilidade de representar o nosso País naquilo que mais gosto de fazer: surfar. Parti para o Havai a saber que precisava de defender a minha posição no ranking, mas uma lesão inesperada, durante um treino, fez com que fosse impossível competir e apresentar a performance desportiva que sei que consigo alcançar. Mesmo assim, com o pé todo ligado, atirei-me para dentro de água. Não foi o suficiente e acabei por não me conseguir requalificar para a elite, descendo para o circuito de qualificação.
A recuperação física foi dolorosa, mais de dois meses sem surfar, mas a psicológica, e o facto de ter de regressar onde não sinto que pertenço, foi avassaladora. Os meus patrocinadores demonstraram-se, uma vez mais, parceiros desta jornada que tenho vivido e foram fonte de inspiração e motivação para o meu regresso.
Assim o fiz.
Foco, determinação e persistência.
Voltei a qualificar-me para o circuito mundial, venci três provas do WQS, o circuito de qualificação, e, com muito orgulho, uma vez mais, ergui a bandeira de Portugal. Mas não fiquei por aqui.
Concretizei o sonho máximo para qualquer atleta profissional: garanti a vaga de Portugal nos Jogos Olímpicos, no ano em que o surf entra pela primeira vez enquanto modalidade no programa olímpico.
Terminei o ano e a bola era, sem dúvida, minha.
Entrei em 2020 pronto para tudo o que aí vinha e, após dois meses a surfar as ondas de Portugal de Norte a Sul, parti para a Austrália com a bandeira na mochila, na esperança de erguê-la várias vezes.
Cheguei à Austrália no final de fevereiro e regressei em meados de março. Era mandatório que voltasse a casa e que em casa ficasse. Em menos de 15 dias, já em Portugal, vi o ano 2020 a tomar perspetivas completamente inesperadas. Vi o mundo a parar e, com ele, o circuito mundial de surf, os Jogos Olímpicos de Tóquio e até os treinos de mar.
Tirei a bandeira da mochila e, mais do que nunca, carrego-a ao peito. Estou em casa há cerca de 40 dias, não saio para treinar no mar porque tudo isso pode esperar agora. Treino diariamente exercícios que me vão ajudar a estar em forma quando voltar para o mar, vejo séries, compilei as minhas melhores ondas do início do ano e lancei um clip: MY HOME. Leio livros, brinco com os meus cães, a cabeça ainda foge para tudo o que 2020 tinha à minha espera, mas recentro-me e confio que hoje lutamos todos por um bem maior. Limpo pranchas, converso com os meus seguidores no Instagram, oiço música e volto a imaginar como seria 2020, onde a bola era minha. Reorganizo-me, volto a treinar, oiço música e faço um vlog.
A bandeira não volta para a mochila, está cada vez mais visível à espera de poder regressar, comigo, aos quatro mares do mundo, mas em segurança e com determinação.
Não sei se 2020 me devolverá a bola, mas uma coisa é certa: quando as portas abrirem estaremos mais fortes do que nunca.

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